Psicanálise e Eugenia, uma base em comum para ideias diferentes

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Na esquerda: Freud; Centro: Cope; Direita: Haeckel; Abaixo: Logo da Segunda Conferência Internacional de Eugenia (1921). Imagens de Domínio Público. Edição: Camila Marques E Silva

É comum em épocas diferentes da história, uma teoria ou ideia influenciar o pensamento da sociedade muito além do campo em que a ideia foi proposta, talvez o caso mais contundente seja com a Teoria da Evolução das Espécies por Seleção Natural, proposta por Charles Darwin e Alfred R. Wallace. Essa teoria teve impactos não só na biologia, mas também nas religiões, filosofia e nas ciências sociais e/ou humanas, além do cotidiano. Utilizando observações empíricas e o trabalho de Darwin-Wallace, Ernst Haeckel publica em 1866, a Teoria da Recapitulação, embora outros cientistas já haviam mencionado-a anteriormente. É graças a esse trabalho que nasce a famosa frase A Ontogenia recapitula a filogenia, onde a ontogenia diz respeito ao desenvolvimento embrionário de um ser vivo e a filogenia fala do histórico evolutivo da espécie desse mesmo ser vivo. De forma ainda mais simples, essa teoria diz que durante o processo de desenvolvimento do embrião, o mesmo repete toda a sua história evolutiva em diferentes fases, a figura abaixo ilustra bem esse conceito.

Representação da Teoria da Recapitulação em diferentes espécies. Créditos: Domínio Público
Representação da Teoria da Recapitulação em diferentes espécies. Desenho de Ernst Haeckel. Créditos: Domínio Público

O que muitos não sabem, é que essa mesma teoria foi utilizada para construir dois campos do conhecimento bem controversos e caracterizados como pseudociências, tratemos primeiro do mais antigo, a Eugenia. Esse termo foi criado por Francis Galton em 1883 e na definição do autor era “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”, esse tipo de pensamento ficou muito famoso por influenciar os pensamentos de Adolf Hitler e dar justificativas ao holocausto nazista, além de muitas outras atrocidades que foram desencadeadas pelo mundo. A Teoria da Recapitulação se encaixa na base desse pensamento, pois dizia que um embrião – no caso, o embrião humano – passa por todos os processos evolutivos anteriores de sua espécie até chegar no ser vivo como é conhecido, então haveria aí uma justificava para dizer que um ser era inferior ao outro se seu embrião não atingiu o ápice do desenvolvimento ontogênico e o ápice desse desenvolvimento, como é muito conveniente, seria o homem caucasiano da região norte da Europa, da região do Reino Unido para cima, então, para justificar o porquê desse ser o ideal desenvolvimento, muitos argumentos foram propostos.

Os adultos dos grupos inferiores, devem ter características das crianças dos grupos superiores, pois a criança representa um ancestral adulto primitivo. Adultos negros possuem características de crianças brancas, que seriam os lábios grossos, cara rechonchuda e arredondada e olhos grandes, por exemplo, segundo essa visão. Mas Edward Drinker Cope, um paleontólogo e anatomista americano, responsável por elucidar o mecanismo da Recapitulação, quis categorizar esses grupos inferiores, então os separou em quatro:

  1. Raças não brancas;
  2. Todas as mulheres;
  3. Os brancos do sul da Europa;
  4. Classes inferiores dentro dos brancos.

No quarto grupo, Cope tinha uma depreciação maior pelos indivíduos de classes mais baixas entre os irlandeses. Ele pregava a superioridade nórdica e foi um dos primeiros a usar o argumento eugênico para a xenofobia contra grupos judeus e da Europa meridional que imigravam para os Estados Unidos. E ele não para! Para explicar o porquê de pessoas que vivem mais ao sul serem inferiores, ele afirma que os climas mais quentes provocam um amadurecimento precoce do embrião, e, como amadurecer determinaria o desaceleramento e o término do desenvolvimento físico, os povos do sul só conseguem um tipo mais infantil de desenvolvimento e, portanto, são mais primitivos em seus estágios adultos. Os grupos do norte teriam um amadurecimento tardio, proporcionando um desenvolvimento mais longo. Segue abaixo um trecho retirado de seus textos sobre o assunto (todas as referências estarão no fim do texto, como de costume):

     “Não há dúvidas de que, nas raças indo-europeias, a maturidade de certos aspectos é mais precoce nas regiões tropicas que nas nórdicas; e, embora sujeito a muitas exceções, esse fenômeno é suficientemente genérico para ser considerado como regra. Assim, nessa raça – pelo menos nas regiões mais quentes da Europa e da América – encontramos uma incidência maior de certas qualidades que são mais frequentes entre as mulheres, como, por exemplo, a maior atividade da natureza emotiva em comparação com a atividade racional… É provável que os indivíduos do tipo mais nórdico tenham superado tudo isso já em sua juventude”

O outro conhecimento influenciado pela teoria de Haeckel, foi a Psicanálise de Freud e Jung, já que ambos eram partidários dessa ideia para o uso no desenvolvimento das teorias psicanalíticas. Em um de seus livros mais famosos, Totem e TabuFreud propõe uma reconstrução da história humana a partir de um conceito fundamental, o Complexo de Édipo. Ele explica que os filhos de uma sociedade ancestral, devem ter matado o pai para ter acesso às mulheres daquela sociedade, conclui aqui, que um evento real na evolução social humana, percorreu gerações e permanece, explicando comportamentos de aversão dos filhos para com seus pais, afeto para com suas mães e eventos de parricídio (filhos matando pais). Neste mesmo livro, ele explica muitos “complexos” utilizando dos mesmos argumentos, onde um episódio ocorrido no passado, perseverou nos indivíduos do futuro, como a aversão ao incesto. Na maioria dos casos, ele demonstra que quanto mais maduro é um indivíduo, menos esses “complexos” agem sobre a pessoa.

Para curiosidade do leitor, será citado aqui o primeiro trecho onde Freud cita o Complexo de Édipo no livro Totem e Tabu:

    “Publiquei recentemente, uma ‘Análise de uma Fobia num Menino de Cinco Anos’, cujo material me foi fornecido pelo pai do pequeno paciente. O menino tinha uma fobia de cavalos e, como conseqüência disso, recusava-se a sair à rua. Expressava o temor de que o cavalo entrasse no quarto e o mordesse e viu-se que isso seria o castigo por um desejo de que o cavalo caísse (isto é, morresse). Depois de ter sido removido o medo do menino pelo pai através de uma confiança renovada, tornou-se evidente que ele estava lutando contra desejos que tinham como tema a idéia de o pai estar ausente (partindo para uma viagem, morrendo). Encarava o pai (como deixou bem claro) como um competidor nos favores da mãe, para quem eram dirigidos os obscuros prenúncios de seus desejos sexuais nascentes. Desse modo, estava situado na atitude típica de uma criança do sexo masculino para com os pais a que demos o nome do ‘complexo de Édipo’ e que em geral consideramos como o complexo nuclear das neuroses. O fato novo que aprendemos com a análise do ‘pequeno Hans’ — fato com uma importante relação com o totemismo — foi que, em tais circunstâncias, as crianças deslocam alguns de seus sentimentos do pai para um animal.” (p. 83-84)

Sobre a Teoria da Recapitulação, ainda há muita discussão sobre ela, é importante o estudo da mesma para o entendimento da evolução, mas já foi demonstrado que não existe uma correspondência elemento a elemento entre ontogenia e filogenia, de modo que a recapitulação não é vista como uma lei. Os desenhos feitos por Haeckel foram forjados para se encaixarem em sua teoria e afirmações, como a formação de brânquias no feto humano (que são dobras no futuro pescoço do embrião e não têm a função ou composição de guelras ou nenhuma estrutura parecida), foram provadas erradas. Mas mesmo assim, suas ideias são exploradas e estudadas por biólogos e especialistas da área até hoje.


REFERÊNCIAS:

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