Qual porcentagem de filósofos acredita em Deus?

Crédito da Imagem: Shutterstock.

Por Robbie Gonzalez
Traduzido por Victor Rossetti da Net Nature

Os filósofos David Bourget e David Chalmers realizaram uma pesquisa mundial para avaliar onde os membros do seu campo se classificam em uma variedade de temas filosóficos, incluindo um conhecimento a priori, julgamento moral, o livre arbítrio… e até a possibilidade metafísica de zumbis*.

Os Davids distribuíram um questionário a 1.972 filósofos nos 99 “principais departamentos de filosofia” do mundo (neste caso, o seu grupo-alvo era composto predominantemente de departamentos em países que falam Inglês, dando origem a um viés reconhecido na direção analítica de concessão de Ph.D. ou filosofia anglocêntrica). O questionário constou de um levantamento de fundo, com 30 questões de múltipla escolha, e uma metapesquisa que pediu a filósofos prever como os seus colegas pesaria. Um pouco menos da metade do grupo de professores-alvo concluíram a pesquisa. Aqui estão as suas respostas:

1. O conhecimento a priori: Sim 71,1%; nenhum 18.4%; outros 10,5%.
2. Objetos abstratos: Platonismo 39,3%; nominalismo 37,7%; outros 23,0%.
3. Valor estético: Objetivo 41,0%; subjetivo 34,5%; outros 24,5%.
4. Distinção analítico-sintético: Sim 64,9%; nenhum 27,1%; outros 8,1%.
5. Justificativa epistêmica: Externalismo 42,7%; internalismo 26,4%; outros 30,8%.
6. Mundo externo: Não-cético realismo 81,6%; ceticismo 4,8%; idealismo 4,3%; outros 9,2%.
7. Livre arbítrio: Compatibilismo 59,1%; libertarianismo 13,7%; nenhum 12,2%; outros 14,9%.
8. Deus: ateísmo 72,8%; teísmo 14,6%; outros 12,6%.
9. Alegações de conhecimento: Contextualismo 40,1%; invariantismo 31,1%; relativismo 2,9%; outros 25,9%.
10. Conhecimento: Empirismo 35,0%; racionalismo 27,8%; outros 37,2%.
11. As leis da natureza: Não Humeana 57,1%; Humeana 24,7%; outros 18,2%.
12. Lógica: Clássica 51,6%; não-clássica de 15,4%; outros 33,1%.
13. Conteúdo Mental: externalismo 51,1%; internalismo 20,0%; outros 28,9%.
14. Meta-ética: Realismo moral 56,4%; moral anti-realismo de 27,7%; outros 15,9%.
15. Metafilosofia: Naturalismo 49,8%; não-naturalismo 25,9%; outros 24,3%.
16. Mente: Fisicalismo 56,5%; não fisicalismo 27,1%; outros 16,4%.
17. julgamento moral: Cognitivismo 65,7%; não-cognitivismo 17,0%; outros 17,3%.
18. Motivação moral: Internalismo 34,9%; externalismo 29,8%; outros 35,3%.
19. O problema de Newcomb: Duas caixas 31,4%; uma caixa de 21,3%; outros 47,4%.
20. Ética normativa: Deontologia 25,9%; consequencialismo 23,6%; ética das virtudes 18,2%; outros 32,3%.
21. Experiência perceptiva: representacionalismo 31,5%; Teoria Qualia 12,2%; disjunctivismo 11,0%; teoria sense-datum 3,1%; outros 42,2%.
22. A identidade pessoal: Visão psicológica 33,6%; visão biológica de 16,9; visão factual 12,2%; outros 37,3%.
23. Política: Igualitarismo 34,8%; Comunitarismo 14,3%; Libertarianismo 9,9%; outros 41,0%.
24. Nomes próprios: Millian 34,5%; Frege 28,7%; outros 36,38%.
25. Ciência: Realismo científico 75,1%; anti-realismo científico 11,6%; outros 13,3%.
26. Teletransportador: Sobrevivência 36,2%; Morte 31,1%; outros 32,7%.
27. Tempo: Teoria-B 26,3%; Teoria-A 15,5%; outros 58,2%.
28. O problema de Trolley: Mudar 68,2%; não mudar de 7,6%; outros 24,2%.
29. Verdade: Correspondência de 50,8%; Inflacionária de 24,8%; epistêmica 6,9%; outros 17,5%.
30. Zumbis: Concebível, mas não metafisicamente possível 35,6%; metafisicamente possível 23,3%; inconcebível 16,0%; outros 25,1%.

Então, quais as perguntas criaram mais consenso através de um campo notório por sua falta de consenso?

O conhecimento a priori, a distinção analítico-sintético, o realismo não-cético, o compatibilismo, ateísmo, posição não-Humeanista sobre as leis, cognitivismo sobre o julgamento moral, classicismo sobre a lógica, o externalismo sobre o conteúdo mental, realismo científico, e carrinho de comutação todos tiveram resposta positiva normalizada com taxas de cerca de 70% ou superior. Bourget e Chalmers, notam que sua metapesquisa tem indicado que muitas dessas posições não eram esperadas para ser tão universalmente aceita entre os filósofos pesquisados. Segundo eles, isso realmente reflete uma tendência mais ampla de que “filósofos como um todo têm crenças bastante imprecisas sobre a distribuição de pontos de vista filosóficos na profissão”.

Os resultados do estudo, que serão publicados na próxima edição da revista Philosophical Studies, estão disponíveis gratuitamente no PhilPapers.


Nota: “Zombies”, aqui, não se refere ao ser mortos-vivos que você provavelmente pensou – pelo menos não explicitamente. Na filosofia, um zumbi é um ser que se parece e age como um ser humano, mas não tem experiência consciente ou senciente. Veja aqui para mais detalhes.

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Austiene Vezula Pires
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Austiene Vezula Pires

Os loucos também tem os seus lugares, como podemos subir se não temos pensamentos,

Evandro C. Oliveira
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Evandro C. Oliveira

Como matemático e estatístico esta pesquisa é um tanto ‘bizarra’ em suas premissas amostrais e analítica. (por certo colocaram algumas premissas de buscar criar ‘paradigmas’). Tem uma conclusão de que X é Universal. Porém, acredita-se que algo ‘universal’ é algo que atinge o todo, e não somente 70% e de uma geração ou século X. Essa pesquisa poderia ser interessante para ter uma borrada tela que trás a imagem dos ‘pensamentos e ideias’ predominantes hoje dentro dessa amostra de pessoas (chamadas de filósofos). Porém, se fosse usar os questionamentos de antigos pensadores. Teríamos que lidar com a própria questão que… Read more »

Comentario
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Comentario

Perfeito. Concluir de forma taxativa com base em resultados secundários é completamente equicovado e metodologicamente desonesto.

Rodrigo A.
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Rodrigo A.

Eu ainda tento entender qual é a importância da filosofia hoje (não do estudo da história da filosofia).
Quero dizer, alguns casos eu sei que é importante, como a parte da lógica e de de deus. Mas qual é a importância de estudar “zumbis”? Existe alguma importância? Ou é como na matemática pura, que não tem, necessariamente, uma importância?

Mas é legal saber que existem tantos assuntos assim que ainda posso ler sobre.

Caroline S. Araujo
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Caroline S. Araujo

Primeiro que existe uma diferença entre importância e utilidade. Claro que vc pode classificar muitas coisas como importantes com base na sua utilidade, mas os termos não são equivalentes, tampouco pode-se reduzir o primeiro ao segundo. O estudo da possibilidade metafísica de zumbis seria como qualquer estudo dentro da possibilidade de um conhecimento. Da mesma forma que dentro das ciências existem milhões de pesquisas que descobrem relações totalmente inúteis e/ou bizarras, na filosofia não é diferente. A filosofia teria, então, algumas pesquisas que são como na matemática pura, que não têm nenhuma aplicação prática ATUALMENTE (no caso da matemática pura,… Read more »

Leandro Macedo
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Leandro Macedo

Exato, Caroline. E a filosofia é muito importante e útil para a ciência. Recentemente foi postado um artigo aqui sobre algumas áreas ou teorias da Física que alguns físicos acham que não precisam necessariamente passar por experimentos para ser validadas. E parte da argumentação deles para isso é filosófica. Creio que desde o século XX os físicos têm de ser um pouco filósofos também devido à complexidade das grandes teorias, como relatividade e mecânica quântica.

Sem falar nos demais pressupostos filosóficos usados na ciência, como a navalha de Occam.

Evandro Costa de Oliveira
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Evandro Costa de Oliveira

Ola Leandro, espero poder acrescentar algo a sua explanação tão brilhante. As Ciências, como a Física, não possuem também uma totalidade. O que quero dizer com isso? Existem os chamados Fisicos Teoricos e os Empiricos. Existe uma briga, uma guerra entre eles (o que é saudável). Algumas coisas, de fato são puramente metafisicas, e são intestáveis pelo método científico. Por outro lado, há o questionamento de que a Ciencia parte do empirico, de por a teoria a prova. E de que toda vez que isso foi feito, NUNCA, foi exatamente como a teoria previu. Pois toda teoria é IMPRECISA, e… Read more »

Luiz Pinheiro
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Luiz Pinheiro

O problema do brasileiro, em geral, é pensar sempre unicamente a curto prazo e, por isso, a grande massa da população é tão arredia às ciências. São raríssimas as situações em que uma descoberta científica se torna imediatamente utilizável na vida prática, como os raios x, que descobertos em 1895 já estavam sendo utilizados em todo o mundo, inclusive por militares brasileiros nas batalhas contra Canudos. Os próprios antibióticos, tão importantes, começaram a ser utilizados na prática clínica apenas 12 anos depois de sua descoberta (e esse nem é um exemplo tão extremo). Essa impaciência típica do brasileiro, sem querer… Read more »

Evandro Costa de Oliveira
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Evandro Costa de Oliveira

Olá Rodrigo, uma leitura muito interessante seria sobre Sócrates. Ele também questionava isso: qual a utilidade do sábio, do filósofo? – Na obra Apologia de Sócrates, encontra algumas indicações interessantes. Mas ele já percebia que o filósofo é a ‘mosca’ que incomoda os outros a pensar e questionar. E ninguém quer uma mosca zumbindo e incomodando no ouvido. Por isso, muitos foram perseguidos, outros até mesmo mortos. Todavia, a utilidade estaria que, pelo menos, esta mosca incomodou e fez o cavalo se mexer e sair do lugar… seja para tentar pegar a mosca, ou para tentar fugir dela. Infelizmente, com… Read more »

Angelo Lattari
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Angelo Lattari

A filosofia é muito utilizada na teologia pois como ferramenta de persuasão é muito forte e convincente na sedimentação dos dogmas !! Os cursos de formação de padres,pastores e teólogos são matérias obrigatórias assim como a teosofia e do direito canônico ! A pesquisa em questão não leva em consideração estes ramos da aplicabilidade filosófica e como bem disse o Evandro muitas vezes ela não anda sozinha e é acoplada ao Direito, à ciência, à idiomologia e linguística , enfim a quase todos os campos do conhecimento humano !!!

Vanya
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Vanya

Sou formada em Filosofia e nunca estudei sobre os “zumbis”.