Um ancestral humano desconhecido pode ter deixado pegadas de 3,7 milhões de anos na África

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Pegada misteriosa (esquerda) em comparação com A. afarensis (direita) em Laetoli. Créditos: McNutt et al., Nature, 2021.

Por Tessa Koumoundouros
Publicado na ScienceAlert

Há 3,7 milhões de anos, uma espécie desconhecida caminhou sobre duas pernas por um manto de cinzas vulcânicas no que é hoje o norte da Tanzânia. Esses passos, imortalizados pela cinza vulcânica que gradualmente se transforma em rocha, foram desenterrados em 1978 e erroneamente catalogados como sendo de seres semelhantes a ursos.

Mas nem todos concordaram.

“A identificação confiável dessas pegadas enigmáticas no Sítio A de Laetoli será impossível até que sejam mais completamente limpas e seguidas lateralmente”, argumentaram os antropólogos Tim White e Gen Suwa da Universidade da Califórnia em 1987.

Mais de quarenta anos após a descoberta, o antropólogo Ellison McNutt e seus colegas da Universidade de Ohio fizeram exatamente isso e compararam as cinco pegadas consecutivas à locomoção de ursos (Ursus americanus), chimpanzés (Pan troglodytes) e humanos.

A análise sugere que as pegadas eram de uma espécie desconhecida de um primata bípede que diferia claramente dos rastros deixados por outra espécie de hominídeo nas proximidades.

O solo de Laetoli apresentou incríveis 18.400 pegadas de animais, incluindo de hienas, girafas e avestruzes e hominídeos que andavam de maneira semelhante a nós.

Embora atribuir pegadas a esqueletos e espécies seja um negócio complicado, os pesquisadores agora estão bastante confiantes de que as pegadas nos sítios G e S pertenciam ao Australopithecus afarensis – a mesma espécie da famosa Lucy. As pegadas atribuídas a A. afarensis sugerem hominídeos que mediam entre 111 e 168 centímetros de altura.

As pegadas misteriosas do Sítio A vêm de um indivíduo menor, mais próximo de 100 cm de altura. Isso pode significar que as impressões foram feitas por um jovem, mas McNutt e a equipe acreditam que as diferenças morfológicas indicam o contrário.

O tamanho total das pegadas era mesmo como de um urso, com um pé invulgarmente largo, mas curto. A espécie misteriosa gravou no solo um dedão do pé evidente, com um segundo dedo do pé alongado de forma semelhante e um calcanhar largo. Chimpanzés e ursos têm calcanhares relativamente estreitos. Os ursos também tendem a dar passos com os pés mais afastados e não há sinais de marcas de garras.

As impressões bípedes no Sítio A retratavam um movimento estranho que envolvia cada pé se cruzando de um lado para o outro e sendo colocado no chão alinhando um calcanhar com os dedos do outro pé. Isso resultou em uma pegada esquerda mais à direita do que a pegada direita e vice-versa.

Claro, a marcha incomum também pode ter sido causada por um indivíduo andando espontaneamente de forma anormal naquele trajeto de suas viagens, como depois de quase cair. Talvez o terreno fosse um fator; mas desde pular até andar na ponta dos pés, os humanos também não são exatamente conhecidos por sempre se moverem da mesma maneira, principalmente quando somos jovens.

A impressão do dedão do pé se projeta para um lado mais amplo do que a que seria formada por nossos próprios pés, mas não tanto quanto no pé de um chimpanzé – um possível sinal de dedos dos pés aptos para agarrar em galhos. Também há um indício de uma parte elevada que pode indicar mobilidade no meio do pé – outra característica útil para escalar árvores.

Em um comentário publicado com a nova análise, a paleoantropóloga do Instituto Max Planck Stephanie Melillo aponta que os fósseis do pé de ‘Burtele’ da Etiópia também exibiam traços semelhantes de pegada, como um dedo opositor.

Mas o dedão desta espécie é claramente maior do que o segundo dedo do pé. O quanto de variação existe nos pés dos indivíduos desta espécie misteriosa não é conhecida.

Na década de 1970, A. afarensis foi o primeiro ancestral humano conhecido, então os pesquisadores pensaram que eles eram nossos ancestrais diretos; desde então, novas descobertas de fósseis mostraram que as coisas eram muito mais complicadas, com várias espécies de hominídeos coexistindo durante o mesmo período. Esta nova pesquisa adiciona ainda mais a este mosaico de nuances.

Juntos, McNutt e a equipe concluem que há evidências crescentes de que várias espécies de hominídeos usaram uma variedade de formas de pés para vagar pela África durante este período de nossa história verdadeiramente antiga.

Sua pesquisa foi publicada na Nature.