Um asteroide troiano de Marte pode ser um gêmeo roubado da nossa Lua

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O Polo Sul da Lua. Crédito: NASA.

Por Peter Dockrill
Publicado na ScienceAlert

Um asteroide distante puxado pelo arrasto gravitacional de Marte foi observado com mais detalhes do que nunca, e uma visão de perto revela uma surpreendente semelhança – que levanta algumas questões interessantes sobre as origens antigas do objeto.

O asteroide em questão, chamado (101429) 1998 VF31, faz parte de um grupo de asteroides troianos que compartilham a órbita de Marte.

Troianos são corpos celestes que vão parar em regiões gravitacionalmente equilibradas do espaço nas proximidades de outros planetas, localizados 60 graus na frente e atrás de um planeta.

A maioria dos asteroides que conhecemos compartilham a órbita de Júpiter, mas outros planetas também os possuem, incluindo Marte e a Terra.

O que torna (101429) 1998 VF31 (ou ‘101429’) interessante é que entre os troianos do Planeta Vermelho (os que seguem atrás de Marte enquanto ele orbita o Sol), 101429 parece ser único.

Representação de Marte e os troianos; 101429 é o ponto azul circulando L5. Crédito: AOP.

O resto do grupo, chamado Troianos de Marte L5, pertence ao que é conhecido como a família Eureka, consistindo em 5261 Eureka – o primeiro troiano de Marte descoberto – e um monte de pequenos fragmentos que se acredita terem se soltado de sua rocha espacial original.

Porém, 101429 é diferente. Em um novo estudo liderado por astrônomos do Observatório e Planetário Armagh (AOP, na sigla em inglês) na Irlanda do Norte, os pesquisadores queriam examinar o porquê.

Usando um espectrógrafo chamado X-SHOOTER no Very Large Telescope de 8m do Observatório Europeu do Sul (VLT) no Chile, a equipe examinou como a luz do Sol reflete em 101429 e em seus parentes L5 na família Eureka. Só que parece que 101429 e o clã Eureka não são parentes, afinal, com a análise revelando que 101429 mostra uma correspondência espectral para um satélite muito mais perto de nós.

“O espectro desse asteroide, em particular, parece ser quase uma duplicata exata de partes da Lua onde há base rochosa exposta, como o interior de crateras e montanhas”, explica o astroquímico da AOP Galin Borisov.

Embora não possamos ter certeza ainda do porquê, os pesquisadores dizem que é plausível que as origens desse troiano marciano tenham começado em algum lugar distante do Planeta Vermelho, com 101429 representando uma “relíquia fragmentada da crosta sólida original da Lua”.

Se isso for verdade, como o gêmeo perdido da Lua acabou se tornando um troiano unido a Marte?

Comparação espectral de 101429 e da superfície da Lua. Tradução da imagem: a linha negra é o espectro de 101429 e a linha vermelha é o espectro da superfície a Lua; na vertical, temos a reflectância normalizada (normalised reflectance) e na horizontal, o comprimento de onda em µm (wavelenght, µm). Crédito: AOP.

“O início do Sistema Solar era muito diferente do lugar que vemos hoje”, explica o principal autor do estudo, o astrônomo da AOP Apostolos Christou. “O espaço entre os planetas recém-formados estava cheio de destroços e as colisões eram comuns. Grandes asteroides [planetesimais] atingiam constantemente a Lua e os outros planetas. Um fragmento dessa colisão poderia ter chegado a órbita de Marte quando o planeta estava ainda se formando e ficado preso em suas nuvens de troianos”.

É uma ideia cativante, mas os pesquisadores dizem que não é a única explicação para o passado de 101429. Também é possível, e talvez mais provável, que o troiano represente um fragmento de Marte que foi ao espaço por conta de um tipo semelhante de impacto no Planeta Vermelho; ou pode ser apenas um asteroide comum que, por meio dos processos de intemperismo da radiação solar, acabou se parecendo com a Lua.

Outras observações com espectrógrafos ainda mais poderosos podem ser capazes de esclarecer essa questão da ascendência espacial, como também uma futura visita de uma sonda, diz a equipe, “que poderia, a caminho dos troianos, obter espectros em Marte ou na Lua para fazer comparação direta com os dados do asteroide”.

As descobertas são relatadas na Icarus.