Uma crítica à hermenêutica

Créditos da Imagem: Flávio Correa.

Por Mario Bunge
Publicado no Cápsulas

São João Evangelista assegurou que “o princípio era o Verbo, o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus”. Dois milênios depois, não sabemos o que foi o princípio. Nem sequer sabemos se teve um princípio. Mas sabemos que, nesta oração que começa seu evangelho, João se referiu apenas ao princípio do mundo, não para o que se seguiu. Suspeito que João não acreditava que o mundo era feito de palavras. Algum milagre de vez em quando, certamente. Mas o resto era concreto: montanhas e cabra, o mar da Galileia e seus peixes, pedras douradas de Jerusalém e os devotos de seu Templo, o pão e o vinho. Aqueles que creem que o mundo é composto de símbolos são professores de hermenêutica e semiótica geral, certos professores de literatura improvisadamente como teóricos e críticos sociais, bem como os autores de estudos pesados e opacos sobre “ação comunicativa”, “economia política do signo”, e outras ervas do mesmo deserto. Estes escritores gozam de grande prestígio na Alemanha, França, Estados Unidos e em suas dependências culturais no Terceiro Mundo.

Escrevem tão extensivamente que tolos os tomam como sábios. E escrevem tão difícil que os tomam como profundos. Seu estilo é o inventado por Hegel, aperfeiçoado por Heidegger e imitado por Derrida.

A tese comum destas escolas pós-modernas é que tudo o que existe é um pacote de texto ou signos. Como disse Derrida em um escrito tão enigmático como famoso: “Nada há fora do texto”. Daqui se segue que a tarefa do estudioso é interpretar “textos”, tão propriamente tais como os que as pessoas ordinárias chamam de coisas ou fatos, tais como um pedaço de pão ou uma partida de futebol. Em particular, os hermenêuticos reivindicam que os fatos sociais são textos ou entes parecidos com textos. Portanto, devem ser “interpretados” do modo que os teólogos interpretam a Bíblia ou os filólogos interpretam um manuscrito. Meu colega, o célebre Charles Taylor, chegou a definir o ser humano como “o animal que interpreta a si mesmo”.

Quem quer que não tenha sido educado na tradição textualista deve chamar poderosamente a atenção para certos aspectos desta doutrina. Uma delas é que não oferece provas de suas afirmações. Será porque não pode havê-la, já que o hermenêutico concebe a “interpretação” de um “texto” como estritamente pessoal e privado, subtraindo, portanto, ao exame crítico e à comprovação empírica.

Em outras palavras, o textualismo é arbitrário e dogmático. Outro aspecto chamativo do textualismo é que seu dogmatismo é tal, que o impede de ver que, se tudo que é real fosse textual, pouco nos custaria diagnosticar e evitar catástrofes ou remediar males. Qualquer corretor de provas poderia diagnosticar um mal qualquer. E qualquer um de nós poderia corrigi-lo com a ajuda de uma única borracha, papel líquido, ou pela tecla “delete” do computador. Dadas estas características, não é surpreendente que o textualismo não tenha produzido nenhum estudo ou projeto digno de menção. Por exemplo, os hermenêuticos não tem sequer tentando descrever, medir e nem explicar os ciclos econômicos, as guerras e nem as revoluções.

Será que não leem os periódicos, ou que não sabem interpretá-los por não se importar com os fatos e nem dispor de teorias científicas? Os hermenêuticos não nos dizem por quê certas medidas de saúde pública, tais como obras sanitárias, vacinação obrigatória, higiene pessoal, dispositivos de seguro nos lugares de trabalho, e a consulta médica periódica têm reduzido drasticamente a mortalidade e os acidentes de trabalho em quase todo o mundo. Será que não sabem ler estatísticas? Tampouco nos dizer por quê, nos países industrializados, a desigualdade social têm aumentando no mesmo ritmo que a produção, o que é escandaloso. Não são capazes de ler indicadores sociais e nem econômicos?

Os hermenêuticos, que se especializam em atos simbólicos, não nos explicam a persistência de movimentos sociais violentos apesar de seu fracasso repetido. Será que seu próprio dogmatismo os impede de ver os outros? Em resolução, a hermenêutica não descreve e nem explica a realidade social. Mas só consegue ocultá-la. Em efeito, seguindo o conselho do fenomenólogo Edmund Husserl, seus discípulos em estudos sociais apenas se ocupam de certas miudezas da vida ordinária, assim como os chamados atos simbólicos, tais como a conversação e a pregação. Mas os hermenêuticos deixam de lado o mais urgente da vida cotidiana: como ganhar a vida, educar os filhos (e os pais), coexistir com parentes, amigos, inimigos, vizinhos, companheiros de trabalho e patrões, e como ajudar o próximo. Preconizam o uso do microscópio de Weber, mas não usam. Os hermenêuticos tampouco nos dizem qual é a linha de pobreza de seu país, nem menos como gerenciar os pobres para sobreviver sem roubar. Desconhecem o telescópio de Marx.

O mínimo que se pode dizer dos hermenêuticos que escrevem sobre assuntos sociais é que seus volumosos escritos não explicam a vida social, e que sua atitude com as tragédias sociais é frívola. Se suas atitudes fossem um pouco mais sérias, fundariam o Partido Hermenêutico, ou a Associação Simbólica. A consigna deste partido político poderia ser: “Todo o poder aos signos”, “Para o bem-estar pelo símbolo”, ou “Faça a pátria: invente um símbolo”. O partido não teria frações de direita e nem de esquerda. Em efeito, uma vez que todo o social é textual, os textos não podem ser privatizar-se ou socializar-se. Mas o partido poderia ter uma fração extremista, que lançaria a consigna “Vivam os loquazes e os escribidores! Abaixo os taciturnos e os gagos!”.

Felizmente, os valentões desta fração se contentaram com gritos ou gesticulações mais vigorosamente que os moderados. A estratégia do partido poderia ser “Para ganhar simbolicamente, vote simbolicamente”. Seu programa econômico se resumiria na fórmula “Equilibrar o pressuposto simbólico: produzir um símbolo novo por cada símbolo usado”. Seu programa político: “Governar é corrigir inscrições ou imagens”. Um governo hermenêutico estaria constituído exclusivamente por peritos calígrafos, grafólogos, artistas comerciais, anunciadores, oradores, corretores de provas e outros artesãos do símbolo. Governo semelhante não serviria para nada. Mas ao menos não arrecadaria impostos, já que fazer inscrições e imagens custa pouco, ao menos se fazê-lo em pequena escala. O que custaria é produzir ou consumir signos que signifiquem algo verdadeiro, agradável ou útil. Mas para produzi-los ou consumi-los não se necessita de um governo hermenêutico. Mas se necessitam de cérebro curiosos e dispostos a submeter-se à disciplina de aprendizagem e a desfrutar dos produtos da culta pré pós-moderna, como a chama o meu amigo Robert King Merton, rei e decano da sociologia contemporânea. E a boa educação em si custa. Mas é muito mais rentável, duradouro e agradável do que o culto do símbolo pelo símbolo.

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