Uma visão teórica da Revolução Francesa

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Jean-Louis David, 1789, Museu Carnavalat, Paris

O século XVIII na França foi marcado por um regime monárquico autoritário e absolutista. O rei era também o Estado e os três poderes (legislativo, judiciário e executivo). A maior parte da população francesa não tinha participação nos problemas civis, isso cabia somente às camadas do segundo estado, clero e nobreza respectivamente. Ao terceiro estado (trabalhadores, camponeses e comerciantes) foi depositada as dívidas das crises que o Estado enfrentava. Porém as ideias iluministas que surgiram no século XVIII funcionaram como base teórica para a Revolução Francesa que gradativamente causaria o fim do Antigo Regime.

A maçonaria era composta pela burguesia e, como Koselleck afirma ao estudar John Locke, esse ambiente culto era o responsável pelo surgindo do pensamento iluminista. A palavra de ordem era “opressão” causada pelo Antigo Regime e a solução seria uma nova sociedade. John Locke foi um dos precursores do iluminismo e em suas obras procurava primordialmente romper com a ordem imposta pelo absolutismo. O poder divino do rei da França, defendido ideologicamente pelo Antigo Regime, por exemplo era uma ferramenta opressora ao terceiro estado. Para Koselleck existiam duas organizações sociais nesse período que iriam difundir esses novos ideais iluministas; as lojas maçônicas e as repúblicas de letras, ambas compostas por uma burguesia que crescia e ascendia porém não possuía influência política. Eram homens que tinham por objetivo fazer ciência e por isso se reuniam em propriedades privadas em segredo do Estado que seguia os dogmas religiosos.

Exemplo de loja maçônica do século XVIII
Exemplo de loja maçônica do século XVIII.

Para Robert Darnton – membro da corrente História Cultural americana – o iluminismo era muito além da maçonaria e do que ele chama de Alto Iluminismo, principalmente no âmbito revolucionário. Ele defende que a verdadeira face dos jacobinos eram os literários de sarjeta, frequentadores dos cafés de Paris que, influenciados pelo renomado Voltaire, partiam para Paris em busca de glória, fama e reconhecimento. Uma visão quase romântica era divulgada da vida dos filósofos em Paris. Porém a realidade era diferente e o que esses migrantes se depararam foi a fome, descaso por parte do Estado que mais estava preocupado em financiar os philophes (aqueles que escreviam em defesa do Antigo Regime) e uma academia completamente elitista e hierarquizada. Segundo Darnton, o próprio Voltaire dizia que o iluminismo deveria começar do alto para enfim chegar nas camadas de baixo. Essa realidade gerou um fenômeno revoltoso e revolucionário por parte dessa nova geração de filósofos que invadia a cidade de Paris o que acarretou na divulgação das novas ideias de igualdade, liberdade e fraternidade via panfletos de forma simples, acessível e até mesmo vulgar. A crítica chegou, inevitavelmente, à estrutura vigente de poder, ou seja, ao Antigo Regime e em todos aqueles que o sustentavam. O clero, a nobreza e a monarquia eram frequentemente satirizados por esses filósofos de sarjeta. Foi nos cafés e nos ambientes mais desprezíveis de Paris (eram comparados à prostitutas) que nasceu a Revolução Francesa. O privilégio era fortemente criticado pois o mesmo que mantinha a hierarquia da ordem social que não permitia uma condição social benéfica a esses filósofos. Com essa nova onda de ideias e filósofos Paris nunca mais seria a mesma e o campo metodológico e teórico para a Revolução Francesa estava pronto.

O americano Robert Darnton foi responsável pela redescoberta dos intelectuais de sarjeta que influenciaram a Revolução Francesa no séc XVIII
O americano Robert Darnton foi responsável pela redescoberta dos intelectuais de sarjeta que influenciaram a Revolução Francesa no séc XVIII.

Essas novas forças crescentes entraram em confronto direto com a aristocracia. O inglês Eric Hobsbawm da História Social Inglesa e membro da revista acadêmica New Left Review explica o fenômeno da Revolução Francesa trabalhando justamente em cima do privilégio civil e político dos nobres franceses que, em meio a crise causada pelas guerras que o Estado francês enfrentava, colocou as despesas sobre o terceiro estado que, como dito, não possuía participação política alguma. Apesar da convocação da Assembléia dos Estados Gerais o terceiro estado continuava prejudicado pois o voto era único por estado e o primeiro estado e o segundo estado eram aliados e tinham interesses em comum, deixando assim o terceiro estado sempre isolado politicamente o que explica a ausência de participação nos problemas reias da sociedade civil. O terceiro estado era composto, em sua grande maioria, por burgueses com ideias iluministas. É importante ressaltar que Hobsbawm foi um intelectual marxista e seguia o materialismo histórico e dialético. Para Hobsbawm a burguesia, em sua posição de oprimida, era a classe revolucionária logo suas ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se contrapunham com a reacionária aristocracia. A burguesia aqui vislumbrava uma sociedade justa e igual – onde todos que se esforçassem alcançariam a riqueza e não mais conseguida de forma hereditária – em suma utópica. O primeiro passo era o constitucionalismo na França que acarretaria em diversas mudanças; o fim do privilégio, o poder pelo mérito, o fim do direito divino, que também era uma forma de privilégio. A Revolução desencadeou assim que foi convocada pelo terceiro estado a Assembléia Nacional que objetivava reformar a constituição. O sucesso se deu pelo fato do terceiro estado estar representando também os camponeses e os trabalhadores pobres da cidade e não mais uma minoria contra a resistência unificadora do rei e das ordens privilegiadas. A estrutura monárquica que se sustentava no Antigo Regime foi arruinada com a implantação dos Direitos do Homem e do Cidadão. A Constituição de 1791 repeliu a abundante democracia por meio de uma monarquia fundamentada no direito do voto censitário dos “cidadãos”. Em resposta do outro lado a corte ainda conspirava contra a Revolução. Revoluções não são necessariamente sangrentas. No caso da França, a revolução poderia ter acontecido com tranquilidade: a Assembléia faria a nova Constituição e todos passariam a obedecê-la. Na verdade, as revoluções são sangrentas porque as antigas classes dominantes usam a violência para impedir a perda de privilégio, o que de fato aconteceu na França com a fuga do rei Luís XVI e o início de uma guerra – com auxílio internacional – contra a revolução que portanto resultou em uma revolução sangrenta. Logo após a guerra a monarquia foi definitivamente derrubada, e foi criada uma República estabelecendo assim uma nova era na história da humanidade! Surgiram dois grupos políticos; os girondinos representando a alta burguesia e os jacobinos representando a baixa burguesia e os sans-cullotes. Os jacobinos venceriam os girondinos dando início à República Jacobina.

O povo toma a bastilha, símbolo da opressão monárquica, pegam em armas, discutem democraticamente e decidem ser sujeitos da História.
O povo toma a bastilha, símbolo da opressão monárquica, pegam em armas, discutem democraticamente e decidem ser sujeitos da História.

O sociólogo político estadunidense Barrington Moore Jr. aponta uma visão diferente da Revolução Francesa. Moore trabalha com a ideia de que a Revolução só ocorreria por exclusividade dos sans-cullotes e dos camponeses. Eles (os sans-cullotes) fizeram a revolução burguesa na França e os camponeses determinaram até que ponto ela poderia chegar. Para Moore a necessidade de se obter alimentos em Paris mostra a importância das mudanças ocorridas também no campo. Caso os camponeses se rebelassem – como ocorreu em diversas vezes no período da Revolução – as cidades seriam fortemente afetadas o que gerou uma relação de interdependência e negociação de direitos.

A importância da teorização sobre a Revolução Francesa é necessária pois trata-se de um marco para a história mundial. Suas consequências nos influenciam até hoje e junto a ela o iluminismo que buscou a unidade da espécie humana. A busca pela verdade através da ciência em vez da religião, uma ética universal, a liberdade e igualdade são passos fundamentais para a nossa sociedade pois antes nos prendíamos em dogmas que não apresentavam explicações ontológicas algumas, só justificam opressões.

Bibliografia:

• Darnton, Robert. Os best-sellers proibidos da França pré revolucionária. São Paulo: Companhia de Letras, 1998.
•_________. Boêmia literária e revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Companhia de Letras, 1987.
• Moore Jr, Barrington. As origem sociais da ditadura e democracia. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
• Hobsbawm, Eric J. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
• Koselleck, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 1999.

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