Voltaire é Charlie

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Por João Pedro Lang

Os cartunistas do Charlie Hebdo e o pensador iluminista Voltaire têm em comum muito além da origem francesa. Voltaire era defensor radical da livre expressão. Era anticlerical e crítico voraz das religiões, do cristianismo ao islã, e do fanatismo religiosamente motivado – sem que isso o impedisse de defender a liberdade de crença. Era, também, parodista; em sua mais famosa publicação, Cândido, satiriza com escárnio a sociedade aristocrática francesa do século 18. Por isso, teve sua obra repetidamente censurada, ainda em vida e após sua morte, por diversos governos.

A similaridade não é à toa; a sátira sempre esteve na vanguarda da contestação dos limites impostos ao humor. Era o que o popular semanário francês fazia sempre que ridicularizava figuras de autoridade. É o que fazia quando denunciava a intolerância religiosa que nega direitos aos homossexuais, partindo do Irã ou do Vaticano. Quando lamentava as mortes promovidas por governos no Egito ou em Gaza. Quando repudiava o fanatismo religioso de todas as vertentes.

Provavelmente devido a uma mistura de charges retiradas de seu contexto político e dificuldades de tradução, a publicação, à frente da oposição ao racismo na França, foi confundida no Brasil e em outros lugares como um jornal racista e xenófobo a serviço da extrema-direita francesa. A Front Nacional, partido direitista de inspiração católica e um dos principais alvos das críticas do Charlie Hebdo, foi transformada em aliado de um jornal anticlerical de esquerda nos discursos dos que proclamam que ne sont pas Charlie.

A linha editorial do Charlie só pode ser entendida levando-se em consideração o contexto político francês, em que o laicismo tem voz ressoante. É preciso lembrar que se trata de um país que, nos idos do século 18, abandonou o calendário cristão em prol de uma “medida racional” dos dias. É o país do iluminismo, de Voltaire. Lá as religiões não são imunes à crítica – e os chargistas do jornal pretendiam quebrar tabus e fazer piada com as crenças que ainda não haviam sido banalizadas.

No Brasil, de fato, dificilmente haveria um Charlie Hebdo; o artigo 208 de nosso Código Penal provavelmente seria acionado para calar o jornal no primeiro desenho ácido em crítica a alguma religião. Por aqui, alguns sugerem que uma maneira de evitar o atentado seria uma intervenção da Justiça para punir o jornal em seu “primeiro excesso”. Utilizar da violência estatal para censurar o semanário antecipando-se à violência terrorista não parece, contudo, uma solução satisfatória. Seria ceder aos intolerantes precisamente o que buscam.

A liberdade de expressão, é preciso ressaltar, vem acompanhada de responsabilidades. A cada cartum considerado de mau gosto, o Charlie corria o risco de perder leitores, de ser criticado em escrutínio nacional, de ser boicotado e não conseguir financiamento para ser publicado. Todos têm o direito de se sentir ofendidos, de reclamarem, de criticar o jornal publicamente. Mas, como lembra Philip Pullman, é aí que seus direitos acabam. Ninguém deve ter a prerrogativa de silenciar o jornal por ser ofensivo, insensível, ou mesmo islamofóbico.

Trata-se de tolerância. Tolerância não significa aceitar passivamente o discurso alheio, mas abster-se de recorrer ao fuzil ou às armas não menos reais do Estado para calar o outro. É restringir-se às armas figurativas da crítica, do repúdio e – por que não? – do escárnio. Significa poder desenhar sem temer ser censurado pelo martelo do júri – ou pelas balas do intolerante.

Eu sou Charlie. Não porque concordo com o jornal e suas charges satíricas; mas exatamente porque discordo de muitas delas. A liberdade de expressão pode trazer um gosto amargo, mas é um ideal que vale à pena defender. “Até a morte”, como assinala a famosa frase atribuída a Voltaire; resta esperar, assim, que menos pessoas tenham esse desfecho.

Como disse Voltaire, advogando pela tolerância universal:

“Devemos considerar a todos os homens nossos irmãos. O quê? O turco, meu irmão? O chino, meu irmão? O judeu? O siamês? Sim, sem dúvida; não somos afinal todos crianças do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?”


Autor

João Pedro LangJoão Pedro Lang é, à noite, um liberal chato e, durante o dia, graduando na UnB. Seus interesses passam por macroeconomia, relações internacionais, economia da proibição, política brasileira, filosofia da ciência e leituras liberais e libertárias. Encontre-o em seu blog In dubio pro libertate.

Fonte

João Pedro Lang. Voltaire é Charlie. 2015.

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