Hora de trazer pseudociência para a aula de ciência

Hora de trazer pseudociência para a aula de ciência

Crédito da Imagem: Astro Solution.

A pseudociência é uma “reivindicação, crença ou prática que se apresenta como científica… mas carece de provas ou não pode ser testada de forma confiável.” A América está repleta dela.

“Cerca de um em cada três adultos norte-americanos acredita em telepatia, fantasmas, e percepção extra-sensorial”, escreveu um trio de cientistas em uma edição de 2012 da Astronomy Education Review. “Cerca de um em cada cinco acredita em astrologia, bruxas, clarividência e comunicação com os mortos. Três quartos realizam pelo menos uma destas crenças, e um terço tem quatro crenças pseudocientíficas distintas.”

Quem podemos culpar? Graças a apresentadores de TV populares como Mehmet Oz, que tem divulgado mais de 16 milagres de perda de peso em seu programa, nenhum dos quais ainda tem resolvido a epidemia de obesidade nos Estados Unidos. Graças a celebridades como Mayim Bialik e Jenny McCarthy, ambas defensoras da anti-vacina. Graças ao TLC por apresentar o programa “Long Island Medium” com Theresa Caputo, um meio com o qual ajudou a popularizar seu charlatanismo. Graças ao New Age guru Deepak Chopra, que empurra todos os tipos de medicinas alternativas ineficazes através de livros e aparições na mídia, enquanto aumenta sua fortuna.

Ao enfatizar a importância do pensamento crítico e do ceticismo fundamentado, grupos como o New England Skeptical Society , a James Randi Educational Foundation, e da Committee for Skeptical Inquiry constantemente combatem estes absurdos, mas todo o seu trabalho, muitas vezes caem em ouvidos surdos. É hora de assumir o problema da pseudociência para o coração da aprendizagem: escolas públicas e universidades.

Tim Farley, Karen Stollznow, Steven Novella e Ray Hall. Foto tirada na The Amaz!ng Meeting TAM9 em Outer Space. Crédito da Imagem: Wikipedia.
Na foto Tim Farley, Karen Stollznow, Steven Novella e Ray Hall. Foto tirada na The Amazing Meeting em Outer Space.

Neste momento, nosso sistema de ensino não parece estar diminuindo a crença em pseudociência. Uma pesquisa publicada em 2011 e conduzida ao longo de um período de 22 anos com mais de 11 mil alunos de graduação revelou que formas não-científicas de pensamento são surpreendentemente resistentes a instrução formal.

“Houve apenas um modesto declínio nas crenças pseudocientíficas após um curso de graduação, mesmo para os alunos que tinham feito dois ou três cursos de ciências”, disse os psicólogos Rodney Schmaltz e Scott Lilienfeld.

Em uma nova perspectiva publicada segunda-feira no periódico Frontiers in Psychology, Schmaltz e Lilienfeld detalham um plano para melhor instruir os alunos sobre como diferenciar fato científico de ficção científica. E, um tanto ironicamente, envolve a introdução de pseudociência na sala de aula.

A sugestão não é para o propósito de ensinar pseudociência, é claro; é para refutá-la.

“Ao incorporar exemplos de pseudociência em aulas, os instrutores podem fornecer aos alunos as ferramentas necessárias para entender a diferença entre afirmações científicas e pseudocientíficas ou paranormais”, dizem os autores.

De acordo com Schmaltz e Lilienfeld, existem 7 sinais claros de que algo é pseudocientífico:

  1. O uso de “psicologia barata” – palavras que soam científica e profissional, mas são usadas ​​de forma incorreta ou de uma forma enganosa.
  2. Uma dependência substancial de evidências anedóticas.
  3. Alegações extraordinárias, na ausência de provas extraordinárias.
  4. Alegações que não podem ser provadas falsas.
  5. Alegações que contrariam fatos científicos (bem) fundamentados.
  6. Ausência de revisão por pares adequada.
  7. Alegações que se repetem apesar de serem refutadas.

Eles usam exemplos de pseudociência em palestras e contrastando-as com as legítimas e inovadoras descobertas científicas. Estes exemplos podem ser adaptados às diferentes classes. Por exemplo, nas aulas de física, os professores podem discutir QuantumMAN, um site onde as pessoas podem pagar para baixar “remédios” digitais que supostamente podem ser transferidos de um computador quântico remoto diretamente para o cérebro do comprador. (Sim, isso é um site real). Ou, nas aulas de psicologia, os professores podem expor os médiuns e os truques que eles usam para enganar as pessoas.

Mas os professores precisam ter cuidado, os autores advertem.

“A pesquisa sugere que o uso de exemplos pseudocientíficos reforça o pensamento científico, mas apenas se enquadrados corretamente.”

Os professores devem enfatizar a refutação das alegações pseudocientíficas mais do que as reivindicações. Caso contrário, seus dignos esforços de incutir o pensamento crítico podem sair pela culatra. Pesquisas anteriores mostraram que repetir mitos em panfletos públicos, mesmo com a intenção de refutá-los, pode de fato perpetuar a desinformação.

“O objetivo do uso de exemplos pseudocientíficos é criar pensadores céticos, não cínicos. Como pensadores céticos, os alunos devem ser encorajados a manter a mente aberta”, dizem Schmaltz e Lilienfeld.

Mas quando as reivindicações são reveladas como ilusórias, os alunos também devem estar preparados para descartá-las.


Artigo publicado na Real Clear Science com o título Time to Bring Pseudoscience into Science Class.

Fonte: Assombrações, Homeopatia, e os Duendes de Hopkinsville: Usando Pseudociência Para Ensinar o Pensamento Científico. Autores: Rodney Schmaltz e Scott Lilienfeld (2014).

  • http://www.ricardosorrisal.com Ricardo Aureliano

    Na minha opinião as pessoas que acreditam em quaisquer coisas “sobrenaturais”, tem medo de questionar essas coisas. Preferem viver uma ilusão a descobrir a verdade.

    Ótimo texto.
    Abraço.

  • Sergio Pais

    Concordo que acreditar em “quaisquer coisas, sobrenaturais ou Não” é bem diferente de questionar, racionalizar e entender para depois acreditar, e ainda assim até o momento em outra “coisa” mais evoluída advinda de novas descobertas venha a mudar nossas crenças atuais, isto é, se estivermos abertos a novas coisas e não achando que somos os donos da verdade, tipo acreditando que só existe a matéria.
    Tendo em vista que acreditar em multiverso, campo de higgs, neutrino, experimento da fenda, probabilidade quântica, dimensões como milésimo de milésimo de milésimo de milésimo de milésimo de milésimo de centímetro ou bilhões de anos luz, TANTO QUANTO EM homeopatia, espíritos e suas comunicações, outra dimensão, vida em outras partes do universo ou mesmo crer que reações eletro-químicas no cérebro podem criar sentimentos como o amor, saudade, intuição, preferências, ego/id/superego, imaginação e sonhos, são todas “coisas” que exigem uma certa coragem para serem pensadas (sem discriminação é claro).
    È muito fácil dizer que são os outros que se iludem porque não têm conhecimento das coisas, achei que o texto coloca muita coisa diferente no mesmo balaio por isso me pareceu pouco sério e ainda com o absurdo de temer que as pessoas questionem e adotem justamente o que combatem.
    Parabéns pelo blog, eu acho muito legal, adoro.

  • Hilário Fernandes de Araújo

    Muito boa a proposta. Concordo que crenças pseudocientíficas devem ser combatidas, mas acho que há uma confusão generalizada em relação ao que é pseudociência e o que é “simplesmente” crença. No próprio artigo há o seguinte trecho: “(…)revelou que formas não-científicas de pensamento são surpreendentemente resistentes a instrução formal”. Aí está a minha questão. Formas não-científicas de pensamento não necessariamente são pseudociência. No começo do artigo é definida a pseudociência como “reivindicação, crença ou prática que se apresenta como científica… mas carece de provas ou não pode ser testada de forma confiável”. Uma coisa é o Nassim Haraimem ou as “curas quânticas”, outra é uma crença não-falseável.