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Cometa gigantesco se aproximando do Sistema Solar externo pode ser o maior já visto

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Um cometa tão grande que foi inicialmente confundido com um planeta anão está em uma trajetória interna do Sistema Solar externo.

Não há razão para se preocupar – C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein), como o cometa é chamado, não se aproximará tanto do Sol e passará no máximo pelo exterior da órbita de Saturno. Mas seu grande tamanho e proximidade relativa proporcionarão uma rara oportunidade de estudar um objeto primitivo da Nuvem de Oort e encontrar novas informações sobre a formação do Sistema Solar.

“Temos o privilégio de ter descoberto talvez o maior cometa já visto – ou pelo menos maior do que qualquer um bem estudado – e o detectamos cedo o suficiente para que as pessoas o vejam evoluir à medida que se aproxima e aquece”, disse o codescobridor e astrônomo Gary Bernstein, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, no início deste ano.

“Ele não visita o Sistema Solar há mais de 3 milhões de anos”.

O Sistema Solar externo, em geral, é um lugar um tanto misterioso. É muito longe e bastante escuro, e os objetos nele são muito pequenos, então ver o que está lá fora além da órbita de Netuno é bastante desafiador.

Temos uma ideia geral da estrutura dessa região do espaço, com o Cinturão de Kuiper consistindo de pequenos corpos gelados e a Nuvem de Oort a distâncias muito maiores, mas as característica são mais difíceis de detalhar.

No entanto, estamos recebendo mais informações de uma fonte inesperada: o Dark Energy Survey (DES), realizado entre agosto de 2013 e janeiro de 2019.

Ele fez um levantamento do céu meridional em infravermelho e infravermelho próximo ao longo de várias centenas de noites, estudando objetos como supernovas e aglomerados de galáxias, para tentar calcular a aceleração da expansão do Universo, supostamente influenciada pela energia escura.

A profundidade, amplitude e precisão do DES revelaram-se muito boas para também identificar objetos no Sistema Solar externo, além da órbita de Netuno, a cerca de 30 unidades astronômicas do Sol. No início deste ano, uma equipe de astrônomos revelou que havia descoberto 461 objetos até então desconhecidos no Sistema Solar externo em dados do DES.

Um desses objetos, localizado por Bernstein e seu colega astrônomo da Universidade da Pensilvânia, Pedro Bernardinelli, foi o C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein). Agora, eles e seus colegas descreveram o cometa em maiores detalhes em um estudo pré-publicado e aceito no The Astrophysical Journal Letters.

“Concluímos que C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein) é um cometa ‘novo’ no sentido de que não há evidências de uma aproximação anterior a mais de 18 UA do Sol desde a ejeção na Nuvem de Oort”, escreveram os pesquisadores.

“Na verdade, este pode ser o cometa mais primitivo já observado, visto que o detectamos antes de entrar na órbita de Urano, e pode nunca ter feito isso em qualquer órbita anterior”.

De acordo com a análise da equipe, C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein) iniciou sua jornada interna a uma distância de cerca de 40.400 unidades astronômicas do sol. Isso fica bem no território da Nuvem de Oort, uma enorme esfera de objetos gelados que se estende de cerca de 2.000 a até 100.000 unidades astronômicas.

Quando foi descoberto, o cometa estava a uma distância de cerca de 29 unidades astronômicas do Sol. Sua maior aproximação do Sol ocorrerá em 2031, quando atingirá a distância de 10,97 unidades astronômicas; a órbita de Saturno, para contextualizar, tem uma distância média de 9,5 unidades astronômicas.

Com um tamanho de 155 quilômetros de diâmetro, C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein) é um colosso absoluto, mas mesmo assim, não será visível a olho nu àquela distância.

Os cientistas, no entanto, aproveitarão todas as oportunidades para estudá-lo usando telescópios. Eles esperam que aprender mais sobre sua composição possa nos dizer mais sobre o início do Sistema Solar e seus confins.

Isso porque as rochas geladas das margens distantes de nosso sistema planetário parecem estar mais ou menos inalteradas desde que se formaram, cerca de 4,5 bilhões de anos atrás. Os materiais voláteis presos nos gelos do cometa devem, portanto, conter informações sobre a química do Sistema Solar exterior durante sua formação.

Os cientistas já detectaram sinais de coma, a atmosfera cometária que aparece quando um cometa se aproxima do sol. O aumento do calor sublima os gelos nas superfícies do cometa, produzindo a coma visível e, a distâncias mais próximas, as caudas cometárias. A análise espectral dessas características nos dirá muito sobre o que está dentro da C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein).

Como sabemos muito pouco sobre a Nuvem de Oort e os objetos nela contidos, C/2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein) representa um vislumbre muito raro para esta região enigmática de nossa casa espacial.

A pesquisa foi aceita no The Astrophysical Journal Letters e está disponível no arXiv.

Julio Batista

Julio Batista

Sou Julio Batista, de Praia Grande, São Paulo, nascido em Santos. Professor de História no Ensino Fundamental II. Auxiliar na tradução de artigos científicos para o português brasileiro e colaboro com a divulgação do site e da página no Facebook. Sou formado em História pela Universidade Católica de Santos e em roteiro especializado em Cinema, TV e WebTV e videoclipes pela TecnoPonta. Autodidata e livre pensador, amante das ciências, da filosofia e das artes.