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Cinquenta anos do movimento cético moderno

Ilustração de capa do artigo de James E. Alcock sobre os cinquenta anos do movimento cético moderno

Publicado por James E. Alcock no Skeptical Inquirer.

Resumo: Neste ensaio histórico, James E. Alcock reconstrói o contexto cultural e científico que levou à criação do CSICOP em 1976, examina as vitórias e tensões do movimento cético moderno e argumenta que, diante do novo irracionalismo político e pseudocientífico, a defesa pública da ciência e da razão é mais urgente do que nunca.

Há meio século, uma maré crescente de crenças pseudocientíficas e paranormais varria o mundo ocidental. Em resposta, um pequeno grupo de acadêmicos, mágicos, divulgadores científicos e outros (alarmados com a ausência de reação da comunidade científica) uniu-se para fundar o Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal (CSICOP), hoje Committee for Skeptical Inquiry (CSI). Esse foi o marco inicial do movimento cético moderno. Embora a sobrevivência do Comitê por cinquenta anos seja em si uma conquista notável e motivo de celebração, não se pode apreciar plenamente a paixão e a urgência com que foi fundado, nem compreender a magnitude de suas realizações, sem antes entender o contexto social em que tomou forma.

Conheço bem esse contexto. Eu estava lá.

Reunião do CSICOP em 1976.
Reunião do CSICOP em 1976. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

Naqueles tempos

Da esquerda para a direita: James Randi, Marcello Truzzi e Paul Kurtz em 1976.
Da esquerda para a direita: James Randi, Marcello Truzzi e Paul Kurtz em 1976. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

O interesse por supostos fenômenos paranormais sempre fez parte da experiência humana, mas a intensidade desse interesse cresceu e diminuiu ao longo do registro histórico. Ela aumentou no final do século XIX e início do século XX, quando o espiritualismo, a mediunidade e a comunicação com os mortos estavam em voga. Salões de sessões espíritas e videntes atraíam o público em geral, e o desejo de contato com entes queridos falecidos foi posteriormente amplificado pela terrível taxa de baixas da Primeira Guerra Mundial. O interesse científico por esses supostos fenômenos levou à criação da Society for Psychical Research, cujo objetivo era estabelecer uma base científica para as alegações paranormais. O fascínio pelo paranormal diminuiu durante as décadas de 1930, 1940 e 1950, embora um pequeno número de pesquisadores continuasse com suas investigações parapsicológicas.

Mas então vieram os anos sessenta, uma época de grande efervescência social e relativa prosperidade que libertou muitos jovens da necessidade dominante de buscar o conforto material da vida. A revolução sexual catalisada pela chegada da pílula anticoncepcional, a cultura das drogas da Nova Era refletindo uma aceitação crescente da cannabis e dos psicodélicos, o crescimento do movimento de autoajuda, a liberalização da música popular e do cinema em relação à censura estrita, os movimentos crescentes para acabar com o racismo e promover o feminismo e a libertação gay, a influência declinante da religião organizada sobre os jovens, a ameaça significativa de aniquilação nuclear e, nos Estados Unidos, o recrutamento militar e a guerra do Vietnã. Tudo isso serviu para catalisar os novos valores da “geração hippie”: Torne-se mais consciente (ou seja, “expansão da consciência”). Entre em contato com seus sentimentos. Não confie em ninguém com mais de trinta anos. Não seja um cordeiro, pense por si mesmo. Faça amor, não guerra. Ligue, sintonize, caia fora.

Esse era um terreno fértil para a proliferação de “cultos” contraculturais quase religiosos da Nova Era, tipicamente organizados em torno de um líder carismático masculino e frequentemente envolvendo elementos de crença no oculto ou no paranormal. Os Branch Davidians, Children of God, Peoples Temple, Heaven’s Gate, Igreja da Unificação (os “Moonies”), Jesus People e a Ordem do Templo Solar, junto com outras “novas religiões” como a Cientologia e o Hare Krishna, cresceram rapidamente, assim como o movimento de meditação transcendental que, entre outras coisas, afirmava poder ensinar as pessoas a levitar (mediante uma taxa substancial!).

Mais ou menos na mesma época, nos corredores da academia, o pós-modernismo começou a exercer influência, com muitos pós-modernistas argumentando que não existe realidade objetiva e que a ciência moderna é apenas uma visão construída da realidade, não mais verdadeira ou racional do que pontos de vista alternativos, como os defendidos por parapsicólogos e ocultistas.

Some-se a isso um tsunami de alegações paranormais e ocultistas sobre projeção astral, reencarnação, astrologia, percepção extrassensorial, cura pela fé, caminhada sobre brasas, exorcismo, visitas interplanetárias e muitos outros fenômenos extraordinários. Esse interesse refletia-se nas livrarias: em 1965, o catálogo Books in Print listava 131 livros na categoria “ocultismo e fenômenos psíquicos”, mas, em 1975, esse número havia explodido para 1.071! Os periódicos norte-americanos dedicados à parapsicologia e ao ocultismo também se multiplicaram: o Ulrich’s International Periodical Directory de 1968 a 1978 registrou um aumento de doze para quarenta e seis. Por outro lado, a literatura crítica às alegações parapsicológicas e ocultistas permanecia extremamente escassa. Os cientistas em geral não viam razão para “desperdiçar tempo” criticando afirmações que não faziam sentido do ponto de vista científico. E embora muitos estudantes de graduação tivessem muita curiosidade sobre fenômenos parapsicológicos, os livros didáticos de psicologia da época ignoravam completamente o assunto.

Praticamente sem contestação, os tentáculos da crença parapsicológica atraíam cada vez mais adeptos à medida que se espalhavam em todas as direções.

Considere o seguinte: no final dos anos 1960, um número significativo de norte-americanos acometidos por câncer terminal, diabetes, esclerose múltipla ou outras doenças graves gastava grandes somas de dinheiro para voar até as Filipinas em busca de “cirurgia psíquica”, na qual falsos curandeiros “magicamente” extraíam sangue e tecido tumoral do abdômen sem realmente penetrar a pele. A exploração dessas pessoas desesperadas era lucrativa não apenas para os cirurgiões psíquicos, mas também para algumas agências de viagem. (Em março de 1975, a Comissão Federal de Comércio dos EUA ordenou que as agências de viagem parassem de promover excursões de cirurgia psíquica para as Filipinas.)

Considere o seguinte: no início dos anos 1970, o mágico israelense Uri Geller mudou-se para os Estados Unidos e logo ganhou status de celebridade por meio de suas façanhas “psíquicas”, incluindo leitura de mentes e entortamento de colheres, ampliando o interesse e a crença no paranormal. Conforme discutido adiante, sua influência foi de longo alcance.

Considere o seguinte: em 1973, a moda da “canalização” explodiu quando a vidente Sylvia Browne descreveu seu trabalho com um “guia espiritual” chamado Francine. Alguns de seus muitos livros acabaram na lista de mais vendidos do New York Times. Não querendo ficar para trás, J.Z. Knight começou a canalizar Ramtha, um suposto guerreiro imortal que teria lutado na Atlântida há 35.000 anos. Tanto Browne quanto Knight tornaram-se fabulosamente ricas por meio de suas aparições na televisão e sessões com pessoas ansiosas por obter a sabedoria dos espíritos. Seu sucesso inspirou uma série de outros médiuns e canalizadores, cada qual com seus próprios guias espirituais. Um chegou até a canalizar um golfinho!

Considere o seguinte: embora o interesse por regressão a vidas passadas tenha começado em 1952, quando Virginia Tighe, sob hipnose, recordou sua vida anterior como Bridey Murphy na Irlanda do século XIX, esse interesse ganhou os holofotes nas décadas de 1960 e 1970 depois que um (pequeno) número de psiquiatras e psicólogos declarou ter evidências sólidas de que o fenômeno era real. A psicóloga Helen Wambach foi além da escrita e realizou grandes eventos nos quais membros da plateia passavam simultaneamente por regressão a vidas passadas (mediante pagamento!).

Considere o seguinte: em 1975, Raymond Moody cunhou o termo experiência de quase-morte para descrever relatos de pessoas que aparentemente haviam morrido por instantes e então foram arrastadas por um longo túnel, confrontadas por uma luz brilhante e encontraram-se na presença de entes queridos falecidos em ambientes paradisíacos, antes de finalmente sentirem seu espírito ser arrancado de volta ao corpo terreno. Seu primeiro livro, Vida Depois da Vida, preparou o terreno para uma infinidade de outros livros e programas de televisão sobre o tema.

Programas de entrevistas na televisão e pseudodocumentários promoviam a crença em tais fenômenos, frequentemente argumentando que eram respaldados por evidências científicas. E muitos outros fenômenos “extraordinários” surgiram do éter para fascinar, entreter e enganar. Em 1965, Betty e Barney Hill relataram ter sido abduzidos por alienígenas alguns anos antes, em 1961. Seus relatos detalhados desencadearam inúmeros relatos semelhantes por todos os Estados Unidos (mas raramente em outros países). Os relatos de abdução alienígena se multiplicaram ainda mais depois que John Mack, psiquiatra de Harvard ganhador do Prêmio Pulitzer, considerou tais relatos genuínos. Acrescente-se a isso o Triângulo das Bermudas, os “biorritmos”, as mutilações extraterrestres de gado e as alegações de que as pirâmides foram construídas por alienígenas, e a lista tornou-se exaustiva!

Mas a insanidade não parou por aí. Foi noticiado que um juiz americano usava horóscopos como guia para sentenças e que pelo menos uma grande companhia aérea empregava a pseudocientífica “análise de biorritmos” como parte da avaliação da prontidão de seus pilotos para voar. E a influência de Geller era tão disseminada que reuniões de alguns membros do Congresso dos EUA foram realizadas nas quais os participantes tentavam entortar colheres pelo poder da mente.

O fascínio do paranormal era tão poderoso que seduziu alguns cientistas convencionais a redirecionar suas pesquisas para a investigação de fenômenos paranormais. O físico Helmut Schmidt afirmou ter demonstrado que seres humanos podiam influenciar o resultado de um gerador de eventos aleatórios simplesmente pelo poder da mente, e argumentou que até mesmo animais haviam demonstrado capacidade psíquica semelhante de influenciar eventos aleatórios para obter resultados positivos. Robert Jahn, decano de Engenharia da Universidade de Princeton, insistia que sua pesquisa também demonstrara que humanos podem manipular os resultados de um gerador de eventos aleatórios apenas pelo desejo. Dois outros físicos (Russell Targ e Harold Puthoff) do Stanford Research Institute ficaram tão impressionados com a suposta capacidade psíquica de Geller que o estudaram intensivamente, ainda que de forma bastante descuidada, e anunciaram ter produzido evidências convincentes de que sua capacidade psíquica era real. Eles ainda alegaram evidências de que pessoas comuns possuem habilidades clarividentes de “visão remota”, permitindo-lhes testemunhar eventos ocorrendo em lugares distantes. Suas descobertas extraordinárias foram publicadas na Nature, uma das principais revistas científicas do mundo.

Paul Kurtz (à direita) ouvindo Ken Frazier (à esquerda) falar no CSICOP em Nova York, em 1976.
Paul Kurtz (à direita) ouvindo Ken Frazier (à esquerda) falar no CSICOP em Nova York, em 1976. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

Não parecia haver limites para o apelo do paranormal. Em 1970, a CIA iniciou o Projeto Stargate na tentativa de aproveitar a visão remota e a percepção extrassensorial para coleta de informações de inteligência. E em 1981, depois de ser nomeado comandante do Serviço de Inteligência e Segurança do Exército dos EUA, o general Albert Stubblebine III instruiu seus comandantes de batalhão a dominar a capacidade de entortar colheres e realizar outras façanhas psíquicas apenas pelo poder da mente. Seu objetivo maior era desenvolver um batalhão de guerreiros Jedi capazes de se tornar invisíveis, atravessar paredes e usar seus poderes psíquicos para matar soldados inimigos. O próprio general Stubblebine tentou repetidamente levitar, desintegrar nuvens distantes fixando o olhar nelas e atravessar paredes correndo contra elas a toda velocidade. Ao se aposentar, expressou decepção por não ter conseguido atravessar paredes, embora continuasse a acreditar que a capacidade era alcançável.

O leitor agora pode apreciar melhor por que uma organização como o CSICOP era tão necessária e por que seus fundadores estavam tão carregados de urgência, pois o caldeirão da pseudociência fervia intensamente. Com desculpas a Shakespeare:

Ao redor do caldeirão ide;
No feitiço de Geller confie.
Dobro, dobro, esforço e tormento;
Fogo queima e ferve o rebento.
Filete de um farsante psíquico,
No caldeirão cozinha o ilícito;
Engodo pós-moderno e podridão oculta
Fervam primeiro na poção estulta.
Por um feitiço de tormento ardiloso,
Como um caldo infernal e perigoso.

Caldo infernal poderoso, de fato! Conforme escrevi sobre aquele período:

Embora seja fácil para os céticos fecharem os olhos e os ouvidos à cobertura midiática geralmente unilateral do paranormal, tal reação deixa o público sem meios de aprender sobre a fragilidade da posição paranormal, sem meios de pesar os prós e contras dos argumentos de cada lado. O que se exige não é a denúncia estridente da parapsicologia e de seus defensores, mas a defesa ponderada e responsável da ciência e da racionalidade. Se nos esquivarmos dessa tarefa, não culpemos condescendentemente o público por acreditar no paranormal. Se apenas os parapsicólogos falam em nome da ciência, por que o público duvidaria deles? (Alcock 1981, 189)

Ondulações de resistência

É claro que houve algumas vozes isoladas que se ergueram contra a maré crescente de absurdos. No início dos anos 1970, o mágico James Randi, inspirado pelos esforços de Harry Houdini para expor videntes e outros charlatões na virada do século XX, iniciou sua campanha pública para desafiar Uri Geller e mostrar que suas alegações de poderes paranormais eram fraudulentas. Contudo, não havia uma resposta organizada, nenhuma frente comum.

Quando comecei a pesquisar a psicologia da crença em 1974, tendo acabado de iniciar minha carreira como psicólogo experimental, escolhi focar o aumento impressionante da crença em fenômenos paranormais e correlatos. Procurei outros na academia que pudessem compartilhar desse interesse e logo encontrei pesquisas relevantes publicadas pelo sociólogo Marcello Truzzi. Ele havia começado recentemente a publicar um boletim, The Zetetic: A Newsletter of Academic Research into Occultisms, e me convidou a integrar sua rede de pessoas preocupadas com a influência crescente da pseudociência, uma rede que incluía, entre outros, Isaac Asimov, Carl Sagan, B.F. Skinner e Philip Klass, editor de uma revista de aviação com vasta experiência em investigar e explicar relatos de OVNIs.

Mais ou menos na mesma época, outro pequeno núcleo de ceticismo havia se formado independentemente, envolvendo Martin Gardner, Ray Hyman e James Randi. Por fim, como Truzzi anunciou em seu boletim em junho de 1975, esses dois grupos se uniram:

Planos estão em andamento para um serviço inovador que deve ter interesse especial para nossos leitores. Martin Gardner (conhecido de muitos de vocês por seus artigos regulares na Scientific American), Dr. Ray Hyman (autoridade em pseudopsicologias, ex-mentalista profissional), o “Incrível” (James) Randi (conhecido de muitos de vocês por suas replicações dos truques de pseudopsíquicos na televisão nacional) e eu estamos formando uma associação a ser chamada Resources for the Scientific Evaluation of the Paranormal (RSEP). O propósito principal da RSEP não será simplesmente “desmascarar” alegações esotéricas. Seu propósito principal é investigar tais alegações de um ponto de vista puramente científico, aonde quer que isso nos leve. (Truzzi 1975a)

Apesar de sua preocupação com a maré crescente de pseudociência, eles pouco podiam fazer além de reclamar entre si e, sempre que possível, fazer esforços individuais para engajar o público. Os vapores combustíveis do ceticismo estavam ali, sem dúvida, mas o que faltava era alguém com habilidades organizacionais substanciais e motivação para acender o fósforo. Esse alguém foi Paul Kurtz, proeminente filósofo humanista secular e editor da revista The Humanist.

A declaração Objections to Astrology foi publicada em 1975 e recebeu 192 assinaturas.
A declaração “Objections to Astrology” também foi publicada pela Prometheus Books em 1975, e o número de signatários chegou a 192. O livro incluiu ensaios de Bart Bok e Lawrence Jerome. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

Naquele mesmo ano de 1975, Kurtz, o astrônomo Bart Bok e o divulgador científico Lawrence Jerome publicaram uma declaração no The Humanist intitulada “Objeções à Astrologia”. A declaração foi originalmente endossada por 186 cientistas, incluindo dezenove ganhadores do Prêmio Nobel. Kurtz posteriormente enviou a declaração a jornais de todos os Estados Unidos e Canadá, recebendo uma recepção positiva, o que o encorajou a considerar ações adicionais para combater a pseudociência. Isso também levou ao contato com Truzzi. Mais tarde naquele ano, Truzzi informou sua rede:

A revista The Humanist iniciou a formação de uma organização provisoriamente intitulada “Comitê para Investigar Cientificamente Alegações de Supostos Fenômenos Paranormais e Outros”, que se assemelha fortemente ao nosso grupo recentemente proposto, Resources for the Scientific Evaluation of the Paranormal. Planos estão em andamento que, esperamos, resultarão na união de nossas duas organizações incipientes. (Truzzi 1975b)

Ondulações se tornam onda

Paul Kurtz anunciou o simpósio de fundação desta forma:

Houve um enorme aumento no interesse público por fenômenos psíquicos, ocultismo e pseudociência. Frequentemente, a mínima evidência para essas alegações é desproporcionalmente ampliada e apresentada como prova “científica”. Talvez o irracionalismo anticientífico e pseudocientífico seja apenas uma moda passageira, contudo uma das melhores maneiras de lidar com isso é que a comunidade científica e educacional responda, de maneira responsável, ao seu crescimento alarmante.

Com esses pensamentos em mente, estamos formando uma organização provisoriamente chamada “Comitê para Investigar Cientificamente Alegações de Fenômenos Paranormais e Outros” para examinar tais alegações de forma aberta, completa, objetiva e cuidadosa.

Ainda não sabemos quão grande será nosso comitê ou quão ambiciosos serão seus esforços. Convidamos cientistas e especialistas importantes em muitos campos para se juntarem a nós neste importante empreendimento. (Kurtz 1977)

Programa da 35ª conferência da American Humanist Association, em 1976.
Programa da 35ª conferência da American Humanist Association, em 1976, em Buffalo, Nova York. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

Em 1º de maio de 1976, um grande auditório no campus Amherst da Universidade Estadual de Nova York em Buffalo ficou lotado para o simpósio diurno e noturno intitulado “Os Novos Irracionalismos: Anticiência e Pseudociência”. Ouvi enquanto um palestrante após o outro abordava várias áreas da crença irracional, mas foi a sessão noturna que se mostrou particularmente hipnotizante, conforme descrevi em outro lugar:

O auditório da SUNY Buffalo está lotado. O palestrante, um homem baixo com uma voz potente, está no pódio realizando feitos surpreendentes. Mentes são lidas, colheres se entortam sozinhas, conteúdos de envelopes selados são adivinhados. Tudo isso, somos assegurados, é realizado por meio de truques como os usados pelo “psíquico” Uri Geller. De repente, um espectador se levanta e grita furioso: “Você é uma fraude!” O palestrante, imperturbável, responde: “Sim, sou um trapaceiro e um charlatão. Tudo o que estou fazendo é por meio de truques, sou um ilusionista fazendo o papel de mágico.” “Não é isso que quero dizer”, rebate o contestador enquanto sua esposa tenta desesperadamente puxá-lo de volta para a cadeira. “Você é uma fraude porque finge usar truques, mas está usando poderes psíquicos e não admite.” O palestrante era, naturalmente, Randi. E o contestador? Um respeitado professor de filosofia da SUNY! O que poderia ser mais apropriado para a reunião de fundação do Comitê para a Investigação Científica de Alegações do Paranormal do que essa demonstração dos opostos polares da crença? (Alcock 2021)

Os membros do recém-formado Conselho Executivo do CSICOP incluídam Paul Kurtz, Marcello Truzzi, Martin Gardner, James Randi, Ray Hyman, Philip Klass, Dennis Rawlins e Lee Nisbet, que foi o primeiro diretor executivo do CSICOP. Trinta e cinco acadêmicos, mágicos e divulgadores científicos (eu entre eles) foram nomeados os primeiros fellows do Comitê.

Truzzi posteriormente explicou, em uma carta datada de 10 de outubro de 1976:

O Comitê foi originalmente resultado da preocupação do Professor Kurtz com os “irracionalismos” crescentes e sua perpetuação pela mídia de massa. Ao contatar possíveis membros, ele descobriu que eu já estava envolvido em uma rede semelhante que incluía muitas das pessoas que ele estava contatando. Eu também estava publicando um boletim para nossa rede, chamado The Zetetic (o nome remete aos filósofos céticos seguidores de Pirro e a palavra significa “cético” ou “investigador” em português). O Professor Kurtz me pediu para copresidir o novo comitê com ele e editar o periódico do Comitê. (Truzzi 1976)

James Randi e Martin Gardner em Nova York, em 1976.
James Randi (à esquerda) e Martin Gardner (à direita) em Nova York, em 1976. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

O nome da organização foi logo alterado para Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal, a fim de evitar a sugestão de que a própria organização realizava investigações diretamente. Mas, sem que os fundadores percebessem, a sigla CSICOP clamava por ser pronunciada “psi cop”. Dado que a letra grega psi é amplamente usada para se referir a fenômenos psíquicos, os detratores rapidamente presumiram que o título e sua sigla haviam sido escolhidos deliberadamente para refletir uma motivação de policiar as alegações do paranormal.

O CSICOP imediatamente atraiu atenção, e aproximadamente mil assinantes se inscreveram para a primeira edição do The Zetetic (o periódico do CSICOP tomou emprestado o nome do boletim de Truzzi). Entretanto, essa nova organização havia reunido uma variedade de pessoas, muitas das quais eram estranhas umas às outras, e portanto não surpreende que diferenças logo tenham surgido quanto à forma como sua missão deveria ser executada. Uma dessas diferenças emergiu logo no início, quando ficou claro que Truzzi queria que a organização incluísse tanto céticos quanto proponentes da parapsicologia e pretendia que a revista servisse como periódico acadêmico. Outros membros do Conselho Executivo discordaram, argumentando que já havia várias plataformas para pontos de vista parapsicológicos, mas nenhuma plataforma regular para análises céticas, e que o necessário era um canal para comunicar análises céticas ao grande público. Um periódico acadêmico dificilmente penetraria a esfera pública. Como resultado dessas diferenças, Truzzi renunciou ao cargo de editor e deixou a organização ao final de seu primeiro ano. Ele se tornou um crítico acerbo do CSICOP (embora ele e eu tenhamos mantido uma relação pessoal razoável). O The Zetetic foi renomeado para The Skeptical Inquirer, e o divulgador científico Ken Frazier, que havia participado do simpósio fundacional, foi nomeado editor, cargo que ocupou até seu falecimento em 2022.

Um ano depois, em 1978, fui convidado a participar da reunião do Conselho Executivo realizada em Washington, D.C. Não muito tempo depois dessa reunião, Dennis Rawlins, após expressar críticas contundentes a uma análise adicional de certas alegações astrológicas feita por Kurtz e outros, deixou a organização. Assim como Truzzi, ele também se tornou um forte crítico do CSICOP. Com sua saída, fui convidado a integrar o Conselho Executivo.

Então, em 1991, Geller moveu o primeiro de seus processos por difamação contra Randi e o CSICOP, alegando que Randi o havia difamado. Para proteger o CSICOP de litígios futuros, Randi e o CSICOP posteriormente se separaram, mas boas relações continuaram entre Randi e a maioria dos membros individuais do Conselho Executivo. (Em 2010, Randi fez uma espécie de retorno quando foi nomeado fellow do CSI.)

Em 2006, o Conselho Executivo alterou o nome do CSICOP para Committee for Skeptical Inquiry (CSI). A mudança para o novo nome mais curto deveu-se em parte ao desconforto do título original e ao fato de que ele era com frequência erroneamente interpretado como sugestão de que éramos defensores da parapsicologia, mas também foi um reconhecimento de que a organização havia mudado o foco das alegações paranormais para um alvo mais amplo de alegações extraordinárias e irracionalidade em geral.

Contabilizando as vitórias

O mundo é um lugar bastante diferente do que era na época da fundação do CSICOP, quando alegações paranormais sensacionalistas e incontestadas prevaleciam na mídia. As muitas centenas de artigos no Skeptical Inquirer fornecem uma riqueza de informações baseadas na ciência, prontamente disponíveis, sobre todo tipo de fenômenos supostamente paranormais, sobrenaturais ou simplesmente estranhos. Se uma estudante do ensino médio está preparando um trabalho sobre cirurgia psíquica, indique-lhe o Skeptical Inquirer 46(1). Ou quando um jornalista está escrevendo sobre círculos nas plantações, indique-lhe o Skeptical Inquirer 19(3). Um amigo acredita que “detetives psíquicos” resolvem crimes? Veja o Skeptical Inquirer 12(4) ou 20(1). Pé-grande? Skeptical Inquirer 48(1). Roswell e autópsias de alienígenas? Skeptical Inquirer 19(6). Medicina tradicional chinesa? Fotografias de fantasmas? Ou praticamente qualquer outro fenômeno paranormal, sobrenatural ou simplesmente estranho que conflite com o entendimento científico? Está tudo lá no Skeptical Inquirer. Acrescente-se a esse recurso a influência de nossas conferências anuais e a rede de céticos com ideias afins ao redor do mundo.

Lee Nisbet, seu primeiro diretor executivo, resumiu com precisão os objetivos do Comitê:

O CSICOP surgiu na primavera de 1976 para combater a exploração pela mídia de massa de fenômenos supostamente “ocultos” e “paranormais”. A estratégia era dupla: primeiro, fortalecer a posição dos céticos na mídia fornecendo informações que “desmascaravam” maravilhas paranormais. Segundo, atuar como um grupo de “vigilância da mídia” que direcionaria a atenção do público e da mídia para a exploração midiática flagrante das supostas maravilhas paranormais. Um princípio de ação subjacente era usar a sede da mídia tradicional por controvérsias que atraem o público para manter nossas atividades na mídia e, portanto, sob os olhos do público. (Nisbet 2001)

E o CSICOP/CSI cumpriu esses objetivos. A crença no paranormal não desapareceu, naturalmente, mas não é mais promovida de forma flagrante por incontáveis programas de televisão, tampouco há esforços contínuos de agências governamentais ou corporações para aproveitar poderes paranormais, seja para fins comerciais, médicos ou militares. E uma excelente avaliação crítica de virtualmente todas as alegações paranormais está disponível no Skeptical Inquirer.

Os quatro fantásticos mais um

Sem a habilidade organizacional, a motivação e a energia de Paul Kurtz, a organização formal nunca teria sido estabelecida, uma sede de tijolo e argamassa nunca teria sido construída e uma rede de filiais pelos Estados Unidos e ao redor do mundo nunca teria se desenvolvido. Sem o gênio investigativo e o inigualável talento de showman de James Randi, a organização teria fracassado tanto em expor e explicar supostos fenômenos psíquicos quanto em comandar a atenção da mídia e do público. Sem o conhecimento científico, estatístico e de ilusionismo de Ray Hyman, teria sido difícil para o Comitê estabelecer credibilidade nos círculos científicos quanto às críticas à pesquisa parapsicológica. E sem Ken Frazier, a quem descrevi anteriormente como “o verdadeiro timoneiro do movimento”, o Skeptical Inquirer não teria se estabelecido como uma fonte altamente confiável de informação que une céticos ao redor do mundo. E não se pode esquecer a importância de Barry Karr, o diretor executivo durante a maior parte da existência da organização, que nos guiou por tempos bons e ruins, organizando conferências, interagindo com a mídia, resolvendo conflitos e protegendo a missão e a integridade do Comitê quando este passou a operar sob o guarda-chuva do Center for Inquiry.

Esses indivíduos desempenharam papéis tão importantes que os membros do Conselho Executivo se preocuparam durante muitos anos com a sucessão. Poderia a organização manter sua gravidade, sua credibilidade (ou, mais precisamente, poderia sequer sobreviver) sem esses líderes excepcionais? Não se preocupem mais. Agora temos a resposta, pois o bastão foi passado, as fundações foram mantidas e temos a perspectiva de ser mais eficazes do que nunca.

O desafio atual

James E. Alcock na reunião que levou à formação do CSICOP, em 1976.
James E. Alcock na reunião organizacional que levou à formação do CSICOP, em 1976. Créditos: Center for Inquiry | Skeptical Inquirer.

Cinquenta anos atrás, o CSICOP foi fundado para combater a maré crescente de irracionalismo, uma maré manifestada pela crença em poderes psíquicos, abdução alienígena e comunicação com os mortos. Por mais grave que fosse o irracionalismo, ele não ameaçava a própria ciência. Os proponentes, embora críticos dos poucos cientistas que de fato contestavam suas alegações, respeitavam a ciência em princípio e estavam ávidos por se apossar de qualquer petisco científico que pudesse apoiar suas afirmações. E mesmo que muitos pós-modernistas rejeitassem a confiabilidade e a validade do empreendimento científico, sua influência nunca foi forte o suficiente para colocar em risco a busca pela investigação científica.

Mas o irracionalismo atual, com seus desafios à ciência e à razão, é muito mais grave e sinistro do que aquele com que lidamos há meio século. O desafio à ciência hoje, especialmente nos Estados Unidos, não é explorar seu nome para justificar alegações duvidosas, mas opor-se a ela completamente por meio de cortes de financiamento e ataques diretos à sua credibilidade. É evidente que esse recuo da razão ocorre em um momento particularmente perigoso. As devastações das mudanças climáticas, os aumentos alarmantes na migração em massa, a ameaça e promessa combinadas da Inteligência Artificial e dos robôs humanoides e o crescimento ameaçador do autoritarismo político e das religiões fundamentalistas exigem, mais do que nunca, uma abordagem baseada na ciência e na razão. Em vez disso, o dogma e a ortodoxia se empenham em reescrever a história, desmantelar leis destinadas a proteger a democracia e anular conquistas científicas, ao mesmo tempo em que substituem a realidade por teorias da conspiração, “fatos alternativos” e pensamento mágico, e promovem pseudo-remédios sem sentido no lugar da medicina baseada na ciência.

Essa luta para defender a ciência e a razão será muito mais difícil do que a que travamos contra videntes e superstições. Embora nossa organização permaneça em mãos capazes para nos liderar, todos temos de fazer nossa parte na batalha contra esse caldo infernal moderno.

Referências

Alcock, James E. 1981. Parapsychology: Science or Magic? London, UK: Pergamon.

———. 2021. Magicians, skeptics share their memories of James Randi. Skeptical Inquirer 45(1).

Kurtz, Paul. 1977. Undated letter to members of CSICOP.

Nisbet, Lee. 2001. The origins and evolution of CSICOP. Skeptical Inquirer 25(6).

Truzzi, Marcello. 1975a. The Zetetic: A Newsletter of Academic Research into Occultisms 3(2).

———. 1975b. The Zetetic: A Newsletter of Academic Research into Occultisms 4(1).

———. 1976. Letter to fellows and Executive Committee of CSICOP (October 10).

O artigo foi publicado originalmente por James E. Alcock no Skeptical Inquirer.

Universo Racionalista

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Fundada em 30 de março de 2012, Universo Racionalista é uma organização em língua portuguesa especializada em divulgação científica e filosófica.