A Geopolítica do Casamento Real: do Império Britânico ao “Capitalismo Globalizado”

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Créditos: Ben Birchhall/AP.

Por João Henrique Santana Stacciarini
Professor da Universidade Federal de Uberlândia (Geografia/FACIP)

Recentemente milhares de reportagens sobre a “Família Real Britânica” tomaram conta do noticiário mundial. Isso porque, no último sábado, ocorreu um dos “eventos” mais badalados do planeta: um novo casamento real! Desta vez, o Príncipe Harry, filho caçula de Charles e Diana, casaria-se com Meghan Markle, atriz norte-americana.

A cerimônia – episódio banal para muitos e motivo de festas para tantos outros – foi transmitida por 79 canais televisivos de diferentes localidades do globo, sendo 6 destes no Brasil. O “impacto” do evento foi tamanho que, para se ter uma ideia – segundo dados da rede britânica BBC (British Broadcasting Corporation) – 5 mil repórteres o acompanharam presencialmente, além de aproximadamente 2 bilhões de espectadores (cerca de 30% da população mundial) desde as suas casas.

Fotografia oficial do evento reúne família real britânica no Castelo de Windsor. Créditos: Lubomirski/Reuters.

O fato é que, por trás das cifras milionárias que cercaram o evento (160 milhões de reais), encontram-se inúmeras outras questões. De início, nas conversas de informalidade cotidiana, chama a atenção o fato de, ainda nos dias de hoje, o Reino Unido – união política da Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales – possuir uma “família real”. Afinal, o que levaria uma unidade política, que é detentora de excelentes indicadores sócio-econômico-culturais, a sustentar um modelo de monarquia – ainda que parlamentarista – geradora de custos diretos para a sociedade?

Pois bem, a busca pelo entendimento (ou tentativa) dessas questões remete-nos a tempos distantes, período em que, no velho continente, reproduzia-se o seguinte jargão: “o sol nunca se põe no Império Britânico!”. A frase, a qual ficou famosa ao longo do século XIX, representa um momento em que o Reino Unido – naquela época, na figura do Império Britânico – controlava grande parte do planeta. Isso, uma vez que, depois de “largar” atrás na corrida por colônias – ocasião em que o sistema capitalista (mercantil) começava a se estruturar – a Inglaterra se (re)organizou, sobretudo, através da Revolução Industrial (séc. XVIII) para vir a se tornar o maior império que já existiu.

O desenvolvimento da navegação e a “ambição” por novas fontes de renda e mercado consumidor fizeram com que o Império Britânico se estendesse a um quarto dos territórios do planeta (35,5 milhões de km2) onde, sob seus domínios, viviam cerca de 24% de toda a população mundial de então, fruto de conquistas ultramarinas em porções dos Continentes Asiático, Africano, Americano e Oceania.

Todavia, com a chegada do século XX e as novas (re)organizações – tanto da geopolítica mundial quanto do próprio sistema capitalista – o Império Britânico foi desocupando gradativamente porções do globo antes dominadas. Assim, deu-se lugar ao (re)surgimento de aproximadamente 60 países autônomos.

Frente a tal novo panorama global e buscando manter sua influência sobre as antigas colônias, o Parlamento Britânico aprovou, em dezembro de 1931, a criação da British Commonwealth of Nations (Comunidade Britânica de Nações). Trata-se de uma organização intergovernamental atualmente composta de 54 países membros independentes e, dos quais, 52 são ex-colônias do (tal como mencionado) maior império já existente em extensão de terras descontínuas. Nesse contexto, por meio desta estratégia neocolonialista que previu, dentre outras premissas, o “livre comércio”, o Reino Unido conseguiu manter (inclusive até os dias de hoje) forte influência sobre tais domínios.

Atualmente, os países pertencentes a esta comunidade são responsáveis por 30% de todo o comércio mundial, tendo, na figura da rainha Elizabeth II, sua chefa central. Mas as influências do Império Britânico não param por aí, muito menos limitam-se aos países por ele colonizados. Nos dias de hoje, o inglês, língua nativa deste “reino”, é o idioma oficial de mais de 50 países e também da União Europeia, das Nações Unidas e, além de tudo, considerado como “idioma universal”.

Não apenas isso, mas as influências culturais, a começar pelos Beatles – tida por muitos como a banda mais popular da história – ou, até mesmo, pelo Harry Potter – a narrativa do bruxo que está entre os livros e filmes mais consumidos de todo o percurso da “cultura moderna” – são importantes exemplos do alcance global da influência britânica na atualidade. Além disso, é claro, não poderíamos esquecer do futebol. Inventado por eles, hoje corresponde ao esporte mais tradicional do planeta. O próprio Reino Unido possui a liga nacional mais cara e disputada de todo o mundo.

É interessante avaliar que, ao longo desta longa trajetória – a qual já possui centenas de anos e inúmeros representantes – a realeza britânica é mantida sobre “status de intocável”. Sobre isto, ressalta-se que, apesar de não ter (em tese, pelo menos) representatividade efetiva no jogo político do Reino Unido, a Família Real – que é fruto de profundas desigualdades e formas de exploração do antigo regime feudal – ainda mantém-se forte. Mais do que isso, o seu patrimônio – regido pelo próprio governo (através do Crown Estate) – vem sendo ampliado significativamente, atingindo cifras bilionárias.

O fato é que, em um mundo onde o capital impera em escala globalizada e altamente “racionalizada”, a reprodução deste tipo de “lógica” (uma família a qual desfruta de privilégios conquistados a milhares de anos – pautados, inclusive, em uma romantização idealística que remete a um verdadeiro “conto de fadas” com reis e príncipes) não faz sentido algum. E de fato não faria, não fosse pelo atual estágio de “organização mercadológica” que a realeza britânica atingiu, transformando-se em uma grande marca global e que, apesar dos gastos bilionários, possivelmente, traga mais lucros que prejuízos para a economia do Reino Unido.

Para se legitimar tal prerrogativa, primeiramente, é necessário o entendimento de que, atualmente, existem 28 monarquias no mundo, muitas delas mantêm atividades midiáticas e sociais constantes – algumas aliás, vale ponderar, tiveram casamentos recentes e sobre os quais, provavelmente, poucos ouviram falar: Victoria, futura rainha da Súecia e o Príncipe Albert II de Mônaco casaram-se, respectivamente, em 2010 e 2011. A diferença encontra-se justamente na extensão e no simbolismo construído pelo Império Britânico, elementos que fazem da família real um verdadeiro “projeto de marketing” a ser vendido por cifras bilionárias ao resto do planeta.

Nesta linha de raciocínio, dados da britânica BBC apontam para estimativas de que o casamento, apesar de haver custado cerca de 160 milhões de reais, tenha trazido 5 bilhões de reais de lucro imediato ao Reino Unido. A lista de arrecadações é gigantesca, a começar pelos, já citados, 2 bilhões de espectadores em todo o planeta (o dobro da audiência da final da Copa do Mundo de 2014) e, também, estendendo-se a xícaras de café (R$ 125), pratos (R$ 245), canecas de cerveja (R$ 195), preservativos (R$ 50), além de uma infinidade de outros souvenirs vendidos a preços exorbitantes, pois contavam com a marca exclusiva do “evento”.

Lojas se preparam para lucrar com casamento real. Créditos: Frederic J. Brown/AFP.

Frente ao exposto, nota-se ainda a importância de acontecimentos como este para os anseios de consolidação do Reino Unido como um indispensável destino no complexo sistema turístico mundial. Ainda nesta direção, no último ano, o referido território recebeu cerca de 37 milhões de visitantes (muito acima dos 6 milhões acolhidos pelo Brasil) tendo, neste setor, uma importante fonte de renda. Contudo, para além do turismo imediato – que chegou a quantias absurdas na cidade do enlace (hospedagens em casas e apartamentos custando entre 10/20 mil reais por noite) – o “mega evento” projeta o Reino Unido em um cenário global de consumo. Com isso, através do alcance planetário de sua cultura, tradição e costumes, reforça a idealização de confiabilidade, exclusividade e excelência de seus produtos e serviços, oferecidos nos “quatro cantos do globo” por suas multinacionais.

Por conseguinte, em se tratando das questões subjetivas do casamento, é valido relacionar que Meghan Markle – a norte-americana, negra, feminista e divorciada – chega à família real com uma conotação ideológica muito expressiva. Trata-se da representação da aproximação da “realeza com o mundo real”, ou seja, uma das “bandeiras de luta” mais “valorizadas” mundo afora. Mundo este habitado por “reles plebeus” como nós, mas que, por sua vez, representam um “infinito” potencial de consumo. Nesta lógica, o “papel” de Meghan Markle se aproxima com o iniciado pela Princesa Diane (“a princesa do povo”) ao longo dos anos 90 e que foi interrompido por um fatídico acidente automobilístico ocorrido em 1997.

Sobre este episódio vale lembrar que a morte precoce também foi altamente capitalizada e midializada contribuindo, de forma significativa, para a sensibilização e popularização da família real em escala mundial. Isso, uma vez que não existe forma maior de “comoção popular” que a morte (no caso, de uma princesa, bonita, jovem, bilionária, carismática e que tinha uma vida toda pela frente, repleta de possibilidades). A legitimação do fato mencionado fica ainda mais evidente quando recordamos que seu velório foi transmitido, através da BBC, para mais de 200 países e em 44 idiomas (uma das maiores coberturas/audiências da história televisiva).

Paralelamente a isso, nota-se, também, que os casamentos recentes (William, 2011 e Harry, 2018) desempenham papel importante na revitalização da família real britânica – agora, ainda mais “pop”, rejuvenescida por seus novos herdeiros, praticante de esportes, comunicantes via redes sociais, mais dispostos a constantes apresentações públicas e, por consequência, cada vez mais indutores de comércio/consumo em escala planetária.

Para finalizar, utilizando-se de um “devaneio conspiratório”, talvez Meghan, “a nova princesa do povo” – representante de bandeiras populares e aclamadas mundialmente – não tenha chegado ocasionalmente. A escolha e o momento são “muito oportunos”. Isso porque, para além do já citado, o Reino Unido ensaia sua saída em definitivo da União Europeia – em um cenário de baixa liquidez de capital global, a nação “não quer” mais lidar com problemas socioeconômicos de um continente em crise de representatividade política e econômica.

Poderia soar contraditório a chegada de uma nova membra “populista e não europeia” à família real em meio a este complexo cenário da Geopolítica Europeia? Sim, mas desde que não houvesse a notícia da aprovação do Príncipe Charles, ainda no mês do passado – contrariando, inclusive, membros de outras nações – como novo sucessor da rainha na chefia da “Comunidade Britânica”, aquela mesma, representada por 52 ex-colônias britânicas e detentora de 30% dos fluxos de comércio mundial. Não por acaso, Charles assume com o objetivo de, nas palavras do próprio ministro de relações exteriores do Reino Unido, “(re)conciliar e fortalecer esta grande organização intergovernamental”.

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