O papel da educação pública no combate à violência e desigualdade social

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A educação pública na Finlândia.

Por João Henrique Santana Stacciarini
Professor da Universidade Federal de Uberlândia (Geografia/FACIP)

Em tempos de significativa crise econômica e política de nosso país, assuntos como a ampliação da Violência, da Corrupção, do Desemprego e das Desigualdades Sociais ganham força nas esferas políticas e jurídicas, bem como na mídia e na informalidade das conversas cotidianas onde, por vezes, amigos, colegas de trabalho e familiares se desentendem em meio a diálogos sobre qual a saída para a frágil situação do Estado brasileiro frente sua incapacidade em oferecer, sobretudo, segurança e renda para os seus mais de 205 milhões de habitantes.

Pois bem, a análise já se torna complicado por aí. O Brasil é o sexto país com maior contingente populacional do Planeta, fatores que tornam qualquer análise um tanto quanto complexa e essencialmente complicada de se efetivar. O fato é que proposições que visem soluções rápidas e (na atualidade) amplamente populares como a militarização da sociedade (via liberação do porte de armas) ganham cada vez mais força. Entretanto, é importante ressaltar que o presente ensaio caminha por um caminho diferente, desconfiando de tais proposições simplistas/imediatistas e visando o estabelecimento de possibilidades renovadoras.

Para isto, de início, esta tentativa de análise não pode deixar de lado a influência didática representada pelos Estados Unidos (EUA) – país amplamente conhecido, ainda que via notícias e replicações de conversas informais, pela grande porcentagem da população brasileira. Pois bem, a análise da “Política de Armas de Fogo dos EUA” revela dados intrigantes. Isto porque, apesar de ser o “país mais rico do mundo” (em termos absolutos) e de possuir, historicamente, a população mais armada do planeta (cerca de 90% dos habitantes – segundo o relatório “Small Arms Survey”), a nação “norte americana” enfrenta graves problemáticas relacionadas a manutenção das altas taxas de homicídio ao longo das últimas décadas.

Para se ter uma ideia, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNDOC) divulgou recentemente que a taxa de homicídio nos EUA foi 4,88 óbitos por 100 mil pessoas, o que o coloca em 59º lugar, entre 215 países avaliados em todo o mundo. Ainda seguindo este caminho interpretativo, vale destacar que as problemáticas “americanas” não param por aí, uma vez que relatórios recentes da Universidade de Harvard apontam que o acesso à educação é limitado e a segregação escolar ampliou-se consideravelmente, fazendo com que, atualmente, latinos e negros tenham cada vez menos oportunidades educacionais e trabalhistas que brancos.

Ainda sobre a temática, no fim do ano de 2013, o emblemático e reconhecido livro intitulado “O Capital no Século XXI”, escrito pelo economista francês Thomas Piketty, apresentou – pautado no relatório nacional da Escola de Economia de Paris – que a concentração de renda nos Estados Unidos atingiu, naquele ano, o maior nível histórico (desde que a série começa a ser realizada em 1917), revelando assim que o território “norte americano”, antes símbolo de liberdade e prosperidade, nunca foi tão desigual e segregador.

Direcionando a avaliação para o “outro lado” do Oceano Atlântico, nos deparamos com países como Irlanda, Islândia e Noruega, onde, acredite se quiser, sequer os policiais portam armas de fogo e, ainda assim, as taxas de homicídios são irrisórias e tendem a zero. Neste contexto, vale também destacar que as “dádivas” não param por aí, uma vez que a tríade citada figura ainda entre os países menos corruptos do mundo (apontados através da entidade “Transparência Internacional”), além de estarem entre as nações menos desiguais do planeta (via Coeficiente de Gini) e, também serem reconhecidas como detentoras de altíssimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) – estes dois últimos indicadores disponibilizados, anualmente, a partir de relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU).

Frente ao exposto, surge a dúvida: Quais seriam os segredos para tais conquistas? Certamente a resposta não passa por uma única variável – simplista e capaz de explicar o complexo avanço de problemáticas como a violência e a concentração de renda que assolam territórios ao longo das diversas regiões do globo terrestre.

Todavia, é importante destacar que uma variável é replicada de forma recorrente em países que conseguiram alcançar um patamar de estabilidade política, econômica e social. Ainda que o conceito de “Historicidade do Espaço” (conjunto de realizações históricas que contribuem para a “evolução” de determinado local), conforme apresentado pelo eminente geógrafo Milton Santos, tenha fundamental importância na avaliação da consolidação da “qualidade de vida” destes países, a variável da EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE se destaca como importante fator de transformação socioeconômica destes.

O fato é que estes investiram amplamente, sobretudo ao longo da segunda metade do Século XXI, em educação pública, reflexiva e, principalmente, de excelente qualidade – capaz de atingir com universalidade toda sua nação. Como exemplo, a Finlândia (país do norte europeu que também congrega destes altos índices socioeconômicos) passou por uma ampla transformação após a década de 1970, vindo, na atualidade, se consolidar como o país com a melhor educação do planeta – motivo que lhe permitiu “colher frutos recompensadores”.

Contudo não foi um caminho fácil! Para buscar tais melhorias, o país instituiu o “Sistema de Educação Gratuita e de Qualidade” em todos os níveis, bem como a valorização profissional da carreira de magistério, que passa a ser considerada como uma das mais nobres no país. Resultado disto, anos mais tarde, a Finlândia se consolida (segundo vários relatórios internacionais) como país com melhor sistema educacional do globo. Ainda neste sentido, é importante frisar que atualmente a carreira de professor é uma das mais procuradas do país, além de possuir uma remuneração mínima que equivale à metade de um salário de um “deputado federal” finlandês.

Neste contexto, por não ter escolas particulares, o filho de qualquer trabalhador convive/estuda junto ao filho do presidente (ou do bilionário) finlandês, podendo, desde os anos iniciais, se estruturar para, futuramente, ter uma concorrência mais igualitária frente ao mercado de trabalho. As transformações não param por aí e passam ainda por aquilo que eles chamam de ‘aprendizado experimental’, ou seja, o famoso “decoreba” (muito presente nas escolas brasileiras) é substituído por aulas práticas, com menor carga horária e que, por vezes, ocorrem fora de sala de aula – visando a integração dos estudantes com a realidade diária do mundo.

Por fim, vale também pontuar que, aliados as transformações na educação estão as políticas de “bem estar social” que, através da cobrança eficiente de impostos e da “ausência” de corrupção, garantem políticas públicas que permitem à todas as famílias acesso a moradia, saúde, alimentação e transporte (estes que são pilares básicos para a transformação social).

Sendo assim, frente a tudo que é apresentado em conjuntura internacional, bem como analisando o presente momento político-econômico brasileiro, em que governantes vislumbram por projetos de cobranças, privatizações e sucateamento da educação pública no país, entende-se (e rebate-se) que, talvez (certamente) a educação seja o principal motor de transformação socioeconômica para que futuramente possamos sonhar com um Brasil menos violento, assim como mais rico e socialmente mais justo.

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