A Psicologia Evolucionista e o caso das esferas de análise

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Konrad Lorenz e Nikolaas Tinbergen, os dois etólogos que montaram muitas das bases da psicologia evolucionista.

Eventualmente me pego pensando sobre a teoria da evolução, sobre como possuir mais de 100 anos e centenas de evidências interdisciplinares corroborando-a pode ainda suscitar tanto ceticismo — não o do tipo saudável, mas aquele que faz a gente voltar inúmeras vezes às mesmas polêmicas infrutíferas e às pseudoquestões. Talvez esse seja o azar de toda teoria que toca profundamente na nossa natureza, que nos faz perguntar de onde viemos e para que existimos (será que há absolutamente um “para quê?”).

A evolução é uma questão populacional, não individual

Por outro lado, é engraçado que muitos dos defensores do darwinismo não fazem muito para ajudar numa divulgação correta do modelo, espalhando concepções simplistas e erradas. Na campo da informalidade, é o caso dos que dizem que a evolução é uma questão de sobrevivência dos mais fortes ou que temos de agir conforme a evolução, nos adaptando aos problemas e imprevistos da vida. Mas também percebe-se a confusão em certas publicações acadêmicas, quando são sugeridos motivos evolutivos para comportamentos individuais, numa relação de causa e efeito imediatas.  

Em verdade, a seleção natural não tem nada a ver com o mais forte, mas com a sobrevivência dos mais bem adaptados (fitness) às condições do ambiente daquela espécie; também não é o caso aplicarmos os princípios evolutivos à nossa vida pessoal, pois a evolução não tem a ver com o que escolhemos fazer de nossas vidas; ela sequer é analisada no nível individual, mas sim no populacional. O raciocínio evolutivo explica como as espécies vão mudando ao longo das gerações, como resultado de uma equação que leva em conta os desafios ambientais e as adaptações biológicas (anatômicas e comportamentais), nada tendo a ver com escolhas individuais ou qualquer nível de análise desse tipo.

Essas são querelas que surgem quando a evolução ainda é tratada como uma biologia mais crua, mais anatômica, digamos. Isso toca especialmente os sentimentos dos criacionistas, que querem enquadrar os fatos na perspectiva de que alguma inteligência superior criou os seres vivos. O público leigo em geral também acaba participando dos enganos, pois parece haver certa dificuldade de entender que questões e respostas sobre a evolução precisam de uma ampla análise quantitativa de grupos inteiros para tirar dali, através de alguma estatística, certos padrões que se encaixam nos modelos evolutivos; não é uma mera questão de observar comportamentos individuais e especular sobre motivos evolutivos para eles.

A diferença entre o foco na ciência e na militância

Imagino a cara com que Foucault estaria lendo esse texto.

Porém, como mencionei, essa não é uma dificuldade apenas de leigos, mas também de acadêmicos, em geral de Humanas. Estou especulando com base na minha experiência enquanto recém graduado em psicologia, mas me parece que no Brasil há uma ênfase extrema em se fazer uma psicologia que forme militantes sociais, não profissionais que saibam estudar de fato seus objetos de estudo.

Isso implica em certa alergia a teorias que tracem relações entre comportamentos e tente mostrar os motivos deles (onto ou filogenéticos), já que nem sempre mostrar esse tipo de coisa significa descobrir coisas louváveis sobre nossa espécie. Como há esse compromisso com a militância política, há enorme dificuldade em diferenciar pesquisas empíricas de pesquisas que visam um dever ser baseado em ideologia — como estudos que lemos durante todo o curso, sobre como pode ser antiético para o psicólogo trabalhar adaptando as pessoas à sociedade capitalista, ao invés de tentar desconstruir isso e fazer uma revolução social. Daí todo o problema que a psicologia brasileira tem com fazer ciência.

Outro ponto é a resistência em considerar que o comportamento é forjado por uma complexa equação que inclui predisposições genéticas, a configuração do cérebro e a articulação dessa base biológica com as modificações causadas pelo aprendizado e desenvolvimento de forma geral — aprendizado este que é essencialmente também um processo biológico, a neuroplasticidade. Em suma, a complexa rede de possibilidades do Homo sapiens, inclusive a criação de algo tão novo no mundo natural quanto a cultura, não é uma superação da biologia, mas uma consequência desta. Somos biologicamente culturais.

Se esse patamar inicial não é galgado, fica ainda mais difícil de perceber que a história evolutiva da espécie também tem seu papel explicativo na psicologia. Fica muito fácil, assim, deturpar tudo e usar rótulos como “determinista” e “reducionista”, para se referir à área. Isso porque os opositores creem piamente que falar de evolução significa apelar para determinismo genético, ignorando a influência ambiental e adotando uma visão que ignora totalmente a influência das variáveis culturais e ambientais.

Essas críticas seriam válidas como um aviso, um chamado à moderação, se não tivessem errado totalmente o alvo. Grande parte dessas confusões conceituais e práticas são criadas por desconhecimento de um artifício explicativo essencial para todos os especialistas que estudam o comportamento de alguma forma. Antes de serem traçadas linhas claras entre as esferas de explicação próximas e distantes, não deveria ser ensinado nada sobre áreas mais voltadas para a crítica sociológica nem para as disciplinas que olham para o ser humano por um ângulo mais individual, ontogenético, e tampouco deveria ser mencionada a psicologia evolucionista, que é o ramo que mais sofre as consequências dessas faltas didáticas.

Os 4 porquês de Nikolaas Tinbergen

Tinbergen
Tinbergen

Uma das produções científicas mais elegantes, dentro do estudo do comportamento, foi a ideia dos 4 porquês de Nikolaas Tinbergen, mencionado pela primeira vez num artigo intitulado On aims and Methods in Ethology, publicado em 1963. Nikolas Tinbergen foi um proeminente etólogo, ganhador do Nobel, tendo insights usados tanto na explicação do comportamento animal quanto humano.

Essa publicação obteve profundo impacto na psicologia, pois sugeria que questionar sobre por que um determinado animal se comporta de determinada maneira seria na verdade se referir a quatro níveis distintos de análise, traduzidos nas seguintes sub-questões: (i) quais as causas fisiológicas desse comportamento? (ii) Como se deu o desenvolvimento (ontogênese) daquele indivíduo para propiciar o comportamento? (iii) Qual a história evolutiva de tal comportamento nessa e em outras espécies? (iv) Quais os benefícios e custos desse comportamento, para que ele tenha sobrevivido à seleção natural?

Também é possível condensar as respostas a essas perguntas em duas causas principais: as causas distantes e as próximas.

Quando falamos de causas próximas, estamos nos ferindo a tudo aquilo que influencia um comportamento no presente, seja no tempo imediato daquele contexto, ou na sua história de vida, no seu desenvolvimento e experiências. Também pode entrar em questão os mecanismos fisiológicos envolvidos, que tornam materialmente possível aquele comportamento, o que pode envolver falar de fisiologia em si e até de genética. Ou seja, existe um componente mais concretamente biológico aí (fisiologia e genética) e um mais funcional, que não exatamente exclui a biologia, mas trata de uma dinâmica sobre como essa bios interage com o ambiente e produz funções, ações.

Nas causas distantes já estão envolvidas perguntas diferentes. Aqui, queremos saber por que, afinal de contas, o organismo do indivíduo está preparado para responder de determinadas maneiras a diferentes outputs ambientais. Como a biologia de sua espécie foi moldada para funcionar dessa maneira? Como ela foi construída ao longo das gerações para, também, responder com certo grau de variabilidade a contextos diferentes?

Explicando comportamentos de acordo com as esferas de análise

crybabyO choro é um exemplo simples, mas que facilita a visualização.

Crianças humanas choram, isso é uma coisa bem singularmente humana. Seu choro acaba atraindo a atenção dos adultos, que logo vão verificar se há algo de errado. Provavelmente esse é um comportamento que requer certos custos, como chamar a atenção de predadores num ambiente ancestral, mas se a espécie (ou ao menos esse sistema de alarme) não foi extinta é porque seus benefícios foram maiores, indicando que algum cuidado com a criança deveria ser tomado.

No entanto, as explicações não precisam parar por aí. Poderíamos explicar como exatamente o corpo produz o choro, as lágrimas; quais hormônios são liberados por quais órgãos, como o líquido das lágrimas são liberados e etc. Também seria interessante saber o que teria feito a pessoa chorar.

Já que estamos falando de choro, é bom dizer que as emoções, pelo menos as básicas, são excelentes exemplos de comportamentos com causas próximas e distantes muito bem localizadas. Para facilitar, é bom falar sobre o medo, uma reação de luta e fuga, é encontrado em praticamente todas as espécies e exibido de maneira muito semelhante entre todos os mamíferos, em especial os primatas.

Uma pessoa (na verdade, isso inclui qualquer espécie) sente medo como resposta a algum estímulo do ambiente, ou algo “interno”, como um pensamento. Em outras palavras, se você está andando numa rua escura, se vê uma serpente ou se um assaltante entra no ônibus, temos sensações específicas e o corpo responde fisiológica e comportamentalmente (de maneira visível e invisível) a isso. A amígdala, uma pequena área subcortical do cérebro, é ativada, as glândulas adrenais secretam cortisol, seus músculos faciais se contraem de uma maneira bem especifica formando uma expressão facial típica, nem que seja por alguns milésimos de segundo, e seu corpo vai apresentar uma linguagem não-verbal específica também, provavelmente se paralisando, fugindo ou até se encolhendo.

Junto com esses elementos, existe também a percepção subjetiva dessas sensações corporais, que, claro, só podemos investigar numa análise de primeira pessoa, pois nenhum aparelho ou observação pode detectar o que está sendo sentido.

Essas respostas não aparecem todas juntas sempre, mas a correlação entre elas é suficientemente recorrente para que montemos um padrão. E isso acontece com relação a todas as emoções básicas.

A maioria das espécies, principalmente mamíferos, exibem respostas e características fisiológicas e não-verbais muito parecidas com as do Homo sapiens. Existe também uma certa paridade no que tange aos estilos de estímulos que suscitam o medo: altura, visualização de um oponente mais poderoso, sons altos (resposta de sobressalto).

Isso é especialmente curioso em primatas, que podem interpretar como ameaça tanto outros primatas quanto outras espécies, como serpentes e aranhas — sendo esses últimos também considerados temíveis por seres humanos, uma provável herança de seus ancestrais ou evidência de que serpentes e aranhas também foram perigos significativos no passado de nossa própria linhagem. Mas essa paridade não é necessária, pois o que parece herdado é a emoção em si, que pode ser ativada por diversos estímulos conforme o aprendizado.

Teorias científicas testáveis na psicologia evolucionista

Não, você não está no texto errado. É que a Teoria dos Jogos é hoje uma importante ferramenta para o estudo da evolução.
Não, você não está no texto errado. É que a Teoria dos Jogos é hoje uma importante ferramenta para o estudo da evolução.

Para muito além da teorização sobre o comportamento, a psicologia evolucionista transforma esses insights em modelos testáveis, que podem ser corroborados ou refutados. Nada mais comum.

Leda Cosmides, no final da década de 80, início da formalização da psicologia evolucionista como área bem definida, propôs uma teoria sobre intercâmbio social. Em suma, ela propôs possibilidades na interação entre duas ou mais pessoas, que poderia se dar de forma cooperativa ou competitiva. Foram testados vários modelos computacionais que preveriam a tomada de decisão em determinados cenários experimentais, o que significa que Cosmides testou a possibilidade de certas predisposições evolutivas terem influência sobre a tomada de decisão nessas situações. Suas hipóteses não se confirmaram, entretanto ao longo das décadas foram mostrados muitos mecanismos decisórios que funcionam segundo uma lógica causal última, tanto é que hoje, mesmo a bem estabelecida aversão à perda, que garantiu um Nobel a Daniel Kahneman, hoje é entendida como um dos módulos de tomada de decisão desenvolvidos ao longo da seleção natural, provavelmente não como um viés para situações gerais, mas para contextos em que seria adaptativo ter certa cautela.

Como mencionado, porém, todo o esforço desses estudos é às vezes jogado por terra, pois há certa incompreensão do real domínio de análise das causas últimas mesmo entre alguns dos especialistas que estudam o comportamento humano ou de outros animais. A confusão entre causas últimas e próximas pode ser observada de maneira inconvenientemente numerosa.

Um dos comportamentos mais intrigantes é a cooperação. É inquietante se perguntar como organismos jogando o jogo da sobrevivência podem ser capazes de beneficiar outros indivíduos e não a si mesmos (pelo menos não de maneira imediata, como ocorre no altruísmo recíproco). Esse é essencialmente um problema que diz respeito à esfera de análise da evolução, mas curiosamente muitas vezes a esse problema são dadas soluções que remontam às esferas próximas, como religião, culpa, orgulho, predisposições psicológicas e punição de não-cooperadores (free-riders), tudo isso já foi usado como explicação. Esses elementos explicariam como o altruísmo funciona, mas não explica por qual motivo determinada espécie é preparada para agir dessa maneira em determinas ecologias. Isso não significa que invocar esses fatores psicológicos citados seja errado, é apenas uma atitude imprópria para alguns tipos de perguntas.

É interessante notar que no cotidiano também ocorre o contrário: já vi uma penca de vezes explicações evolutivas serem usadas para justificar comportamentos individuais.

Um exemplo clássico é o da infidelidade. Alguns livros de autoajuda dizem que homens traem as mulheres porque tem um instinto especial para traição. Isso está errado por vários motivos: (i) os homens não tem nenhuma propensão absoluta maior que a das mulheres para a traição; (ii) a evolução equipa os animais com conjuntos flexíveis de comportamentos, adaptados para diferentes ecologias, portanto, homens e mulheres tem propensões diferentes para a infidelidade, dependendo dos fatores ambientais em questão — daí a enorme variação cultural entre os humanos; (iii) dizer que — supostamente — homens traem mais por uma questão evolutiva não é uma justificativa moral — nem biológica — para traições individuais, portanto, não faz sentido ver um caso específico e dizer “ah, é assim mesmo, homens traem mais por causa da evolução que os fez assim.”.

Seria como dizer que ser violento é correto porque, afinal, a evolução moldou as espécies com pacotes que incluem caracteres físicos e cognitivos para agir violentamente quando for mais “benéfico” (de novo, não é no sentido moral, mas no jogo de custo-benefício com o qual a evolução analisa populações em certos contextos).

Cuidados a serem tomados daqui para frente

Hoje a teoria da evolução aplicada à psicologia gera muito mais frutos para a área do que simplesmente as reflexões que pesam sobre a consciência ao nos darmos conta da óbvia ancestralidade humana e do elo que liga todas as espécies existentes e também as extintas. Enquanto ciência, a psicologia foi renovada com o poder explicativo de teorias que levam em conta a esfera última de análise, gerando também questões muito instigantes.

A interdisciplinaridade é também bastante ampla, como a da economia — que hoje já pensa no princípio da utilidade como uma questão de fitness — ou até do marketing, que vem aplicando modelos inspirados nos princípios da seleção sexual e teoria da sinalização custosa para entender o comportamento do consumidor e fazer previsões.

Essa é toda a vantagem que se obtém ao se ter um pouco de cautela e aprofundamento no conhecimento das esferas de análise.

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