Apenas uma temporada de futebol americano – mesmo sem concussão – pode causar danos ao cérebro

A região do tronco cerebral (laranja) poderia servir como o "canário na mina de carvão" para identificar danos cerebrais causados por traumatismo craniano repetitivo de esportes. Créditos: iStock / Janulla.

Por Eva Frederick
Publicado na Science

A familiar trilha sonora do futebol americano, de acordo com muitos fãs, é um jogo bem executado. Mas, para os pesquisadores de neurociência, esses sons podem sinalizar algo muito mais sombrio: dano cerebral. Agora, um novo estudo mostra que jogar apenas uma temporada de futebol americano universitário pode prejudicar o cérebro de um jogador, mesmo que ele não receba uma concussão.

Os médicos e jogadores devem tomar nota das descobertas, diz Stephen Casper, historiador da medicina da Universidade Clarkson, em Potsdam, Nova York, que estuda concussões, mas não estava envolvido no trabalho. “Isso apenas aumenta as montanhas de evidência de que as pessoas devem receber avisos mais claros e transparentes sobre como jogar futebol americano”.

Apenas os médicos podem diagnosticar uma concussão. Eles tipicamente procuram por fala arrastada e coordenação prejudicada, e realizam um exame físico para analisar sintomas como pupilas dilatadas ou desiguais. As lesões que ficam aquém das concussões são frequentemente negligenciadas, mas se elas acontecem com frequência, elas podem ser prejudiciais ao cérebro.

No novo estudo, pesquisadores da Universidade de Rochester, em Nova York, seguiram 38 jogadores de futebol americano de uma escola. Os atletas utilizavam capacetes equipados com acelerômetros para rastrear o número e a força de acertos durante treinos e jogos. Antes e depois de cada temporada, os cientistas faziam exames de ressonância magnética dos cérebros dos jogadores. Os pesquisadores analisaram especificamente o mesencéfalo, uma região do tronco cerebral que rege funções primitivas, impensáveis, como a audição e a regulação de temperatura. Quando a cabeça de um jogador é atingida de qualquer ângulo, o cérebro ondula como a superfície de um lago depois que uma pedra é lançada, explica o autor do estudo, Adnan Hirad, um estudante de medicina da Universidade de Rochester. Embora as forças possam afetar muitas regiões do cérebro, a localização central do mesencéfalo faz com que seja provável que sofra danos.

Os resultados foram impressionantes. Embora apenas dois dos 38 jogadores tenham sofrido uma concussão, mais de dois terços deles mostraram mudanças na integridade da substância branca de seus mesencéfalos. Os golpes rotacionais – quando o capacete de um jogador é atingido por um golpe – são particularmente ruins para a substância branca do mesencéfalo, informou a equipe na Science Advances.

Os pesquisadores também encontraram a mesma assinatura de lesão do mesencéfalo na ressonância magnética em uma coorte separada com concussões diagnosticadas. Nesta segunda coorte, as alterações no mesencéfalo foram correlacionadas com o aumento dos níveis de proteína tau na corrente sanguínea desses indivíduos. A proteína, que indica danos às células cerebrais, está ligada à encefalopatia traumática crônica, uma condição que pode causar perda de memória, depressão e instabilidade emocional, podendo levar à demência.

O mesencéfalo é como “canário na mina de carvão para o cérebro inteiro”, diz o autor Bradford Mahon, neurocientista da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, na Pensilvânia. Mahon e Hirad esperam que a região seja útil para os médicos e pesquisadores no futuro, e mostre uma imagem mais sutil de como os golpes repetitivos do futebol americano podem prejudicar os cérebros dos jogadores, mesmo quando eles não são concussados.

Os cientistas planejam utilizar suas pesquisas para desenvolver algoritmos que possam coletar dados de acelerômetros de capacetes e sinalizar quando um jogador sofrer danos em níveis elevados. Como primeiro passo, a equipe criou o Open Brain Project, onde os jogadores podem fazer upload de seus dados de capacete.

Ainda assim, embora Casper aplauda o estudo, ele diz que a verdadeira questão é se os estudantes universitários devem jogar futebol americano, tendo em conta os riscos. “Temo que a resposta seja não”.

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