As palavras podem formar cristais na água?

20
11056
Crédito da Imagem: "What the Bleep Do We Know!?"

Quando não estamos familiarizados com a ciência nós nos maravilhamos e nos assustamos com a suposta comprovação científica de alguns assuntos, ainda mais se esse assunto vai de encontro a nossa fé. Infelizmente muitas vezes nossa inocência em alguns assuntos nos leva a cometer deslizes e acabamos por acreditar e a divulgar inverdades que nos são dadas como verídicas.

Recentemente mais um assunto foi requentado por vários blogs, dessa vez é a velha história dos cristais de água que são influenciados por palavras boas ou más, veja aqui.

Como esse assunto toca em um ponto delicado; a crença de muitas pessoas, eu vou deixar meu jeito escrachado de lado e falar sério. Quero discutir um pouco sobre esse assunto a fim de mostrar que o estudo é, infelizmente, não é verdadeiro.

Vamos lá!

Primeiramente o autor do estudo, Senhor Masaru Emoto, não é cientista como alguns blogs afirmam, ele é um fotógrafo e escritor japonês. Depois de sua suposta descoberta e de sua disseminação pelo mundo, ele vendeu mais 2 milhões de cópias de seus livros, participou de documentários tendenciosos sobre o assunto (Quem Somos Nós?) e ainda passou a integrar o corpo docente de uma universidade indiana relacionada a pseudociência, a Open International University for Alternative Medicine, que não possui nenhuma credibilidade no meio acadêmico/científico.

No nosso ponto de partida temos imediatamente um erro: Emoto não é cientista. Mas o que isso significa? só porque ele não é cientista ele não pode estar certo?

Não há problema em Emoto não ser cientista, porém esse é o primeiro indicador de que há algo errado na história. Alguém sem formação em ciência e que nunca trabalhou no assunto surge com descobertas bombásticas em uma área que existem muitos pesquisadores em todo o mundo, estranho não?! Mas só isso está longe de pôr por terra suas ideias, precisamos de mais fatos.

Para chamar esse assunto de ciência ou de pesquisa científica, o fotógrafo japonês precisa ter artigos confirmando seus resultados publicados em um periódico que foi revisado por pares. Ele tem? Vamos analisar isso

Revirando o submundo da internet, descobri que existe um artigo publicado por Emoto em um periódico nada relevante, no qual ele tenta fazer um estudo duplo-cego para mostrar como a palavra/pensamento pode influenciar a formação de cristais de gelo. No teste 2 mil pessoas em Tóquio focaram seus pensamentos positivos em amostras de água que estavam em recipientes blindados no Instituto de Ciência Noética da califórnia. Segundo o próprio artigo a amostra que que recebeu o pensamento positivo possui bem mais cristais de gelo bonitinhos do que o controle. Veja abaixo o resumo do artigo:

The hypothesis that water “treated” with intention can affect ice crystals formed from that water was pilot tested under double-blind conditions. A group of approximately 2,000 people in Tokyo focused positive intentions toward water samples located inside an electromagnetically shielded room in California. That group was unaware of similar water samples set aside in a different location as controls. Ice crystals formed from both sets of water samples were blindly identified and photographed by an analyst, and the resulting images were blindly assessed for aesthetic appeal by 100 independent judges. Results indicated that crystals from the treated water were given higher scores for aesthetic appeal than those from the control water (P = .001, one-tailed), lending support to the hypothesis.

Legal, né? Mas as coisas não são tão fáceis assim na ciência, é preciso ter resultados mais precisos e  exaustivos testes, então os próprios pesquisadores decidiram realizar um teste triplo-cego para tentar reproduzir os resultados do artigo anterior e o que obtiveram não foi nada surpreendente. Dessa vez eles utilizaram 1900 seguidores de Emoto para enviar pensamentos positivos para as amostras de água e elegeram mais 2500 juízes para analisar quais fotos eram as mais bonitas, inicialmente o experimento pareceu dar um resultado condizente com o estudo anterior, porém, quando os dados foram cruzados e normalizados obtemos isso:

grafagua

Em preto temos o controle e em cinza temos a água influenciada pelo pensamento positivo. Como é possível ver, não há diferenças consistentes entre os cristais de gelo do controle e do “influenciado”. Logo o que temos a dizer é que a idéia do senhor Emoto não passou em um estudo mais refinado. Isso faz da hipótese de Emoto ser científica, mas tentaram sim dar uma abordagem científica posterior a ela, embora sem sucesso.

Mas e as fotos, não servem para nada?

As fotos divulgadas não são provas de que Emoto diz a verdade, isso porque não há controle das amostras, não há imparcialidade, não há de fato um método claro por trás da obtenção dos dados. Não podemos saber a que aproximação no microscópio ele usou para cada foto, nem qual a temperatura da água, nem mesmo se ele submeteu as amostra ao procedimento que ele afirma. Não há como saber sobre as impurezas nem sobre as variáveis do sistema trabalhado. Dessa forma ele pode ter tirado a foto de um floco de neve qualquer e ter o rotulado de “cristal que se formou com a palavra amor”, ou ter tirado foto com uma aproximação não tão grande e ter rotulado “molécula de água com a palavra ódio”.

Outro problema com os cristais de água que vemos nas fotos, é que eles só se formam em determinadas condições do sistema, ou seja, em condições de pressão, temperatura e volume ideais. Temos inúmeros fatores que corroboram para formar cristais simétricos e bonitos, isso dificulta isolar as variáveis do sistema. Não sabemos se Emoto escolheu só os cristais que importavam para ele e ignorou o resto, pois como afirmado pelo próprio: “photographers are instructed to select the most pleasing photographs.” (Fotógrafos são instruídos a selecionar as fotografias mais agradáveis) – já dá para perceber que ele escolheu só o que convinha…

On the Waterfront. The Pioneering Work of Dr. Masaru Emoto. The japanese researcher’s books about water’s insight and power have taken the new age by storm.

Emoto peca ainda em muitos outros sentidos na sua suposta, chegando mesmo a admitir muitas vezes que seu trabalho não tem nada de científico, nem de aprimorado. De forma geral, sua pesquisa não possui rigor científico, nem mesmo imparcialidade, além de não divulgar a comunidade científica seu trabalho de forma satisfatória. Isso tudo lhe custou diversas críticas, algumas delas lançadas em revistas científicas sérias de reconhecimento mundial, como a NewScientist.

Emoto recebeu a proposta de James Randi para ganhar um milhão de dólares ao instituto o qual fundou caso comprovassem sua pesquisa. O fotógrafo publicou em seu site:

“Estou certo que existiu o desafio da fundação alguns anos atrás. Disseram que nos pagariam um milhão de dólares se conseguíssemos provar cientificamente o que estavam a fazer. No entanto nem sequer lhes respondemos. A razão prende-se com o fato de eu conhecer a sensibilidade da água melhor que ninguém. Acredito, também, que é impossível preparar um ambiente de pesquisa com a ciência que os cientistas modernos aprovem. Mesmo se pudesse, custaria mais de dez milhões de dólares. Os equipamentos no nosso instituto são muito rudimentares, pesquisa individual no instituto onde algumas pessoas começaram sem qualquer apoio financeiro. Deste modo o nosso nível está longe de ser científico. Ao invés, é um nível de arte ou fantasia. Espero que verdadeiros cientistas consigam prová-lo num futuro próximo” (a resposta em japonês pode ser vista aqui).

Acredito que até aqui tenha ficado claro que não existem provas científicas no que é feito por Emoto e isso é reconhecido por ele, principalmente quando chama seu trabalho de arte ou fantasia.

Aqui temos uma análise, feita por um cientista do departamento de ciências naturais de Vermont.

Aqui outra crítica feita por Gary Greenberg, um cientista biomédico e fotografo mundialmente conhecido.

CONTINUAR LENDO