Carl Sagan e a importância do ceticismo na vida cotidiana

“Pedimos a Lys Ann Shore, escritora na seção de notícias e comentários da Center for Inquiry, para cobrir a Conferência do Comitê de Investigação Científica de Alegações de Atividades Paranormais em Pasadena, 1987. Ela contribuiu com esse relato”, aponta a Center for Inquiry.

Publicado na Center for Inquiry

Carl Sagan carrega o “fardo do ceticismo”

Na vida, da compra de um carro usado até a análise dos esquemas de segurança nacional, há “uma elegante balança entre duas necessidades: o escrutínio mais cético possível de todas as hipóteses e a abertura para novas ideias”, disse o astrônomo Carl Sagan em sua palestra.

Ao se apresentar para uma multidão atenta e apreciativa no Auditorium Theater of the Pasadena Center, Sagan falou de comerciais de TV até canalização, inteligência extraterrestre e segurança nacional para demonstrar a necessidade do ceticismo na vida cotidiana. Assim como muitos comerciais de TV demonstram “um real desprezo pela inteligência dos telespectadores”, igualmente são os níveis de argumentos apresentados pelos Estados Unidos para testes de armas nucleares. Há pessoas no governo “que pensam que os americanos irão endossar qualquer frase em inglês que eles professarem”, disse Sagan.

Ele vê o ceticismo e a abertura para novas ideias como atitudes complementares. “Se você é apenas cético, nenhuma ideia nova irá te convencer”, aponta. Mas se você está apenas com a mente aberta e não tem senso cético, você não será capaz de avaliar nada. Sagan elogiou a ética científica da crítica rigorosa às novas ideias.

Por que o público norte-americano não é mais cético sobre reivindicações de corporações e funcionários do governo – para não mencionar canalização de energia e outros proponentes do paranormal? “Parte das respostas enganosas apresentadas está na crueldade que a verdade traz”, disse Sagan. “Talvez pensamos que a ilusão é mais consoladora”, por exemplo, quando nos é oferecida a oportunidade de se comunicar com pessoas amadas que já morreram. “Mas quando reconhecemos que somos vulneráveis por conta de nossos próprios desejos, temos de estar mais atentos do que nunca”, disse Sagan.

No entanto, a atração pela ilusão não é a única responsável pela credulidade das pessoas. “O ceticismo é perigoso”, disse Sagan. “É exatamente a sua função, na minha opinião”. Crianças ensinadas a serem céticas podem não aceitar os comerciais de TV: em vez disso, elas podem começar a desafiar as ideias e as instituições aceitas.

Mais tarde, tratando sobre a busca de inteligência extraterrestre (SETI) e a linguagem animal, Sagan apontou as predisposições à mentira que podem ser encontradas nesses debates. Por exemplo, ambas as questões envolvem a crença dos seres humanos em sua própria singularidade – o “conceito anti-copernicano”. Assim que descobrirmos a inteligência extraterrestre, “o último remanescente de vaidade se vai”. Ao avaliar reivindicações realizadas nessas áreas controversas, que ajudam a mostrar como a ciência funciona: a ciência revela a necessidade de confirmação dos fatos e a cautela em esperar a evidência antes de chegar a uma conclusão. “Não há nenhum problema se você não sabe a resposta para alguma coisa”, disse Sagan.