As ‘viagens’ psicodélicas são muito semelhantes às experiências religiosas em vários aspectos

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Créditos: Jasmin Merdan / Moment / Getty Images.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Um crescente corpo de pesquisas sobre drogas tem mostrado que experiências com drogas psicodélicas podem ser positivas e negativas – assustadoras e desconfortáveis ​​para alguns, mas levando a benefícios no bem-estar e nos relacionamentos para outros. Essas substâncias também apresentam resultados iniciais promissores no tratamento de transtornos mentais, em doses controladas.

Então, por que a disparidade entre as experiências boas e as más? Uma equipe de pesquisadores que fez um questionário com 288 indivíduos sobre suas experiências com psicodélicos descobriu que ter uma experiência mística ou religiosa com drogas pode desempenhar um papel importante.

O estudo preenche algumas lacunas em nosso conhecimento sobre como drogas psicodélicas como o LSD e a psilocibina induzem experiências com aspectos religiosos e pode nos revelar mais sobre como usar essas substâncias em tratamentos.

Também mostra que as experiências profundas com drogas e espirituais podem produzir o mesmo tipo de sentimento e humor nas pessoas.

“Mesmo quando tomadas pela primeira vez, os psicodélicos podem ocasionar experiências subjetivas poderosas que compartilham muitas características com aquelas descritas por místicos, meditadores dedicados à prática e praticantes religiosos”, disse o psicólogo Samuli Kangaslampi da Universidade da Tampere (Finlândia) ao PsyPost.

“Algumas pesquisas estão começando a demonstrar que passar por uma experiência de cunho místico pode estar ligado a um melhor relacionamento consigo mesmo, com os outros e com o ambiente natural ao longo do tempo.”

O estudo fez uso de uma tradução finlandesa do Questionário Revisado de Experiências Místicas com 30 perguntas, ou MEQ30 (do inglês: Revised Mystical Experiences Questionnaire), que pede aos voluntários que tentem quantificar alguns dos sentimentos e sensações que tiveram durante o uso de psicodélicos.

A equipe avaliou diferentes maneiras de traduzir o MEQ30 para encontrar o método mais confiável para refletir com precisão as experiências dos voluntários. Em seguida, passaram a explorar a ligação entre o lado psicodélico e o lado espiritual.

As pessoas com pontuação elevada no MEQ30 eram mais propensas a descrever suas experiências como místicas, espirituais ou religiosas e mais pessoalmente significativas.

Esses sentimentos podem incluir uma maior consciência de um mundo interior com suas emoções e pensamentos, por exemplo, ou ter a impressão de transcender o tempo e o espaço. Esta validação científica abre mais áreas para pesquisas futuras, incluindo os efeitos duradouros dessas drogas.

“Aqueles que tiveram experiências místicas completas relataram mudanças mais positivas em todas as áreas pesquisadas, em comparação com aqueles que não tiveram tal experiência”, escrevem os pesquisadores em seu artigo.

Para estudos futuros, a equipe está interessada em observar como as experiências de tipo místico provocadas por psicodélicos podem diferir entre diferentes culturas e contextos, razão pela qual a tradução do MEQ30 é importante.

Existem algumas limitações a serem observadas: os participantes do estudo relataram suas experiências por conta própria, o que pode levar a imprecisões e esquecimentos. Além do mais, em alguns casos, as experiências ocorreram há muito tempo.

No entanto, os pesquisadores sugerem que suas descobertas são suficientes para mostrar ligações entre ter uma experiência mística ou religiosa com uma experiência com drogas psicodélicas e essa experiência se tornar positiva a longo prazo – e isso dá aos profissionais médicos algo com que trabalhar em tratamentos futuros também.

“Fornecer um ambiente que conduza a tais experiências, sejam descritas como místicas, como insights ou como descobertas emocionais, também pode ser benéfico em aplicações clínicas de psicodélicos”, dizem os pesquisadores em seu artigo publicado.

A pesquisa foi publicada no Journal of Psychoactive Drugs.