Cientistas encontram as evidências mais antigas de atividade humana em uma caverna no deserto

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(Créditos: Michael Chazan/Universidade Hebraica de Jerusalém)

Traduzido por Julio Batista
Original de David Nield para o ScienceAlert

O sítio arqueológico da Caverna Wonderwerk na África do Sul é um dos poucos lugares na Terra onde a atividade humana pode ser rastreada continuamente por milênios, e os cientistas acabaram de estabelecer a evidência mais antiga de habitação humana arcaica na caverna: cerca de 1,8 milhão de anos atrás.

Isso se baseia em uma análise de camadas sedimentares contendo ossos de animais, restos de fogueiras em chamas e ferramentas de pedra Olduvaienses: objetos feitos de rochas simples com pedras lascadas para afiá-los, representando o que já foi um avanço significativo na tecnologia de ferramentas.

Embora ferramentas em outros sítios tenham sido datadas de 3,3 milhões de anos atrás, as novas descobertas são agora consideradas os primeiros sinais de vida humana pré-histórica contínua dentro de uma caverna – com o uso de fogo e ferramentas em um local fixo dentro de um abrigo.

A caverna Wonderwerk do deserto do Kalahari. (Créditos: Michael Chazan/Universidade Hebraica de Jerusalém)

“Agora podemos dizer com confiança que nossos ancestrais humanos estavam fazendo ferramentas de pedra Olduvaienses simples dentro da Caverna Wonderwerk há 1,8 milhão de anos”, disse o geólogo Ron Shaar, da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel.

“Wonderwerk é único entre os sítios antigos Olduvaienses, um tipo de ferramenta encontrada pela primeira vez há 2,6 milhões de anos na África Oriental, precisamente porque é uma caverna e não uma ocorrência ao ar livre.”

Embora evidências antigas de incêndios florestais e incêndios humanos possam se misturar em sítios ao ar livre, esse não é o caso na Caverna Wonderwerk. Além do mais, outros indicadores de humanos fazendo fogo foram encontrados: ossos queimados e cinzas, por exemplo, assim como as ferramentas.

A amostra de sedimento examinada no novo estudo tinha 2,5 metros de espessura, mapeando a atividade dos hominídeos na caverna ao longo do tempo. As camadas eram datadas de duas maneiras, primeiro por meio do paleomagnetismo, examinando o sinal magnético das partículas de argila que entraram na caverna.

Esses sinais, presos no tempo, mostram a direção do campo magnético da Terra na história. Como a variação e inversão desse campo ao longo dos séculos podem ser mapeadas, os cientistas podem datar as partículas de argila e tudo o que foi depositado com elas.

Em segundo lugar, os pesquisadores usaram a datação de sepultamento, uma análise do decaimento radioativo das partículas à medida que elas saem do brilho da radiação cósmica e ficam enterradas no subsolo ou, neste caso, dentro de uma caverna.

Dentro da Caverna Wonderwerk. (Créditos: Michael Chazan/Universidade Hebraica de Jerusalém)

“Partículas de quartzo na areia têm um relógio geológico embutido que começa a funcionar quando elas entram em uma caverna”, disse o geólogo Ari Matmon, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

“Em nosso laboratório, podemos medir as concentrações de isótopos específicos nessas partículas e deduzir quanto tempo se passou desde que os grãos de areia entraram na caverna.”

Além de registrar o uso de ferramentas Olduvaienses desde 1,8 milhão de anos atrás, a equipe também identificou a transição para machados de mão mais complexos (mais de 1 milhão de anos atrás) e o primeiro uso deliberado de fogo (cerca de 1 milhão de anos atrás).

Embora descobertas empolgantes continuem a ser feitas em todo o mundo, poucos lugares oferecem um registro tão consistente de idas e vindas humanas antigas como as camadas de sedimentos dentro da Caverna Wonderwerk – como mostra o novo estudo.

“As idades precisas dos sedimentos Wonderwerk são cruciais para nossa compreensão do momento de eventos críticos na evolução biológica e cultural dos hominídeos na região”, escrevem os pesquisadores em seu estudo publicado.

A pesquisa foi publicada na Quaternary Science Review.