Enorme estudo de mais de 1.400 espécies pode mudar nossa compreensão da inteligência

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(Créditos: Shaun Wang/EyeEm/Getty Images)

Traduzido por Julio Batista
Original de Mike McRae para o ScienceAlert

Ao considerar questões de inteligência entre os animais, não é irracional presumir que importa o tamanho. Afinal, corpos maiores permitem cérebros maiores, e cérebros maiores fornecem o terreno potencial para o desenvolvimento de melhores habilidades de resolução de problemas.

No entanto, os neurônios não trabalham de graça, um fato que restringe já de primeira como os sistemas nervosos podem evoluir em tamanho e complexidade. Só porque os crânios se expandem, não significa que a natureza os preencherá automaticamente com massa cinzenta.

Por mais estranho que pareça, sabemos muito pouco sobre as forças evolutivas responsáveis ​​pela diversificação do tamanho do cérebro no reino animal.

Assim, uma equipe internacional de pesquisadores empreendeu um grande estudo sobre o maior conjunto de dados e fósseis existentes já reunidos, medindo os espaços que antes ocupavam os crânios de mais de 1.400 espécies, vivas e extintas.

Comparando as informações sobre o tamanho do corpo com os dados endocranianos, a equipe poderia caçar padrões e sequências consistentes no crescimento em desenvolvimento que empurram um animal degraus acima em testes de inteligência.

Essa busca não foi tão direta como poderíamos ter suposto inicialmente.

“À primeira vista, a importância de levar em conta a trajetória evolutiva do tamanho do corpo pode parecer algo não importante”, disse o biólogo evoluivo Jeroen Smaers, da Universidade Stony Brook (EUA).

“Afinal, muitos dos mamíferos de cérebro grande, como elefantes, golfinhos e grandes primatas, também têm um grande tamanho do cérebro em relação ao corpo. Mas nem sempre é esse o caso.”

Um animal que foge dessa tendência é o leão-marinho-da-califórnia (Zalophus californianus).

Esses grandões marinhos podem crescer mais de 2 metros de comprimento e pesar cerca de 100 kg, colocando-os quase na mesma estatura média de um ser humano adulto. No entanto, o tamanho do seu cérebro é mais parecido com o de um chimpanzé.

Isso nem de longe os torna estúpidos. Muito pelo contrário, os leões-marinhos aprendem rapidamente e podem se adaptar cognitivamente às interações humanas com facilidade.

Os ursos polares (Ursus maritimus), por outro lado, têm uma massa corporal média relativamente semelhante, com um cérebro duas vezes maior que o do leão-marinho. Embora ninguém ainda tenha ousado desafiar um desses predadores vorazes para uma rodada no Quem Quer Ser um Milionário?, provavelmente é justo julgar a uma distância segura que eles não são duas vezes mais espertos que os nossos outros amigos marinhos mencionados.

Na verdade, olhando de uma perspectiva neuroanatômica, os leões-marinhos têm 3,6 vezes mais volume dedicado à sua inteligência, em relação às funções autonômicas e sensoriais básicas.

Se os leões-marinhos-da-califórnia são tão grandes quanto os humanos, por que também não são tão espertos quanto nós? Simplificando, a evolução simplesmente apostou na construção de um corpo maior e deixou um cérebro um pouco menor para se contentar com a energia que lhe restava.

“Nós derrubamos um dogma de longa data de que o tamanho relativo do cérebro pode ser confundido com inteligência”, disse o biólogo Kamran Safi, um cientista pesquisador do Instituto Max Planck de Comportamento Animal.

“Às vezes, cérebros relativamente grandes podem ser o resultado final de uma redução gradual no tamanho do corpo para se adequar a um novo habitat ou maneira de se locomover – em outras palavras, nada a ver com inteligência.”

Comparar os tamanhos do cérebro e do resto do corpo preservado no registro fóssil também permitiu à equipe obter perspectivas sobre as mudanças históricas em um cenário ecológico em constante variação.

Após o impacto que extinguiu os dinossauros e encerrou o Cretáceo, um bando de pequenos mamíferos, como ratos, musaranhos e morcegos, experimentou mudanças significativas em sua escala cérebro-corpo – à medida que cresciam, o mesmo acontecia com seus cérebros.

Da mesma forma, com o esfriamento do clima no Paleogeno Superior 30 milhões de anos depois, os mamíferos, incluindo focas, ursos e nossos próprios ancestrais, aproveitaram nichos vazios para abastecer suas energias e aumentar a massa corporal e o tamanho do cérebro.

“Uma grande surpresa foi que grande parte da variação no tamanho relativo do cérebro dos mamíferos que vivem hoje pode ser explicada pelas mudanças que suas linhagens ancestrais sofreram após esses eventos cataclísmicos”, disse Smaers.

Nada disso quer dizer que as generalizações sobre cérebros maiores e aumento da capacidade cognitiva são completamente absurdas. É uma regra de ouro justa.

Mas mesmo nossas próprias máquinas poderosas de massa cinzenta floresceram em tamanho e complexidade durante um período longo o suficiente para tornar improvável que qualquer fator mental estivesse impulsionando seu crescimento. Entre os indivíduos, maior não significa necessariamente mais inteligente também.

Quando se trata da inteligência de outros animais, o tamanho é apenas uma coisa que importa. Exceto, é claro, quando isso não acontece.

Esta pesquisa foi publicada na Science Advances.