Cigarros eletrônicos fazem mal a adolescentes. Com nicotina é ainda pior, diz pesquisadora

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Créditos: Sestovic / iStock.

Por Sarah Allen
Publicado na Science

Adeus algodão doce, medley de frutas e crème brûlée. Os sabores tentadores que podem ter ajudado a impulsionar o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre os adolescentes poderão desaparecer nos Estados Unidos. As empresas que fabricam líquidos para cigarro eletrônicos (vape) devem agora cumprir uma legislação da Food and Drug Administration dos EUA divulgada no mês passado proibindo líquidos para cigarros eletrônicos com sabor, exceto de tabaco ou mentol.

Mas o uso de cigarros eletrônico ainda oferece algo altamente atraente e viciante: nicotina. E os pesquisadores estão apenas começando a estudar o impacto a longo prazo da droga no cérebro em desenvolvimento.

Na sexta-feira, na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, Marina Picciotto, neurocientista da Universidade de Yale, descreveu algumas de suas primeiras descobertas, principalmente em animais. Como o uso de cigarros eletrônicos ganhou popularidade principalmente na última década, “ainda não sabemos quais serão as consequências para a ingestão a longo prazo de líquidos ou da nicotina nos cigarros eletrônicos”, disse ela. Mas pistas estão surgindo.

Uma coisa é bem conhecida entre os fumantes adultos: a nicotina é altamente viciante. Alguns cartuchos de líquido para cigarros eletrônicos podem conter tanta nicotina quanto um maço de cigarros. A nicotina “pega as coisas que você mais gosta e faz você gostar mais delas”, disse Picciotto. Para os adolescentes, o uso de cigarros eletrônicos é em grande parte popularizada pelos sabores, e essas associações tornam a nicotina mais agradável e mais desejável. “A nicotina aumenta os efeitos gratificantes dos sabores ou de outros estímulos ligeiramente prazerosos”, disse ela. Para os adolescentes, a nicotina, então, poderia aumentar os estímulos prazerosos de uma música ou de uma experiência sexual – consolidando a ligação entre nicotina e prazer.

Até agora, Picciotto pesquisou os efeitos a longo prazo da exposição à nicotina no desenvolvimento de cérebros em ratos. Esta pesquisa mostrou que camundongos adolescentes expostos à nicotina tiveram alterações estruturais em suas células cerebrais, modificando a forma como as informações são enviadas por todo o cérebro. Esses camundongos expostos à nicotina foram mais sensíveis ao estresse e responderam a estímulos muito baixos que não incomodaram outros ratos “sóbrios”. Por exemplo, os ratos que receberam um choque elétrico fraco no pé reagiram, enquanto os ratos não expostos a nicotina nem perceberam o choque. Em um estudo em humanos, Picciotto observou comportamentos semelhantes, onde as crianças que foram expostas à nicotina antes do nascimento eram mais propensas a ter uma reação emocional excessiva ao estresse.

Picciotto disse que essas descobertas sugerem que o desenvolvimento de adolescentes expostos à nicotina pode provocar alterações no cérebro que afetam negativamente o comportamento ao longo da vida. Ainda assim, segundo ela, seriam necessárias mais pesquisas para entender uma complexa relação entre problemas comportamentais na idade adulta e a exposição à nicotina.

Mas a nicotina não é o único ingrediente prejudicial para os cigarros eletrônicos. A maioria das 64 mortes e quase 3000 hospitalizações relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos registradas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA são provavelmente devidas a cigarros eletrônicos personalizados e distribuídos ilegalmente que usam uma forma de óleo de vitamina E. O óleo de vitamina E é composto de gorduras, e Picciotto lembra que gorduras são conhecidas por inflamar os pulmões. Isso explicaria de forma explícita as doenças pulmonares que estão hospitalizando pessoas que fumam cigarros eletrônicos. Mas mesmo os líquidos comerciais usam ​​ingredientes como o glicol polietileno que Picciotto lembra que também danifica os pulmões. “Saber o que está dentro do líquido do cigarro eletrônico é muito importante”, disse ela.

Picciotto acredita que as empresas que estão vendendo os cigarros eletrônicos devem incluir uma lista completa dos ingredientes – com as porcentagens destes – em todas as embalagens. “Temos rotulagem de todos os alimentos que recebemos no supermercado”, disse Picciotto. “Por que não rotular também todos os componentes do líquido para o cigarro eletrônico?”

Ela também é um favor de campanhas de saúde pública que identificam claramente os riscos de uso de cigarros eletrônicos, incluindo sobre como a nicotina afeta os adolescentes. Picciotto reconhece que, para fumantes adultos, alterar para o uso de cigarros eletrônicos pode ser benéfico. Mas ninguém que faz uso de cigarros eletrônicos, principalmente adolescentes, deve acreditar que “eles estão inalando vapor inofensivo”.