Crânio controverso de 7 milhões de anos pode não ter sido tão humano quanto pensávamos

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Um molde do crânio fossilizado de Toumai. Crédito: Didier Descouens.

Por Tessa Koumoundouros
Publicado na ScienceAlert

A questão de saber se um primata de 7 milhões de anos, apelidado de ‘Toumaï’, andava sobre duas ou quatro patas gerou um debate entre os paleontólogos – com um fêmur desaparecido para piorar a situação.

Desde a descoberta do primeiro fóssil de Sahelanthropus tchadensis em 2001, ele tem sido frequentemente citado como nosso mais antigo ancestral hominídeo conhecido. A análise inicial sugeriu que o Sahelanthropus andava ereto regularmente e tinha uma combinação de características de macacos atuais e humanos.

Essas conclusões, no entanto, foram baseadas em um único crânio.

O crânio tem características anatômicas que potencialmente indicam que este primata tinha uma coluna ereta e, portanto, passava parte de seu tempo caminhando apenas sobre duas pernas. Seus dentes pequenos também parecem mais humanos do que de macaco. Uma reconstrução posterior corroborou com esses achados.

Mas outros pesquisadores argumentaram que isso por si só não é evidência suficiente para classificar o Sahelanthropus como um hominídeo bípede – um primata diretamente ancestral dos humanos – em vez de um hominídeo aparentado, mas não diretamente ancestral.

Na mesma época e no mesmo local onde o crânio foi encontrado, em Toros-Menalla, no Chade, um fêmur esquerdo parcial também foi recuperado. O fêmur desapareceu depois que outro pesquisador começou a examiná-lo em 2004, tendo-o encontrado supostamente por acaso.

Aude Bergeret-Medina e seu supervisor, o paleoantropólogo Roberto Macchiarelli da Universidade de Poitiers, na França, continuaram suas análises com base em medições e fotos. Eles acabam de publicar suas descobertas, que levantam dúvidas sobre o lugar do Sahelanthropus em nossa árvore genealógica.

“Com base em nossas análises, o fêmur parcial carece de qualquer característica consistente com episódios regulares de percursos bípedes terrestres”, escrevem Macchiarelli e a equipe em seu artigo.

“Assim, se houver evidências convincentes de que S. tchadensis é um hominídeo antepassado, então o bipedalismo não pode mais ser visto como um requisito para inclusão no clado de hominídeo”.

Outro artigo que ainda aguarda revisão por pares de um dos autores dos estudos originais do Sahelanthropus contesta isso, alegando que o fêmur tem uma crista superior rígida que sustenta uma postura ereta.

Enquanto isso, outro paleontólogo, Martin Pickford, do Museu Nacional de História Natural da França, se pergunta se o fêmur pertence a Toumaï, ou pelo menos a outro Sahelanthropus.

Ainda assim, outros concordam com a avaliação de Macchiarelli sobre o fêmur.

“Eu vi as imagens 10 ou 12 anos atrás, e ficou claro para mim que é mais parecido com um chimpanzé do que para qualquer outro hominídeo”, disse a paleontóloga da Universidade de Tübinge Madelaine Böhme, que não estava envolvida em qualquer um dos estudos, a New Scientist.

A análise das diferenças moleculares em nosso DNA sugere que os humanos se separaram dos chimpanzés e bonobos (nossos parentes vivos mais próximos), cerca de 6 a 8 milhões de anos atrás. A única outra evidência fóssil de um possível hominídeo daquela época é o Orrorin tugenensis.

Macchiarelli e a equipe compararam o fêmur com um de O. tugenensis e determinaram que há pelo menos diferença no nível de espécie entre eles.

Depois de compará-los com Australopithecus, gorilas e humanos modernos, eles acreditam que essas diferenças sugerem que o modo de locomoção das duas espécies mais antigas também era diferente.

Eles suspeitam que o Sahelanthropus pode ser um parente ancestral sem descendentes vivos remanescentes – uma linhagem de primatas que foi extinta.

Eles também apontam que outros pesquisadores sugeriram que os pequenos dentes encontrados no estudo original poderiam apenas indicar que o primata é uma fêmea. Mas a equipe concorda que, no entanto, questões fascinantes permanecem, particularmente em torno das limites que usamos para definir o que exatamente torna um primata um ser humano, citando um artigo de 2017 em sua conclusão:

“Exatamente onde na África, e sob quais circunstâncias, a demarcação homem-macaco começou, e quando, como e porquê a fronteira homem-macaco se tornou irrevogavelmente estabelecida, são desafios de pesquisa importantes que ainda não foram resolvidos”.

Precisaremos de muito mais fósseis antes de sabermos as respostas.

Esta pesquisa foi publicada no Journal of Human Evolution.