Cultura científica e políticas científicas

Marcha Pela Ciência em São Paulo, Brasil. Créditos: Felipe Rau / Estadão Conteúdo.

Por Miguel Ángel Quintanilla

O que significa ser cientificamente educado? A maioria de nós responderia que uma pessoa é cientificamente mais educada na medida em que sua cultura, isto é, seu conhecimento, regras de comportamento, atitudes e valores, são muito semelhantes, ou mesmo formam parte da cultura que um cientista profissional deve ter para ser conhecido como tal. Na aparência, a questão não pode ser mais simples. Há dois tipos de pessoas: educadas e não educadas. E entre as educadas, por sua vez, há dois tipos também: as que compartilham e as que não compartilham uma parte importante da cultura profissional dos cientistas (incluindo, entre eles, os professores e professoras de ciências e os profissionais que desempenham trabalhos com base no conhecimento científico, como na medicina, na engenharia, na arquitetura, etc.).

A questão é por que essas distinções sutis entre tipos de culturas e relações entre culturas profissionais e cultura cidadã têm algum interesse para o público em geral?

Muito anos atrás (em 1972), a National Science Foundation começou a analisar nos Estados Unidos a extensão da cultura científica entre os cidadãos, com base no pressuposto anterior de que o nível de apoio dos cidadão à políticas voltadas ao avanço da ciência e a tecnologia no país dependia do nível de cultura científica dos próprios cidadãos.

Ao longo dos anos, esse interesse em conhecer o estado da cultura científica dos cidadãos foi mantido e se espalhou por todo o mundo. Na Europa, através dos eurobarómetros. Na Espanha, principalmente através das pesquisas da Fundação Espanhola de Ciência e Tecnologia (FECYT), que são realizadas a cada dois anos.

Como resultado de toda essa atividade, alguns dados impressionantes apareceram. O primeiro que devemos enfatizar é que o próprio conceito de cultura científica tem sido mais problemático e confuso do que se suponha. Quando esses estudos começaram, assumiu-se que “cultura científica” era sinônimo de “alfabetização científica”: um cidadão era mais educado cientificamente na medida em que compartilhava mais conhecimentos de cientistas profissionais. (Certamente porque foi assumido que o nível de conhecimento científico estava inseparavelmente ligado ao nível de atitude positiva em relação à ciência.)

Na prática, porém, observa-se que a cultura científica possui, pelo menos, dois componentes independentes: alfabetização científica, ou seja, o nível de conhecimento que as pessoas compartilham com cientistas profissionais e a atitude valorativa, positiva ou negativa, de confiança ou desconfiança, que adotam os cidadãos em relação ao conhecimento e às atividades científicas. E o que tem sido sistematicamente confirmado há anos é que, de maneira bastante generalizada, os níveis de apoio a decisões políticas que afetam a ciência (financiamento da pesquisa básica, por exemplo) dependem mais desse componente de atitude positiva em relação à ciência do que do nível de alfabetização científica estritamente dito.

As novas políticas da ciência exigirão maior envolvimento dos cidadãos. Isso significa que eles terão que melhorar o nível de sua cultura científica. Mas se os dados que temos continuarem sendo confirmados, medidas políticas específicas deverão ser adotadas, orientadas não apenas à difusão do conhecimento científico na população, mas também ao crescimento da confiança na ciência, à promoção de atitude positivas em relação à ciência, ou seja, o crescimento da cultura científica em um sentido amplo.

Esta é, pelo menos, a linha na qual trabalha um grupo de pesquisadores – filósofos, sociólogos, economistas, comunicadores, politólogos e historiadores – no Instituto de Estudos da Ciência e da Tecnologia (ECYT) da Universidade de Salamanca.

CONTINUAR LENDO