Cupping baseado em evidências: vamos com calma

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Com a chegada dos jogos olímpicos Rio 2016, muitos atletas buscam por recursos capazes de otimizar o desempenho esportivo antes e durante as competições oficiais. Depois do recente caso de doping na equipe russa, que foi sancionado pelo governo e desqualificou cerca de um terço dos atletas inscritos para o evento(1),(2), muitos atletas tornaram-se ainda mais cautelosos em relação ao risco de utilizar qualquer terapia ou recurso ergogênico que possa ser considerado doping pela Agência Antidoping dos Estados Unidos (USADA) e o Comitê Olímpico Internacional (COI). A agência antidoping, em 2016, apresentou uma lista com mais de 300 substâncias e métodos proibidos(3) em eventos esportivos oficiais. Dessa forma, a busca por procedimentos alternativos, em especial o cupping, foi ressuscitada por competidores de diversas delegações.

Cupping é um procedimento terapêutico tradicional incluído na lista dos métodos em medicina alternativa e complementar. A terapia consiste na utilização de copos de vidro arredondados que possuem uma abertura circular em uma das extremidades. Com o auxílio de fogo, o copo causa sucção sobre partes doloridas do corpo e, segundo alegações tradicionais, restaura o fluxo de “Qi (氣qì)” no local afetado. Relatos do uso de cupping são encontrados nos papiros Ebers, um tratado médico escrito no Egito, que está entre os mais antigos do mundo e remonta a mais de 3500 anos atrás. Na Grécia, há cerca de 2400 anos, existem relatos de Heródoto e Hipócrates prescrevendo o método. Além disso, cupping é oficialmente utilizado no sistema médico chinês por aproximadamente 2000 anos(4).

Uma recente avaliação das evidências para a utilização de cupping reporta que o método pode ser efetivo em casos de dor lombar, neuralgia pós-herpética, acne e paralisia facial. Autores destacam, entretanto, que a baixa qualidade dos estudos clínicos e a necessidade de validação da eficácia terapêutica impedem conclusões explícitas sobre a técnica(5). A sociedade britânica de cupping, referência no método, declara promover o uso da terapia apenas quando sua indicação é baseada em evidência. Apesar disso, seu website não apresenta trabalhos de revisão(6) ou pesquisas originais(7) que sedimentem as referidas evidências. Ademais, sua página “O que é terapia cupping baseada em evidência?” (tradução livre), não possui conteúdo(8).

Existe, entretanto, um farto número de estudos clínicos investigando a efetividade dos métodos de cupping. Após breve pesquisa pelo termo “Cupping Therapy” na maior base de dados da literatura médica mundial (i.e. PubMed), são encontrados um total de 645 trabalhos, publicados desde a década de 50, se referindo à utilização de cupping nos mais diversos acometimentos(9). Apesar das centenas de publicações, são raros os estudos apresentando evidências quantitativas e efeitos clínicos observáveis. Um exemplo é o estudo de Kucharzewski e colaboradores (2014), que utilizou a terapia de cupping para o tratamento de 15 pacientes com úlceras extensas nos membros inferiores. Além de ausência de dados quantitativos claros sobre a alteração no tamanho da área ulcerada e índices inflamatórios, os pacientes foram paralelamente medicados e não houve grupo controle(10).

Revisões recentes da literatura destacam que, apesar de existir “alguma evidência sugestiva” (tradução livre), estudos clínicos com métodos de cupping são de “baixíssima qualidade metodológica” (tradução livre), e trabalhos adicionais se fazem necessários para que resultados objetivos sejam coletados(11),(12). Além disso, diversos estudos têm reportado efeitos colaterais e riscos associados ao cupping. Chen e colaboradores (2015), após compilar diversos estudos clínicos e relatos de caso, reportam anemia, paniculite, infecção por herpes-vírus, abscesso lombar, hiperpigmentação pós-inflamatória, queloides, abscesso epidural e derrame hemorrágico(13). Também foram observados casos de lesão ulcerativa em pacientes eczematosos tradados com acupuntura e cupping(14).

Terapias tradicionais são recursos valiosos para a ciência médica moderna. Plantas com propriedades medicinais, técnicas de relaxamento, meditação e massoterapia podem, até certo ponto, auxiliar no tratamento de pacientes com pequenos acometimentos, evitando a utilização excessiva de medicação alopática e prevenindo a progressão de doenças crônicas. É necessário, entretanto, que estes recursos se submetam ao rigoroso crivo da ciência, apresentando evidências repetidamente observadas por grupos independentes, sem vieses de opinião ou conflitos de interesses. Até lá, vamos com calma.

Referências:

  1. The New York Times. Olympic Officials Set Russia’s Roster; More Than 100 Are Barred for Doping. Disponível em: http://www.nytimes.com/2016/08/05/sports/olympics/rio-russians-barred-doping.html Acesso em: 09/08/2016.
  2. El País. Putin recebe a equipe olímpica russa depois do escândalo de doping. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/27/deportes/1469619588_343582.html Acesso em: 09/08/2016.
  3. S. Anti-Doping Agency (USADA). World Anti-doping code, international standard: prohibited list, January 2016. Disponível em: http://www.usada.org/wp-content/uploads/wada-2016-prohibited-list-en.pdf Acesso em: 09/08/2016.
  4. Mehtaa P and Dhapteb V. Cupping therapy: A prudent remedy for a plethora of medical ailments. J Tradit Complement Med. 2015 Jul; 5(3): 127–134. doi: http://dx.doi.org/10.1016%2Fj.jtcme.2014.11.036.
  5. Cao H, Han M, Zhu X and Liu J. An overview of systematic reviews of clinical evidence for cupping therapy. Journal of Traditional Chinese Medical Sciences (2015) 2, 3-10. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.jtcms.2014.11.012.
  6. British Cupping Society. Latest reviews. Disponível em: http://www.britishcuppingsociety.org/?portfolio=latest-reviews Acesso em: 09/08/2016.
  7. British Cupping Society. Latest researches. Disponível em: http://www.britishcuppingsociety.org/?portfolio=latest-researches Acesso em: 09/08/2016.
  8. British Cupping Society. What is Evidenced Based Cupping Therapy? Disponível em: http://www.britishcuppingsociety.org/?portfolio=what-is-evidenced-based-cupping-therapy Acesso em: 09/08/2016.
  9. Search: “Cupping Therapy”. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Cupping+Therapy Acesso em: 09/08/2016.
  10. Kucharzewski M, et al. The Application of Negative Pressure Wound Therapy in the Treatment of Chronic Venous Leg Ulceration: Authors Experience. BioMed Research International Volume 2014, Article ID 297230, 5 pages. doi: http://dx.doi.org/10.1155/2014/297230.
  11. Kim J, et al. Cupping for Treating Pain: A Systematic Review. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine Volume 2011, Article ID 467014, 7 pages. doi: http://dx.doi.org/10.1093%2Fecam%2Fnep035.
  12. Cao H, Li X, Liu J. An Updated Review of the Efficacy of Cupping Therapy. PLoS ONE February 2012, Volume 7, Issue 2, e3179. doi: http://dx.doi.org/10.1371%2Fjournal.pone.0031793.
  13. Chen B, et al. Alternative medicine: an update on cupping therapy. Q J Med 2015; 108:523–525. doi: http://dx.doi.org/10.1093/qjmed/hcu227.
  14. Hon KLE, et al. Cupping Therapy May be Harmful for Eczema: A PubMed Search. Case Reports in Pediatrics Volume 2013, Article ID 605829, 3 pages. doi: http://dx.doi.org/10.1155/2013/605829.
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Licenciado em Ciências Biológicas --- Bacharel em Nutrição --- Especialista em Fitoterapia --- Mestre e Doutorando em Ciências Biológicas (Biofísica), Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa de pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, 2015-2016) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 2016-) --- Membro da Biochemical Society (LONDON/UK) desde 2014 --- Fundador e ex-Diretor Científico da Liga Acadêmica de Nutrição Esportiva, Escola de Nutrição, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (LANES-UNIRIO) --- Conselheiro da Liga Acadêmica de Nutrição Clínica, Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (LANC-UNIRIO) --- Autor dos livros Princípios de Bioética (Editora Universo) e Caminho Retrógrado (Editora Saraiva) --- Revisor convidado dos periódicos Current Nutrition & Food Science (Bentham Science Publishers), IMPULSE - Undergraduate Neuroscience Journal (Appalachian State University) e International Research Journal of Medicine and Medical Sciences (NetJournals) --- Editor associado do periódico Food and Nutrition (Lawarence Press) --- Tem experiência docente em Neurofisiologia, Metodologia de Pesquisa Científica, Fisiopatologia Clínica e Nutrição Esportiva --- Interessado em mecanismos farmacológicos de suplementos alimentares, comunicação neuroglial, ação central de antioxidantes, sistema canabinóide, metabolismo de lipídios n-3 e n-6 e comportamento alimentar. (ORCID: 0000-0003-1584-9157 / ResearcherID: M-7198-2015).