DC, índice-h e efeito Carl Sagan

Ontem, publiquei a tradução de um texto que fiz de David Silva Valerio, fundador do blog Skepticom, onde o autor faz uma série de críticas a respeito de alguns cientistas que conseguem ganhar notoriedade, não pelo seu trabalho acadêmico, mas pelo seu trabalho de divulgador da ciência. Apesar de concordar em parte com texto, discordar de outras, como, por exemplo, do crédito atribuído ao trabalho de Richard Dawkins pela memética, que considero uma pseudociência, e não considerar qualquer ideia imune à crítica, decidi aceitar o convite para publicar uma réplica, escrita pelo meu amigo Roberto Takata, ao texto em questão.

Por Roberto Takata

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira resgatou no Universo Racionalista um texto de 2015 de David Silva Valerio no Skepitcom.

A análise questiona a contribuição de quatro proeminentes divulgadores científicos da atualidade com formação científica: Richard Dawkins (zoólogo britânico), Stephen Hawking (físico teórico britânico), Michio Kaku (físico teórico americano) e Neil deGrasse Tyson (astrofísico americano) (na ilustração da versão em português do UR, há ainda o físico britânico Brian Cox, que não é avaliado no texto).

O autor, levando em conta os índices-h dos cientistas-divulgadores, conclui que são cientistas com baixa contribuição real para a geração de conhecimento científico. Gostaria de fazer cinco observações a respeito.

Em primeiro lugar, há que se notar que o índice-h é longe de ser consensual como metodologia válida de avaliar a qualidade dos investigadores. P.e. Barnes (2016) concluiu que a construção do índice-h falha em uma análise de validação. O próprio Hirsch, em co-autoria com Buela-Casal (2014):

“O índice-h pode levar a resultados injustos?

Acredito que possa e, assim, deve ser usado com cuidado. Várias razões foram mencionadas acima. Devemos sempre ter em mente que um índice-h em uma área ou subárea frequentemente não é comparável com índices-h em outras áreas ou subáreas. O índice-h nunca deve ser usado como o único fator de avaliação de uma pesquisa. Há vários pesquisadores ‘típicos’ cujos índices-h fornecem um retrato verdadeiro de sua qualidade e posição em sua área comparados a outros pesquisadores, mas há também vários pesquisadores ‘atípicos’ cujos índices-h fornecem uma imagem distorcida. Por exemplo, alguns cientistas publicam relativamente poucos artigos, mas com a maioria destes de qualidade excepcional. Isso resulta em um índice-h relativamente baixo e um número excepcionalmente alto de citações. Outros cientistas podem ter um índice-h alto porque colaboram com cientistas influentes, não sendo eles mesmo a força criativa na pesquisa. Cientistas que pesquisas temas que são mais ‘quentes’ terão índices-h mais altos mesmo que não sejam necessariamente melhores que outros cientistas que trabalham em questões profundas e escrevem artigos que não têm impacto imediato, mas podem ser mais duradouros. Cientistas que publicam em grandes colaborações terão índices-h maiores do que os que publicam sozinhos ou com poucos co-autores. Cada caso é um caso, por isso, além do índice-h e outros indicadores bibliométricos, é importante considerar a totalidade do cientista, ler seus artigos e considerar sua produção além dos artigos publicados, bem como sua reputação entre seus pares, de modo a obter uma avaliação abrangente.

Índices bibliométricos, como citação de artigos, podem ser armadilhas perigosas na avaliação da qualidade de pesquisadores e pesquisa.

Em segundo lugar, mesmo que o índice-h não seja completamente inútil na avaliação da qualidade da pesquisa e mesmo que seja possível avaliar a qualidade dos divulgadores de ciência como cientistas, esse tipo de avaliação não parece ser muito relevante. Isso porque a dimensão “divulgação científica” é distinta de “produção científica”, como o próprio Valerio reconhece. Por exemplo, pessoas sem formação em áreas científicas, como jornalistas, podem ser excelentes divulgadores de ciências (Paul Zaloom/Beakman; Carl Zimmer, Ed Young, Ibere Thenorio, Reinaldo José Lopes, Claudio Angelo… só pra citar alguns de uma lista longa).

Um terceiro ponto, é que, para a questão da divulgação científica, mais relevante do que avaliar a produção acadêmica dos divulgadores – que não é aplicável a todos como comentado acima -, é avaliar a qualidade da divulgação produzida. As imprecisões e os erros factuais – científicos e históricos – são mencionados apenas de passagem por Valerio.

O autor considera que ‘memes’ e ‘memética’ seriam as maiores contribuições de Dawkins à biologia. Mas o filósofo da ciência Mario Bunge, considera a memética como uma pseudociência. E ele não está sozinho. Não está claro se os memes podem ter herança particulada, condição necessária para poderem ser alvo de evolução por seleção, aparentemente eles podem se misturar indefinidamente. Valerio observa que o biólogo inglês tem chamado mais a atenção por seu proselitismo ateísta do que por contribuições científicas. Mas, mais do que isso, ao forçar a barra associando a aceitação da teoria da evolução à posição ateia, Dawkins prejudica a compreensão e aceitação da teoria evolutiva. Afinal, se forçada a escolher entre Deus e Darwin, a população, em sua maioria, religiosa em países como os EUA e o Brasil, escolhem a fé e rejeitam a evolução.

Em relação a Hawking, Valerio se detém mais na crítica ao trabalho, citando crítica a declarações públicas chamativas especulativas feitas pelo físico e as possíveis consequências que podem ter para a atitude pública em relação às ciências. Uma outra crítica que se pode levantar é em relação à clareza dos textos de divulgação de Hawking – embora devamos dar o devido desconto pelo fato de a área da cosmologia e física teórica ser, normalmente, bastante distantes do público em geral (poucas pessoas têm conhecimentos matemáticos básicos para compreender elementos de topologia, números complexos e cálculo diferencial e integral).

Kaku, como bem observado no texto, apresenta problemas de exageros e imprecisões, como no caso do bóson de Higgs. Podemos também acrescentar o fato de sua adesão à pseudociência da ovniologia não contribuir muito para a credibilidade de sua isenção no trato de temas correlacionados – não se trata aqui nem de uma ciência especulativa do tipo: “e se os avistamentos de naves espaciais alienígenas fossem reais?”, mas, sim, de tentar explicar com a ciência o fenômeno dos avistamentos tomados como reais (ou seja, pretende dar credibilidade à hipótese dos avistamentos serem de naves alienígenas emprestando ares de cientificidade).

Sobre Neil deGrasse Tyson, Valerio coloca links para críticas sobre imprecisões no novo Cosmos, apresentado pelo astrofísico americano. Porém, além disso, Tyson às vezes escorrega no cientificismo extremo, tecendo críticas superficiais à filosofia. O filósofo das ciências Massimo Pigliucci fez uma longa crítica sobre isso.

Há que se notar, em quarto lugar, o chamado “efeito Carl Sagan“. Cientistas podem ser mal-vistos na academia por se dedicarem a atividades de divulgação, mesmo que sua produção acadêmica seja significativa e relevante. Quando, na verdade, na média, cientistas que se engajam na comunicação com o público tendem a apresentar índices de avaliação acadêmica até melhores do que os que não fazem DC (Jensen et al. 2008).

E, por fim, texto de Valerio acerta ao dizer, ao final, que se deve evitar o culto à personalidade de cientistas. Mas, ao ligar isso ao fato de os divulgadores cientistas, e personalidades midiáticas, analisados supostamente terem baixa relevância acadêmica, acaba sugerindo – certamente de modo inadvertido – que, tudo bem idolatrar cientistas que são verdadeiramente grandes geradores de conhecimento científico relevante. James Watson, nobelista e um dos co-descobridores da estrutura do ADN, é justamente um reconhecido pesquisador e destacado biólogo molecular (índice-h 43), mas sua visão em outras áreas: como a inteligência de negros, é mais do que lamentável.

Nenhum autor – cientista ou não – é livre de cometer erros. O importante é se a taxa (e a gravidade) de tais erros é baixa e se o autor está disposto a corrigi-los sempre que devidamente apontados. Isso contribui para sua credibilidade ou a compromete. Outro fator é se permanecem incólumes à tentação de usar sua credibilidade e fama para angariar apoio a suas ideias de estimação (especialmente as que são, na melhor das hipóteses, “fringe science“) – não há erro em fazer especulações, mas elas devem ser bem marcadas e apresentadas com honestidade, e suas fraquezas devidamente apresentadas e destacadas. E isso pouco ou nada tem a ver com índice-h.

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