Debate filosófico entre Karl Popper e Thomas Kuhn

Mario Bunge

Tradução de Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
O texto está presente na autobiografia Between Two Worlds: Memoirs of a Philosopher-Scientist (2016).

Durante a continuação de uma conferência sobre a gravitação, foi celebrada uma grande homenagem a Karl Popper, que havia sido organizada por Irme Lakatos, no Bedford College. A sala de reuniões estava cheia de estrelas, entre elas Gustav Bergmann, Rudolf Carnap, Thomas Kuhn, Willard van Quine, Patrick Suppes e Alfred Tarski. Minha apresentação tratava da diferença entre teorias superficiais – apegadas aos dados – e profundas – que contêm conceitos distantes da experiência – (Bunge, 1968). Ademais, comentei várias apresentações, entre elas a de Abraham Robinson, o pai da análise não-padrão, que havia ressuscitado os infinitesimais.

Durante essa conferência, tiveram lugar dois célebres debates: Carnap vs. Popper e Kuhn vs. Popper. No primeiro, Popper foi representado por seu discípulo David Miller, que cometeu um erro garrafal na teoria das probabilidades. Carnap aproveitou esse erro e, em poucos minutos, destruiu a crítica de Popper à lógica indutiva. Isso aconteceu com Popper por ter compartilhado com essa teoria a suposição de que é permissível atribuir probabilidades às proposições. O pobre Miller colocou o rabo entre as pernas e anos depois levou o ceticismo de Popper a um extremo ridículo. Os cientistas, como Descartes, são céticos moderados ou metodológicos que examinam criticamente as hipóteses uma a uma e se apoiam em outras; não são céticos radicais que duvidam de tudo por igual (Bunge, 2000).

Também houve consenso em que Popper perdeu frente a Kuhn, por admitir sua tese, de que as revoluções científicas são tão radicais e totais que arrasam com o todo anterior. Para piorar a situação, Popper começou dizendo que ele não estava interessado na ciência que Kuhn chamava de “normal”, mas a revolucionária. E pior ainda, tentou agradar Kuhn, chamando-o de Tom, mas ele não engoliu a isca e comportou-se com altivez.

Nenhum historiador sério da ciência tem aceitado a tese de Kuhn e, menos ainda, a conclusão que extraiu Paul Feyerabend, renegado do popperismo: que o radicalmente novo é “incomensurável” (incomparável) com o velho. Uma análise dos conceitos clássico e relativista de massa – o único exemplo que apresentaram Kuhn e Feyerabend – basta para falsear essa hipótese: de fato, ambos os conceitos fazem referência a entes dotados de massa e essa referência comum é possível com a comparação dos valores teóricos com os experimentais, como mostrei em meu trabalho sobre a referência (Bunge, 1974).

Em resumo, também nesse caso Popper falhou por não ser suficientemente radical e, em particular, por aceitar o dogma empirista de que os dados empíricos bastam para avaliar uma teoria, quando, de fato, todos os cientistas sabem que também é preciso que a teoria concorde, ao menos em forma aproximada, com o fundo de conhecimento, que não existia para Kuhn, já que negava que o progresso científico fosse acumulativo.

Não creio que tenha acontecido revoluções científicas totais: em todos os casos de avanço, algum conhecimento foi admitido como certo. Por exemplo, Galileu utilizou a matemática grega e Einstein usou a eletrodinâmica clássica. A ciência avança por retroalimentação positiva: o novo é incorporado ao velho – é, de modo análogo, como os interesses que aumentam com o capital depositado em uma conta poupança. O que ocorre de vez em quando são revoluções parciais, ou seja, que só afetam a uma parte do fundo de conhecimento. Seria impossível recomeçar tudo do zero.

A mulher de Peter Bergmann, bióloga molecular, que havia trabalhado no laboratório de Max Perutz, um dos pioneiros de sua ciência, estava escandalizada pelas intervenções de Popper e de Kuhn. Ela me disse: “Não sabem do que falam. Ambos acreditam que a história da ciência é uma sucessão de triunfos e derrotas de teorias. Não têm ideia acerca da ciência experimental, que a maior parte do tempo tenta estabelecer fatos e não por à prova teorias”.

Ademais, nenhum dos dois personagens em questão havia tido experiência de vida em uma comunidade científica: publicação e avaliação de trabalhos científicos, participação em seminários e congressos científicos, supervisão de estudantes graduados, et cetera. Uma prova de que nem Popper e nem Kuhn tinham um conhecimento íntimo da ciência é que ambos tiveram ideias absurdas sobre ela, como as mencionadas acima de Kuhn e o critério de cientificidade de Popper, isto é, a refutabilidade. Esse critério é demasiado débil, porque leva a admitir disparates como a astrologia e a Rassenkunde nazista. Pior ainda, Popper defendeu uma vez que a biologia evolutiva não era científica e, em conjunto com John C. Eccles, defendeu o dualismo psiconeural, justo quando começava a florescer a neurociência cognitiva, que confirma o monismo.

Referências

  • Bunge, Mario. (1968). “The maturation of Science”, en I. Lakatos y A. Musgrave (comps.), Problems in the Philosophy of Science, Ámsterdam. Holanda, págs. 120-137.
  • Bunge, Mario. (1974). “Treatise on Basic Philosophy”, vol. 1, Sense and Reference, Dordrecht/Boston, Reidel.
  • Bunge, Mario. (2000). “Absolute skepticism equals dogmatism”, Free lnquiry, 24 (4), págs. 34-36.
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