Derrubando o mito dos violinos antigos

A inquestionável superioridade dos violinos italianos dos séculos XVII e XVIII pode, no fim das contas, ser apenas uma lenda.

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Stradivarius "Spanish II", de 1689. (Imagem: Wikimedia)

Os violinos são verdadeiras obras de arte. Instrumentos de cordas friccionadas já existiam há séculos na Índia, na China, no Império Bizantino e em partes do Oriente Médio, mas foi apenas na Itália renascentista que eles chegaram muito próximos à forma como os conhecemos hoje. O violino mais antigo de autoria conhecida foi confeccionado por Andrea Amati em 1533, contudo a chamada Era de Ouro da fabricação de violinos ocorreu entre 1650 e 1800, quando três famílias italianas, Amati, Guarnieri e Stradivari, todas da cidade de Cremona, fabricaram peças consideradas até hoje inigualáveis.

Embora a maioria dos instrumentos desse período tenha se perdido com o tempo, algumas centenas deles estão preservados em museus e coleções particulares, e são vendidos tipicamente por preços na casa dos milhões de dólares. Alguns pertencem a grandes instrumentistas da atualidade e são tocados com frequência nas salas de concerto. Ouvi-los é considerado uma experiência inesquecível.

Antonio Stradivari é o mais célebre dos construtores de violinos cremonenses. (Imagem: Corbis)

Vários estudos já foram realizados para identificar e reproduzir em instrumentos modernos as características desses violinos antigos. Em 2003, dois pesquisadores americanos, um dendrologista (botânico especialista em árvores lenhosas e madeiras) e um climatologista atribuíram [1] a qualidade dos violinos da época ao chamado Mínimo de Maunder, período em que as aparições de manchas solares em observações se tornaram raras e que coincidiu com uma queda significativa nas temperaturas médias registradas na Terra. Segundo o estudo, a queda de temperatura fez com que o abeto da região dos Alpes italianos – fonte de matéria prima dos artesãos – crescesse de forma incomumente mais densa que em qualquer outro período, resultando em melhores propriedades acústicas da madeira. Outros estudos dizem que na verdade o segredo está no verniz, que teria minerais raros ou até mesmo uma camada de cinza de vulcão. Porém, já foi mostrado [2] que vários desses violinos receberam acabamento com materiais simples e facilmente disponíveis a qualquer artesão típico do século XVIII.

O que nos leva à questão: se é tão difícil descobrir de onde vem a superioridade dos violinos antigos, será que não é porque ela existe apenas na nossa mente?

Antigos x Modernos

Não é de hoje que se questiona a existência da superioridade dos instrumentos cremonenses históricos. Um livro do escritor inglês George Dubourg, de 1852, narra [3] a realização de um teste-cego na França, em que um violinista foi orientado a tocar os mesmos trechos de músicas em um Stradivarius original e em um violino recém-construído pelo luthier Georges Chanot diante de uma banca de especialistas. Na ocasião, a banca falhou em identificar qual dos violinos tocava em cada momento.

Em 1977, a rádio BBC organizou um teste cego tendo como convidados os famosos violinistas Isaac Stern e Pinchas Zukerman, além do especialista e negociante de violinos Charles Beare [4]. Os músicos puderam tocar quatro instrumentos diferentes: o Stradivarius “Chaconne” de 1725, um Guarnieri del Gesú de 1739, um Vuillaume de 1846 e um violino inglês moderno de 1976, do luthier Ronald Praill. Após tocarem, ouviram os mesmos instrumentos sendo tocados por um solista profissional oculto atrás de uma divisória. Nenhum dos participantes conseguiu sucesso em mais de metade das tentativas de adivinhar qual era o instrumento tocado em cada ocasião. Dois deles atribuíram ao Stradivarius o som do violino moderno.

Isaac Stern (foto) e outros violinistas famosos falharam em testes cegos. (Imagem: Wikimedia)
Isaac Stern (foto) e outros violinistas famosos falharam em testes cegos. (Imagem: Wikimedia)

Um teste mais recente e de maior abrangência foi publicado em 2014, envolvendo seis violinos antigos e seis modernos, tocados por dez solistas renomados [5]. Dessa vez, além de adivinhar a idade dos instrumentos, a tarefa era avaliá-los com notas de zero a dez em critérios de volume, projeção, tocabilidade, qualidade tonal (timbre), projeção/clareza/articulação e qualidade geral. Também deveriam eleger aqueles que gostariam de levar consigo em uma turnê, se pudessem. Ao fim, os músicos tiveram mais erros que acertos quanto à idade dos violinos e deram notas significativamente maiores aos modernos. Um destes foi escolhido como o preferido de quatro dos avaliadores, deixando em segundo lugar um Stradivarius, com apenas três escolhas.

Mas quais são os princípios norteadores da avaliação de instrumentos por músicos profissionais e por que eles divergem tanto?

Por dentro das avaliações

Em 2012, uma equipe internacional e multidisciplinar de pesquisadores investigou a fundo a forma como violinistas profissionais experientes avaliam os instrumentos [6]. Nesse estudo, oito violinos de diferentes autores, nacionalidades, idades e faixas de preço foram avaliados por vinte instrumentistas profissionais com pelo menos quinze anos de experiência, também de diferentes idades e nacionalidades. O estudo foi dividido em duas fases, ambas consistindo em testes cegos. Na primeira, os violinistas tocaram livremente todos os instrumentos para se familiarizarem com os conjuntos e teceram comentários subjetivos sobre as qualidades de cada um. Na segunda, foram realizadas cinco sessões em que os músicos deviam tocar todos os instrumentos e ordená-los de acordo com sua preferência por eles. A segunda fase foi realizada duas vezes, de forma que cada avaliador realizou dez ordenamentos no total.

Foi dada atenção especial a duas variáveis dessas avaliações: a consistência interna ou intra-individual (correlação entre os diferentes ordenamentos feitos pelo mesmo músico) e a consistência externa ou inter-individual (correlação entre os ordenamentos realizados por músicos diferentes).

Os atributos mais mencionados pelos músicos na primeira fase foram utilizados como guia nas avaliações da segunda fase. Esses atributos foram:

  • A facilidade de tocar o violino: essa qualidade se refere ao esforço necessário para produzir som no instrumento, evitando padrões indesejáveis de ressonância chamados “lobos” e a facilidade em percorrer a extensão do instrumento sem prejuízo no som. Também se refere à acurácia das dimensões e acerto entre as diferentes peças do violino, possibilitando melhor afinação e maior conforto;
  • A qualidade da resposta: esse atributo indica se o violino responde de forma adequada ao maior número de gestos e golpes de arco sem gerar sons indesejados. Relaciona-se com o tempo entre a ação do músico e a resposta sonora do instrumento;
  • A riqueza do som: essa característica está relacionada com a quantidade de harmônicos e sobretons gerados pelo violino. Esses fenômenos são desdobramentos da frequência natural das notas que soam em frequências diferentes gerando um efeito harmônico agradável ao ouvido;
  • O equilíbrio entre as cordas: esse atributo indica se as características dos sons gerados nas diferentes cordas em termos de intensidade e timbre são similares, evitando discrepâncias ao tocar em diferentes cordas;
  • A amplitude dinâmica: essa qualidade é definida pela diferença entre os sons de maior e menor volume que o instrumento é capaz de produzir sem perda de qualidade. Permite que o violino seja capaz de executar tanto trechos de baixa quanto de alta intensidade;
  • A preferência pessoal: autoexplicativa, pode também ser interpretada como a importância dada pelo músico a cada um dos atributos avaliados, resultando em uma avaliação geral de qualidade.

Os resultados dos testes de consistência proveram duas constatações relevantes:

Foi verificada uma alta consistência intra-individual entre as avaliações, ou seja, os violinistas fizeram escolhas similares nas diferentes sessões do experimento. De forma geral, a escolha dos melhores e piores instrumentos pouco se alterou entre uma sessão e outra, mesmo com os testes cegos. Já em relação à consistência inter-individual, os dados foram mais divergentes. A correlação entre as preferências pessoais dos diferentes músicos foi baixa, significando que não houve um padrão significativo que fizesse emergir um consenso sobre quais eram os melhores e quais eram os piores instrumentos. O mesmo ocorreu com todos os atributos analisados.

Entre diversas opções, o violino preferido pelos voluntários foi um alemão de 8 mil dólares. (Imagem: SAITIS et al., 2012)
Entre diversas opções, o preferido pelos músicos foi um violino alemão de 8 mil dólares. (Imagem: SAITIS et al., 2012)

Essas informações mostram que violinistas profissionais experientes fazem avaliações consistentes a respeito dos instrumentos. Entretanto, a grande variabilidade de preferências pessoais impede que surjam naturalmente opiniões dominantes sobre quais violinos têm maior qualidade. Em outras palavras, o histórico de avaliações individuais dos músicos apresenta um padrão significativo a respeito de como as características dos instrumentos são analisadas, mas esse padrão se perde quando juntamos opiniões de músicos diferentes.

Se as características intrínsecas dos instrumentos não são, portanto, capazes de gerar consenso sobre quais são os melhores violinos, por que os instrumentos antigos são tão universalmente reconhecidos como superiores?

A construção da percepção de qualidade

O julgamento que fazemos sobre a qualidade dos objetos depende de uma série de fatores extrínsecos a eles. E algumas das comprovações mais clássicas desse fato vêm de um meio bem distinto da música: o mercado de bebidas.

Durante as décadas de 1970 e 1980, a fabricante de bebidas Pepsi veiculou uma campanha publicitária conhecida como “Desafio Pepsi”. As peças publicitárias consistiam em comerciais de meio minuto mostrando a realização de testes cegos entre o refrigerante e sua maior concorrente, a Coca-Cola. Os testes eram realizados com pessoas de diferentes classes sociais e origens, e sempre a Pepsi saía vencedora. Apesar disso, a Coca-Cola continuava dominando o mercado e sendo a preferida pelos consumidores quando perguntados sobre seus gostos. Essa aparente contradição recebeu a alcunha de “Paradoxo Pepsi”.

Em 2004, pesquisadores do Baylor College of Medicine, no Texas, investigaram [7] esse fenômeno analisando a atividade cerebral de voluntários durante testes de degustação usando a técnica de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI). Verificou-se atividade no córtex pré-frontal ventromedial (CPFVM – parte do córtex envolvida no processo de tomada de decisão) quando as bebidas eram servidas em recipientes sem identificação, impossibilitando o reconhecimento da marca pelo voluntário. Essa atividade cerebral isolada apresentava correlação com a escolha do degustador. Porém, quando as bebidas eram servidas em copos com identificação da marca, diversas outras partes do cérebro como o hipocampo bilateral, o córtex pré-frontal dorsolateral, o tálamo e o córtex visual apresentavam intensa atividade, fazendo com que a correlação entre a atividade do CPFVM e a escolha do voluntário se perdesse. Isso significa que o conhecimento da marca pode afetar fisiologicamente a percepção que temos a respeito de um produto.

Outro exemplo é apresentado em um estudo de 2008 que aplicou a mesma técnica a degustadores de vinho [8]. Voluntários  deram melhores avaliações a vinhos cujas garrafas aparentavam maior sofisticação e refinamento (e, por extensão, maior preço), a despeito de o conteúdo de todas ser idêntico. Também foi verificado aumento da atividade cerebral em áreas específicas do cérebro quando os degustadores entravam em contato com informações que julgavam ser verídicas a respeito das bebidas. Até mesmo crianças são afetadas por esse fenômeno: em 2007, pesquisadores das universidades Johns Hopkins e Stanford verificaram [9] que garotos de três a cinco anos tendem a preferir o sabor de legumes servidos em embalagens com o logotipo da rede de fast-food McDonald’s a legumes similares servidos em embalagens sem símbolos.

Embalagens sofisticadas melhoram a percepção de sabor dos degustadores de vinho. (Imagem: WineFolly
Embalagens sofisticadas melhoram o sabor percebido pelos degustadores de vinho. (Imagem: WineFolly)

Todas essas informações evidenciam que é ingênuo supor que nossa satisfação com produtos seja gerada exclusivamente pelas suas características físicas. Sabores, aromas, sons, cores, todas as nossas preferências no fundo podem ser – e frequentemente são – uma reação quase instintiva a um histórico de interações subjetivas entre o objeto e o observador.

Em relação à preferência pelos violinos históricos aos modernos, emerge como explicação razoável, portanto, o fato de que há uma série de lendas que povoam há séculos o imaginário das pessoas dentro e fora do meio musical, onde esses instrumentos são descritos como de qualidade insuperável. Essa percepção coletiva é passada e reforçada ao longo das gerações, fortalecendo-se como tradição e alterando fortemente as expectativas que as pessoas criam ao ouvi-los. São essas expectativas, e não as características da madeira, do acabamento ou da construção, que tornam maravilhosas nossas experiências com essas obras de arte. A essa altura é importante dizer que o reconhecimento de que violinos modernos podem superar até mesmo os melhores Stradivarius em qualidade não quer dizer que estes tenham menor valor como objetos de arte. Eles continuam (e continuarão) sendo ícones de uma época em que a humanidade passou por grandes revoluções culturais e científicas, em que fizemos ressurgir nossos ideais humanistas e lançamos a base para muitas das conquistas que chegam até nosso tempo.

Referências:

[1] BURKLE, Lloyd; GRISSINO-MAYER, Henri D. Stradivari, violins, tree rings, and the Maunder Minimum: A hypotesis. Dendrochronologia, 21/1, 2003.

[2] ECHARD, Jean-Philippe et al. The nature of the extraordinary finish of Stradivari’s instruments. Angewandte Chemie Int. vol. 49, Ed. 2010.

[3] DUBOURG, George. The violin: Some account of that leading instrument and its most eminent professors from its earliest date to the present time. London: Robert Cocks and Co., 1852.

[4] BBC. Blind listening tests of four violins, 1977.

[5] FRITZ, Claudia et al. Soloist evaluations of six Old Italian and six new violins. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 111, 2014.

[6] SAITIS, Charalampos et al. Perceptual evaluation of violins: A quantitative analysis of preference judgments by experienced players. The Journal of the Acoustical Society of America 132 (6), 2012.

[7] MCCLURE, S.M., LI, J., TOMLIN, D., CYPERT, K.S., MONTAGUE, L.M., MONTAGUE, P.R. Neural correlates of behavioral preference for culturally familiar drinks. Neuron 44, 2004.

[8] PLASSMANN, H.; O’DOHERTY, J.; SHIV, B; RANGEL, A. Marketing actions can modulate neural representations of experienced pleasantness. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 105, 2008.

[9] ROBINSON, Thomas N. et al. Effects of Fast Food Branding on Young Children’s Taste Preferences. Arch. Pediatr. Adolesc. Med, vol. 161, nº 8, 2007.

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