Desafio: Avaliando Empiricamente o Realismo Científico

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(Diagrama da filosofia da ciência, traduzido do original devidamente creditado na imagem.)

O antirrealismo científico nunca foi muito persuasivo. Cultivamos na esfera da Universo Racionalista uma concepção moderada dos resultados da investigação científica, de modo que não estamos vulneráveis a objeções antirrealistas comuns. As limitações epistêmicas da ciência nos são claras: o próximo experimento pode revelar algo que nem sequer sabíamos que não sabíamos, e isto pode revirar nossa visão de mundo. O ápice epistêmico que esperamos é um alto grau de confiança, em proporção à adequação empírica de nossas teorias, e tão falível quanto elas. Objeções antirrealistas contra a infalibilidade da ciência não ganham tração contra a versão moderada do realismo científico nutrida por aqui.

Também, estamos carecas de saber que teorias científicas não nos apresentam a realidade ela mesma, mas tão somente um modelo razoavelmente preciso de alguns de seus aspectos, tal como um mapa modela aspectos de um território. Disto segue que a incompletude de nossas teorias não nos é problemática. Não sabemos como funciona a força gravitacional em escalas quânticas, tampouco como o comportamento altruísta evoluiu, nem como a consciência é gerada por massas neurobiológicas. A existência desses problemas em aberto, por mais fundamentais que sejam, não é ameaçadora: um mapa incompleto pode não nos informar tudo que queremos saber, e pode até nos informar algo de errado, mas ele ainda pode estar na maior parte correto até onde ele vai.

O realismo científico é uma tese cativante em sua versão moderada. Em linhas gerais, a ideia é que as teorias falíveis e incompletas que resultam do processo científico ainda têm altíssima probabilidade de capturar, de modo aproximadamente correto, parte de como a realidade independente da mente humana funciona — e que a história da ciência é uma história de progresso em direção à verdade. Nomeia-se esta posição de realismo científico por ela afirmar a realidade daquilo que é afirmado pelas (melhores) teorias científicas. Nomeia-se esta posição realista de moderada em virtude de seus dois níveis de incerteza: fala-se em alta probabilidade e em aproximação. Se o realismo científico moderado for verdadeiro, então temos boa justificação em acreditar não só naquilo que está imediatamente presente à nossa percepção, como também em toda sorte de entidades não observadas e de mecanismos escondidos que são postulados em nossas melhores teorias, como placas tectônicas, distorções espaçotemporais, e a tese que pequenas criaturas são as principais causadoras de doenças.

O antirrealismo contrasta como desanimador e contraintuitivo. Desta vez a ideia é que, mesmo existindo uma realidade independente de nós, não poderíamos avaliar a probabilidade de nossas teorias serem verdadeiras em sua descrição da realidade, mas apenas avaliar se elas são empiricamente adequadas. O antirrealismo é especialmente ultrajante quando visto a partir de um entendimento aguçado do que é, de fato, “adequação empírica.” Consideremos em detalhe de que tipo de sucesso gozam as teorias centrais das ditas ciências maduras (teorias que chamarei de teorias maduras). Uma teoria é dita madura não somente por (i) prover-nos uma imensa e sofisticada capacidade de previsão e de controle, o que já é surpreendente por si só, como também por (ii) iluminar e explicar fenômenos numerosos, variados, e novos, inclusive fora do âmbito central da teoria (vide o exemplo cosmológico abaixo), e por (iii) ser eminentemente coerente com o resto de nossas teorias maduras.

Neste espírito, por exemplo, a teoria da evolução contemporânea versa sobre uma multidão de mecanismos e eventos históricos que não somente nos permite predizer em qual estrato geológico encontraremos quais fósseis, ou quais padrões serão exibidos por duas populações em evolução paralela, ou até algo sobre a composição genética de espécies relacionadas; e não somente nos permite controlar o desenvolvimento de uma população de bactérias in vitro. Seus mecanismos e dados também iluminam e explicam uma gama incalculável de observações biológicas; notadamente, ela faz grande sentido das numerosas conexões entre as espécies, das idiossincrasias da biologia dos seres vivos, e da própria existência de vida complexa, organizada, e adaptada. O geneticista Theodosius Dobzhansky não estava errado quando intitulou uma de suas palestras “Nada na Biologia Faz Sentido Exceto à Luz da Evolução.” Ademais, a teoria evolutiva contemporânea é elegantemente coerente com nossas teorias maduras de datação, de estratos geológicos, de especiação, de microbiologia, de anatomia comparativa, e tantas outras — o que confere à nossa teoria evolutiva uma série de linhas de evidência independentemente convergentes.

Ainda neste espírito, temos acima outro caso de coerência: a semelhança assombrosa entre os padrões previstos pela teoria quântica de campos no vácuo quântico (contendo apenas campos, desprovido de partículas ordinárias) & os padrões na radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Estes padrões foram previstos por nossa teoria independentemente bem-fundamentada sobre o desenvolvimento jovem do Universo, a famosa teoria do Big Bang, — que nada tem a ver com o momento de “criação”! — como fruto de flutuações em escala quântica nos momentos iniciais do Universo. A expansão rápida das coisas nesta época parece ter magnificado vertiginosamente os efeitos de flutuações que costumeiramente passam despercebidas. A teoria do superpequeno explicando surpreendentemente bem as observações do supergrande! Mais sobre isso pode ser aprendido aqui.

Em virtude destas credenciais impressionantes de teorias maduras, não parece de modo algum difícil fundamentar solidamente o realismo científico. A maneira mais comum de fazer isto, e com a qual sou mais afeito, é argumentar que o realismo parece ser a única tese que não faz da existência de teorias maduras um quase-milagre. (Um evento extremamente improvável mesmo quando levamos em conta o tamanho de nossa “tiragem.” Um planeta apropriado para o surgimento da vida, e o próprio surgimento desta, também são extremamente improváveis por si só; mas contamos com uma tiragem de centenas de bilhões de galáxias, cada uma com dezenas de bilhões de planetas, em que estas coisas podem acontecer. A tiragem de teorias científicas maduras, em contraste, reside na casa das dezenas.) Poderiam múltiplas linhas convergentes de evidência, um nuançado sucesso preditivo, uma detalhada capacidade de controle do mundo, e uma forte coerência com outras teorias também amplamente empiricamente adequadas, ocorrer sem que nossas poucas teorias espelhassem a realidade externa? Seria, de fato, muita sorte.

Dado o argumento acima, o realismo científico parece ser melhor entendido como uma hipótese empírica acerca de teorias científicas. No melhor espírito científico, a hipótese do realismo é oferecida como a «melhor explicação» para o que se observa sobre as teorias científicas maduras: se são maduras, então gozam da incrível adequação empírica mencionada acima, e a melhor explicação para isto é que elas são, provavelmente, aproximadamente verdadeiras até onde vão. O sucesso empírico das ciências é surpreendente, e o realismo científico é uma boa explicação deste sucesso por fazê-lo natural e compreensível.

Sendo assim, temos em mão uma maneira de testar empiricamente esta hipótese. Se quase sempre teorias maduras são ao menos aproximadamente verdadeiras, então isto vale para as teorias maduras que superamos durante o progresso científico. Teorias outrora empiricamente muito bem-sucedidas não podem ser simplesmente falsas, mas falsas qualificadamente: mapas da realidade incompletos e distorcidos em alguns pontos cruciais, mas razoavelmente corretos até onde foram. Somos deixadas com um realismo científico que não é tão moderado assim: dado o argumento do quase-milagre, dificilmente teremos reviravoltas profundas em uma ciência bem-desenvolvida, contrariamente ao que o parágrafo de abertura deste ensaio vos disse.

Em português claro, se nosso realismo científico é oferecido como melhor explicação do sucesso empírico de nossas melhores teorias, então estamos comprometidas com a tese que a ciência em seus estágios maduros (ou seja, em seus estágios empiricamente bem-sucedidos) quase sempre constrói em direção à verdade retilineamente, sem gerar teorias completamente falsas, a não ser por uma ou outra anomalia bizarra. Dizemos então que a ciência converge cumulativamente à verdade. Há outras maneiras de se convergir à verdade. Se entendi bem, Charles Sanders Peirce acreditava que não podemos dizer num dado momento se a ciência provavelmente acertou ou não, já que ela pode cometer inúmeros erros durante sua longa jornada investigativa, mas podemos dizer que no longo-prazo a ciência mesmo assim converge à verdade — só não cumulativamente. Poderíamos chamar o realismo científico de Peirce de realismo não-cumulativo. Meu querido gráfico abaixo ilustra as diferenças.

Considerem os momentos após o século de número 4 acima como estágios maduros de uma ciência. Enquanto o realismo defendido pelo argumento do quase-milagre está comprometido com a convergência cumulativa, e portanto com a alta raridade de erros substanciais após o quarto século, o realismo de Peirce admite que até algo tão bem-sucedido quanto a teoria quântica de campos poderia razoavelmente estar errada: vide as anomalias nos séculos 6 e 7. O custo desta perspectiva de convergência não-cumulativa é enfraquecer a justificação que temos hoje para confiarmos na realidade reportada pela ciência, por admitir maior probabilidade de falsas teorias maduras. (Mais sobre isso adiante.)

Para ilustrar a perspectiva do «modelo cumulativo», que então prontamente avaliarei, a história da física clássica pode ser instrutiva. Mesmo essa teoria sendo falsa, ainda temos que seus modelos matemáticos descrevem adequadamente fenômenos dentro de certos limites. Se os fenômenos em questão são macroscópicos, de baixa velocidade, e se dão em campos gravitacionais pouco intensos, então as previsões clássicas sobre eles serão extraordinariamente precisas e em conformidade com a teoria de Einstein. As previsões clássicas para fenômenos espacialmente e temporalmente macroscópicos podem até mesmo convergir com as previsões da mecânica quântica; mas sobre isto parece haver mais incerteza. Neste sentido, a física clássica foi incorporada como um caso especial das teorias contemporâneas — o que a estabelece como um mapa parcialmente correto da realidade. Isso explica seu sucesso passado, e podemos dizer em primeira vista que isso corrobora a hipótese realista: quando nem sequer sabíamos de quantização e de efeitos relativísticos, já estávamos marchando em direção ao pote de ouro epistêmico!

O que poderia refutar a hipótese empírica do realismo científico? O exato oposto do que foi dito acima. Temos que nos acostumar com a ideia que, se queremos sustentar que P provê suporte para uma dada hipótese, então nos comprometemos que não-P é uma contraevidência para essa mesma hipótese — de modo que o realismo científico pode ser empiricamente refutado. Assim, seria uma evidência contra o realismo científico caso teorias outrora bem-sucedidas empiricamente fossem descartadas por completo. Afinal, o argumento não era que seria quase miraculoso que uma teoria muito bem-sucedida fosse falsa? Uma reviravolta científica radical demais em uma ciência madura implicaria que a teoria madura anterior é totalmente falsa, e teríamos que aceitar que um quase-milagre ocorreu!

Problema: em geral, é preferível abandonar qualquer hipótese do que aceitar um quase-milagre, e isso não é diferente para nossa hipótese da baixa probabilidade de falsas teorias maduras, que serviu de calço para nosso realismo científico moderado, isto é, nossa forte confiança na ciência.

É neste ponto que a historiografia da ciência se faz valer. Há pessoas, como os intelectualmente respeitados Thomas Kuhn e Larry Laudan (não Lev Landau), que escavaram de nossa história casos de reviravolta radical. A física clássica, convenientemente mencionada acima, é um exemplo famoso: apesar de suas fórmulas serem casos especiais de fórmulas contemporâneas, seu quadro de mundo parece estar substancialmente errado. Mesmo considerando a física clássica madura do século XIX, que levava em conta a termodinâmica e o eletromagnetismo de Maxwell, e que possuía concepções mais adequadas, gerais, e claras do que aquelas contidas no Principia de Newton, não muda o fato que a metafísica reportada pela teoria é falida. Perdoem minha ignorância física, mas me parece que, de acordo com as teorias atuais e contrariamente à muito madura Física do século XIX, a velocidade limite do Universo não é infinita, a luz não é apenas corpuscular ou apenas ondulatória, o éter luminífero não parece existir, as dimensões espaciais e a simultaneidade de eventos não são independentes do quadro de referência, e talvez não haja uma distinção fundamental entre energia e massa. Ainda argumentam alguns que, em todas as interpretações viáveis da mecânica quântica, pelo menos uma tese basilar da cosmovisão clássica é rejeitada, — seja a causalidade local, a determinação ontológica, o determinismo causal, a espacialidade tridimensional, ou a ideia que o todo é a soma de suas partes (chamada de reducionismo metafísico). Se trata de um quase-milagre?

O artigo mais famoso sobre casos de reviravolta radical foi publicado em 1981, por Larry Laudan, talhado como refutação do realismo de convergência cumulativa. Nele, Laudan me parece cometer o erro de oferecer como contraexemplo à hipótese realista cumulativa o descarte completo de teorias que não eram, de fato, substancialmente maduras, como a teoria evolutiva lamarckista, a mecânica de Descartes, a astronomia ptolemaica, e a teoria geológica catastrofista de Cuvier. Estas teorias, me parece, estariam à esquerda do século “4” no gráfico acima. Laudan, no entanto, no resto do texto não parece subestimar o grau de adequação empírica que o realismo científico cumulativo visa a explicar. Ele fala sobre adequação empírica como a realização de numerosas previsões corretas e inesperadas, além de explicações iluminadoras sobre fenômenos de tipos variados, sobrevivência a testes controlados e ardilosos e, por fim, convergência entre linhas independentes de evidência. Eu adicionaria à lista a coerência forte com outras teorias altamente bem-sucedidas. O mais fascinante da totalidade de nosso conhecimento são suas amarras internas.

Não é à toa que os critérios para adequação empírica são exigentes: não há nada de surpreendente na falsidade de uma teoria que goza apenas de modesto sucesso preditivo, sem coerência com teorias maduras ou poder explanatório abrangente. A realista científica não tem motivo para se preocupar com isso. Por isso fiquei encucado com os exemplos de teorias imaturas avançados por Laudan; mas posso estar subestimando o grau de sucesso empírico daquelas teorias. De qualquer modo, este mesmo artigo apunhala cruelmente o realismo cumulativo ao martelar o fracasso da física clássica. Complementando os exemplos famosos que mencionei dois parágrafos acima, Laudan adiciona outros mais esotéricos:

É bem-sabido que a mecânica estatística ainda não capturou a irreversibilidade da macrotermodinâmica como um genuíno caso limite. A mecânica contínua clássica ainda não foi reduzida à mecânica quântica [descontínua] nem à relatividade. A teoria de campos contemporânea ainda não replicou a tese clássica de que as leis físicas são invariantes sob reflexão espacial.” (Laudan 1981, p. 41.)

Que uma teoria extraordinariamente empiricamente adequada como esta poderia ter este fim mais ou menos lamentável descarta a tese que apenas por um quase-milagre poderia uma teoria substancialmente falsa lograr rigoroso sucesso empírico. Devo acrescentar que em diversos outros trabalhos casos similares ao da física clássica são estudados. Um amigo físico e um amigo matemático meus fizeram esforços para me instruir sobre ainda outras discrepâncias entre a física clássica e a contemporânea, com moderado sucesso. Parece haver, de fato, casos de grande “descontinuidade” na história da ciência madura — e a defesa do realismo científico cumulativo terá de fazer um trabalho historiográfico para barrar esta conclusão.

Talvez aqui devêssemos, novamente no melhor espírito científico, considerar o realismo cumulativo como uma hipótese empírica devidamente refutada. Teremos de encontrar outro meio de explicar os sucessos e continuidades da ciência, pois o realismo cumulativo, que resulta do argumento do quase-milagre, não admite de descontinuidades gritantes: sendo a teoria anterior outrora madura, ela tem que ser aproximadamente verdadeira. Se até a física clássica conseguiu estar errada, lamentavelmente perdemos força em nosso argumento realista. Podemos então enfraquecer nossa hipótese na direção de um realismo científico “supermoderado,” como o realismo não-cumulativo de Peirce, que ainda é uma boa explicação da maturidade das teorias.

Neguemos então que seja tão improvável assim que uma teoria madura seja falsa — deixemos de falar que “quase sempre” e “com altíssima probabilidade” teorias maduras são verdadeiras, e passemos a dizer um mero “às vezes” e um “com boa probabilidade.” Nos conformemos com a ideia que, no melhor dos casos, só teríamos direito a altíssima confiança em relação a teorias mais maduras do que jamais visto, como a teoria quântica de campos. Mas quanto a teorias tão ou menos empiricamente adequadas do que a física clássica, como nossa sofisticada teoria evolutiva atual (não o próprio fenômeno da evolução, mas o complexo de mecanismos pelo qual cremos que ela se dá), não encontramos meio de justificar tanta confiança. Está lançado o desafio para quem quiser defender um realismo científico otimista como o cumulativo. (No pequeno apêndice abaixo, opcional, desenho uma saída agradável sobre a qual li um pouco, mas que requer um tanto de explicação.)

Há um raciocínio relacionado que ameaça nos lançar para fora até de um realismo supermoderado, fornecendo um desafio interessante mesmo para quem for menos otimista. Refletindo sobre casos históricos e notando a frequência de falsas teorias maduras, podemos motivar indutivamente a expectativa que nossas melhores teorias científicas atuais serão elas próprias abandonadas. Esta seria a famosa (meta)indução pessimista, e por ela temos motivo para acreditar que nossas teorias atuais são simplesmente falsas, e talvez até motivos para duvidar que um dia convergiremos à verdade não-cumulativamente. (Uma resposta seria negar que falsas teorias maduras não são frequentes como parecem ser. “Maturidade,” como defini, é um status elevadíssimo.) Em uma nota relacionada, considere como é comum ouvir de pessoas realistas científicas que a ciência é sua maior crítica, e que um dia nós descartaremos nossas teorias atuais — mas não parece que este espírito da transitoriedade seja compatível com o realismo científico.

Poderíamos inventar um ataque ainda mais virulento às nossas pretensões científicas. Se nossos métodos de inferência, justificação, e avaliação de teorias se provaram incapazes de nos conduzir até a verdade de novo e de novo na história, indutivamente estamos justificadas a acreditar que eles, em geral, nos falham hoje e nos falharão no futuro. Certamente não falharão em produzir teorias empiricamente adequadas e pragmaticamente efetivas, mas isto é diferente de produzir teorias verdadeiras. Quem sabe seria mais apropriado chamar este pessimismo de “meta,” por colocar todas as ideias em dúvida ao aplicar uma indução para duvidar da própria indução e de outros métodos investigativos que possuímos — uma espécie de Aikido mental, usando nosso próprio ataque para nos atacar. Se este metametametametametapessimismo estiver justificado, pode ser que a solução para falsas teorias maduras não é mais ciência; na verdade, pode simplesmente não haver solução, e devemos aceitar com Larry Laudan e outras pessoas antirrealistas, como o formidável Bas van Fraassen, que não podemos ir além daquilo que é imediatamente observável. Sobre a realidade não observável podemos, no melhor dos casos, apenas contar com teorias «empiricamente adequadas» e «pragmaticamente eficazes». Mesmo que esta realidade seja objetiva e seus fatos sejam universais e independentes da mente humana, e mesmo que possamos ao menos saber que ela assim o é, não poderíamos conhecer seus mecanismos escondidos, suas origens longíquas, e suas elusivas unidades fundamentais.

Se ninguém dentre nós conseguir resolver os enigmáticos desafios acima, não devemos ficar muito tristes; neste caso ainda teremos fartos motivos para adotar uma teoria em detrimento de outra, ou para adotá-la ao invés de suspender o juízo. Afinal, algo como a teoria evolutiva é a única teoria bem-sucedida em explicar os fenômenos em seu âmbito de investigação, e está amplamente justificado abandonar visões de mundo incompatíveis com ela. E mesmo enfraquecida a confiança realista, ainda possuímos ótima justificação para agir como se nossas teorias fossem verdadeiras, mesmo que, sentadas no conforto de nossos estudos, venhamos a nutrir dúvidas sobre sua realidade. Isto é pois, em situações de incerteza, pragmaticamente o mais prudente é agir conforme o melhor que nós temos, seja lá o que “melhor” signifique em detalhe. Como mencionado, o próprio Laudan oferece alternativas palatáveis ao realismo nesta linha pragmatista, evitando, por exemplo, qualquer tipo de relativismo. O movimento antivacina e hipóteses teológicas acerca das origens da mente humana, por exemplo, continuam completamente sem chão.

Fico feliz em poder trazer à comunidade da Universo Racionalista, e às subculturas que a orbitam, uma boa dose de crítica interna. Minha própria disposição realista se sofistica quando colocada em combate com refutações do realismo cumulativo e com argumentos como a metaindução pessimista. Sinto-me bem em ter disposição de abrir mão do realismo científico, apesar de não tê-lo feito, especialmente em vista do genuíno investimento emocional que outrora tive com o realismo: não era apenas uma posição que eu assumia por razões intelectuais, mas também pois me parecia politicamente crucial que o realismo fosse verdadeiro, de modo que eu queria muito que assim ele fosse. E foi, não coincidentemente, foi nesta época em que tive mais certeza de minha racionalidade — devemos sempre duvidar de quem se crê terrivelmente racional!

Dicas de Leitura

  1. O Que É Ciência, Afinal? (Alan Chalmers, 1976)
    Além de traduzido para o português, este é possivelmente um dos livros de introdução à filosofia da ciência mais populares que existem por aí. Eu mesmo o estudei no meu primeiro curso de filosofia da ciência. Ele é compacto e claro ao tratar de problemas envolvidos em ideias tão importantes quanto adequação empírica, progresso científico, e a justificação de teorias. Chalmers chega ao ponto de discutir abordagens «bayesianas» de inferência científica e os desafios ao realismo científico propostos pelo infame Paul Feyerabend.

  1. Understanding Philosophy of Science. (James Ladyman, 2001)
    Introdução aclamada, mas de um nível mais alto, à filosofia da ciência de um dos pesquisadores mais instigantes da área. O livro discute em detalhe as possibilidades de fazer sentido do sucesso da ciência sem que suas teorias espelhem a realidade — mas Ladyman continua um realista científico inveterado. Mas não é uma versão do realismo com as quais vocês estão acostumadas.

  1. Science and Relativism: Some Key Controversies in the Philosophy of Science. (Larry Laudan, 1991)
    Este certamente é o livro mais divertido de todos aqui. Ele está organizado como uma série de seis conversas entre quatro personagens: uma positivista lógica, uma realista científica, uma relativista epistêmica, e uma pragmatista moderada como o próprio Laudan. O livro nem sempre é fácil: questões difíceis são discutidas, como a tese de Duhem-Quine, a suposta incomensurabilidade entre teorias, e a distinção entre observação & teoria. Garanto, no entanto, que Laudan te fará peidar de dar risada.

  1. A Confutation of Convergent Realism. (Larry Laudan, 1981)
    Este é o artigo em que Laudan apresenta seu primeiro grande desafio ao realismo científico. A seção 6 do artigo contém ao menos uma dúzia de exemplos de teorias que gozaram de alguma adequação empírica, mas que hoje temos confiança que são completamente falsas. Alguns destes exemplos incluem teorias maduras no sentido exigente que avancei em meu texto.

  1. Belief, Justification, and Knowledge: An Introduction to Epistemology. (Robert Audi, 1988)
    Recomendei este livro no último ensaio que publiquei na Universo Racionalista. Se trata de uma introdução à epistemologia a partir de problemas, ideias, e posições — não uma introdução histórica. Certamente será útil para pensar sobre os problemas filosóficos levantados pela ciência, e é muito popular em cursos de epistemologia mundo afora.

Pequeno Apêndice

No final, continuamos com a mesma pergunta: se Laudan está certo, e teorias maduras frequentemente capturaram e capturam pessimamente a realidade, então como explicar seus sucessos estrondosos? Teorias antirrealistas assumiram esta tarefa e tentaram explicar a adequação empírica de teorias falsas, e há muito ouro a ser garimpado estudando o que mentes brilhantes escreverem nesta empreitada. Não se discute somente teses extravagantes em que a realidade depende de nossa mente ou de nossa cultura, mas também argumentos técnicos sobre a relação de nossa linguagem com o mundo. Argumentos sobre este tema podem ser encontrados no trabalho do emblemático Willard Quine, do formidável Michael Dummett, do flexível Hilary Putnam, do neutro caótico Paul Feyerabend, da desafiadora e instigante Nancy Cartwright, e de muitas outras pessoas.

Mas ainda há quem duvide da possibilidade de explicar a adequação empírica de uma teoria sem falar nada sobre sua verdade, e eu suspeito que quase todas as pessoas lendo estas palavras partilhem desta intuição. Uma perspectiva reconhecivelmente realista que se encarrega de responder ao desafio de Laudan é nomeada realismo estruturalista. O realismo estruturalista formula e defende o realismo científico de maneira diferente das quais avancei no ensaio, e parece ser capaz de explicar a imensa adequação empírica da física clássica apesar da falência de sua ontologia, isto é, da substancial falsidade do quadro de mundo que ela apresenta.

Para entendê-lo, considerem o que não foi rejeitado da teoria clássica. Enquanto sua ontologia de fundo sumiu, — como o espaço absoluto, a matéria nitidamente separada da energia, e o éter, — (discutivelmente) seu modelo matemático permaneceu como caso limite. A estrutura da teoria antiga estava substancialmente correta como descrição de uma fatia da realidade, e ela foi devidamente incorporada na teoria nova. A mecânica clássica foi empiricamente adequada em seu tempo pois foi testada apenas contra fenômenos macroscópicos de baixa energia e velocidade, que possuem justamente a estrutura reportada pela física clássica. O que foi embora da física clássica na revolução científica foi seu conteúdo, seu “preenchimento metafísico,” isto é, a interpretação que fizemos do modelo matemático puramente formal, que por sua vez permaneceu. Está explicado então porque a teoria antiga foi bem-sucedida, e esta explicação envolve falar sobre a verdade estrutural da teoria antiga.

Pode ser então que teorias científicas maduras quase sempre capturam de maneira aproximadamente correta a estrutura básica do fenômeno sendo investigado, mesmo que a ciência seja incapaz de determinar o quê está sendo estruturado. Nesta perspectiva, estamos de volta ao realismo científico moderado, que admite falibilidade e aproximação, e cumulativo, mantendo alta confiaça na verdade de nossas teorias. Só que em uma concepção diferente do quê elas dizem de verdadeiro.

Agradecimentos: Agradeço aos colegas Israel Vilas Bôas, Alexandre Reggiolli, Hélio Steven, Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira, e Alirio Moura, pelos comentários intelectualmente e gramaticalmente úteis!

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