O possível mito do véu da percepção

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Me recordo que Bertrand Russell um dia disse que, estritamente falando, “nunca vemos coisa alguma senão o interior de nossas cabeças.” A ciência da percepção há muito nos mostrou que entre nós e as coisas que acontecem lá fora existem dezenas de estágios de processamento neurológico. A rigor, o que vemos são representações e modelos construídos por nosso cérebro.

Há maneiras fáceis de demonstrar isso. Quando acordo de manhãzinha, executo algumas tarefas pelos cômodos e então tomo banho com a luz apagada, no breu antes do nascer do Sol. Não é incomum que neste processo eu genuinamente veja vultos inexistentes nas sombras — um caso chamado de «percepção inverídica».

Uma pessoa golpeada no córtex visual por uma pancada na nuca literalmente estrelas, devidamente inexistentes. Similarmente, quando apertamos nossos olhos com o dedo, vemos uma imagem duplicada, mesmo que o mundo não se duplique. E quando observamos um cubo de Necker, sabemos que o desenho perante nós é bidimensional, mas não podemos deixar de ver algo tridimensional. Em casos mais extremos, como na síndrome de Charles Bonnet, seres humanos alucinam objetos inteiros, e literalmente veem personagens de desenho animado ou elefantes rosas em seu campo visual. Estes são os casos de engano: alucinações e ilusões de ótica.

Quando não nos enganamos, e o que nos aparenta estar lá fora de fato está, temos percepções verídicas. Os cenários acima parecem mostrar que, mesmo nestes casos, se podemos dizer que percebemos objetos externos, teremos de dizê-lo qualificadamente: os percebemos indiretamente, pelo intermédio de nossas representações. Considere-se o seguinte: (1) sóbrio no zoológico, vejo elefantes normais; (2) alucinado no zoológico, vejo elefantes rosas; (3) no entanto, os elefantes rosas que vejo estão apenas em minha cabeça; (4) logo, por paridade, os elefantes normais que vejo enquanto sóbrio também estão apenas em minha cabeça (mesmo que haja, de fato, elefantes normais à minha frente).

De fato, por que no caso das percepções inverídicas eu veria apenas minhas representações, mas quando a percepção acaba por ser verídica, repentinamente eu veria o objeto lá fora? Não, isto parece arbitrário. Devemos dizer que, em todos os casos, ao invés de ver diretamente o mundo externo, vejo uma espécie de «imagem mental». Há, como se diz, um “véu da percepção” entre nós e aquilo que está lá fora. Esta ideia, chamada de realismo indireto, tem ao menos dois pontos de apoio: a neurociência da percepção & a análise dos casos de percepção inverídica.

É assim que começa a história mais comum do ceticismo. Note que há várias maneiras de motivar o ceticismo; e que é possível evitar o ceticismo mesmo adotando o realismo indireto; e que, finalmente, é possível adotar o ceticismo mesmo não comprando o realismo indireto. Então a coisa é complicada.

Mas veja como o realismo indireto fornece um gancho muito conveniente para a posição cética: se percebo visualmente apenas imagens mentais, então a única maneira pela qual eu poderia saber algo sobre a realidade seria por meio desta imagem mental. Eu teria de fazer alguma inferência sobre o conteúdo desta imagem e concluir algo sobre o mundo real. Só que esta imagem mental pode não ser verídica. Quais inferências poderiam nos garantir que as coisas são, provavelmente, como as percebemos? Como ver através do véu da percepção?

Com este desafio lidaram Descartes, Berkeley, Hume, Kant, e Russell; a passagem das percepções para o conhecimento do mundo foi uma das preocupações centrais da filosofia até o século XX. (Vide o pequeno apêndice a este texto.) Mas é possível que este desafio parta de um erro muito simples de entender: contrariamente ao que foi dito acima, os objetos de nossa percepção (direta) nunca são nossas experiências conscientes ou representações mentais.

Literalmente vemos nossas experiências visuais? — Ou ter uma experiência visual é justamente parte do estado de estar vendo algo?

Considere a seguinte distinção. Quando alucinamos um elefante rosa, é certo que nossa experiência visual tem como conteúdo “um elefante rosa” (ou “a existência de um elefante rosa à minha frente”) — e isto também é verdade quando nossa experiência é verídica e corresponde aos fatos. Este conteúdo, se poderia dizer, determina as condições que se deve satisfazer para que algo seja o genuíno «objeto de percepção» desta experiência consciente. Se estas condições forem satisfeitas, e o mundo for tal como minha experiência representa, então meu objeto de percepção é um estado das coisas no mundo. Em contraste, durante experiências inverídicas meu objeto de percepção é rigorosamente nada, já que coisa nenhuma satisfaz essas condições. O que acontece, ao invés, é que tenho uma experiência que pretende capturar algo do mundo, mas que falha em fazê-lo; neste sentido, nada vejo nem percebo. É uma ilusão que, em casos de ilusão, estejamos vendo nossa experiência visual enganadora.

Se esta ideia que ofereci está certa, então não há como estabelecer a paridade argumentada no «argumento da ilusão» de (1) até (4) acima. Não há paridade entre os objetos de percepção em casos verídicos e inverídicos, e o argumento falha. Isto é porque eu jamais vejo elefantes rosas se eles não existem, senão por um abuso da ambiguidade da palavra “ver.” A distinção acima esclarece esta ambiguidade: no sentido em que “vemos” nossa representação de elefantes rosas, seja no caso verídico seja no inverídico, estamos falando sobre o conteúdo da nossa experiência visual. Neste sentido, quando fecho meus olhos, “vejo” a escuridão. Mas há outro sentido de “ver”, em que jamais vemos elefantes rosas se eles não existem — e este sentido é capturado pelo conceito de objeto de percepção, que é a coisa no mundo que satisfaz as condições impostas pela minha representação mental. Estando clara a possibilidade desta distinção, a motivação por trás do «argumento da ilusão» enfraquece; o argumento deixa de ser intuitivo ou convincente, e o realismo indireto pode não parecer mais uma tese plausível.

Em resumo, há várias maneiras de motivar o ceticismo e de responder a ele; realmente, nem sempre é óbvio que é possível respondê-lo adequadamente: problemas céticos tendem a ser divertidamente desafiadores! — Uma maneira de motivá-lo é defender que percebemos apenas os “dados dos sentidos” em nossas mentes. Aceitando o realismo indireto, torna-se dificultoso (mas não impossível) encontrar boas inferências que começam em nossas representações e desembocam na realidade. Dezenas de pensadores de primeiríssima linha pensaram, como resposta, em toda sorte de inferências que poderiam ser feitas. Uma outra maneira de respondê-lo é dissolvendo o véu da representação, ao dizer que não é verdade que, em momento algum, percebemos nossas representações mentais. Não vemos nem percebemos coisas imaginárias ou alucinadas: ou estamos percebendo algo no mundo diretamente, ou não estamos percebendo coisa alguma.

Dicas de Leitura

  1. Belief, Justification, and Knowledge: An Introduction to Epistemology. (Robert Audi, 1988)
    Uma introdução à epistemologia a partir de problemas, ideias, e posições — não uma introdução histórica. Muito popular em cursos de epistemologia mundo afora.
  2. Seeing Things As They Are: A Theory of Perception. (John Searle, 2015)
    Este meu texto é praticamente um fichamento do primeiro capítulo deste livro. Searle é um filósofo eminente há mais de cinquenta anos e é, de fato, um escritor brilhante. Pensou e publicou bastante sobre intencionalidade, consciência, e conteúdo mental nas décadas de 80 e 90, e agora voltou com argumentos sobre a percepção humana que desembocam no realismo direto.
  3. A Nova Ciência da Mente: Uma História da Revolução Cognitiva. Capítulo 10. (Howard Gardner, 1985)
    Introdução histórica bem-feita ao que hoje se chama de «ciências cognitivas», passando pela era de ouro da cibernética e da teoria da informação, pelos anos iniciais da inteligência artificial e da teoria computacional da mente, pela linguística e pela antropologia, e então para a pesquisa que era recente àquela época. O capítulo 10 trata das teorias de percepção do saudoso David Marr e de J. J. Gibson.
  4. Fantasmas no Cérebro: Uma Investigação dos Mistérios da Mente Humana. (V. S. Ramachandran, 1998 )
    Ramachandran é um neuropsicólogo atuante na Universidade da Califórnia, em San Diego, renomada pelos seus grupos de pesquisa em ciências cognitivas. Seu livro está recheado de casos de distúrbios cognitivos, à maneira dos livros de Oliver Sacks. Os exemplos mais interessantes do livro tratam de percepções inverídicas, ao exemplo de pessoas com membros amputados que continuam sentindo como se ainda tivessem estes membros. A síndrome de Charles Bonnet mencionada acima aparece neste livro. O livro é um ótimo exemplo de como é possível fazer a engenharia reversa dos mecanismos de nossa cognição por meio de estudos de caso sobre o que acontece quando nosso cérebro justamente não funciona adequadamente.
  5. Review de Seeing Things as They Are, de John Searle, por Charles Travis.
    Este review pode ser encontrado no site da Notre Dame Philosophical Reviews (NDPR), e é pesado em suas críticas às teses, argumentos, e contra-argumentos oferecidos por Searle em seu livro.

Pequeno Apêndice

Gostei dos dois parágrafos que escrevi abaixo sobre a reação à ameaça cética de diferentes pensadores; são quase uma colagem do que o senhor John Searle diz num dos livros que recomendei acima. Deixei este parágrafo fora do corpo do texto pois nunca gostei quando me pontificavam, em uma casca de noz supercomprimida, o ponto de vista de alguém sobre um assunto. Costumeiramente, não entendia o ponto deste alguém. Colocar no corpo do texto a maçante exposição histórica abaixa, que apenas entendedores entendem, tiraria sua fluidez. Entretanto, para quem quiser ler sobre isso, aqui está ela:

Para resguardar nosso conhecimento da realidade, o famoso Descartes oferece alguns argumentos em primeira vista convincentes para a existência Deus, e argumenta que Deus jamais nos enganaria, nos dando percepções inverídicas. É por uma dedução envolvendo a existência de Deus que podemos assegurar, inferencialmente, que as coisas são como nos parecem ser. — O sujeito Berkeley reagiu negando, por meio de alguns pontos bem interessantes, que exista qualquer coisa “além” das representações mentais que percebemos. Ao invés de responder à ameaça cética diretamente, ele a dissolve ao jogar fora o pressuposto de uma realidade não-perceptual sendo encoberta pelo “véu” da percepção. Para evitar o solipsismo, e assegurar que os fatos sobre a realidade são objetivos e externos à nossas mentes (ou seja, os fatos são comuns a todo mundo, ao invés de relativos a qualquer pessoa), Berkeley argumenta que a realidade é composta de representações mentais que são partes de uma única fábrica de tudo: a mente de Deus.

Hume, à sua maneira característica, tomou a difícil decisão de aceitar que o problema não tem solução; mas se confortou no fato que nossa preguiça intelectual nos leva a ignorar o ceticismo em nossa vida prática. Numa história muito contada, Hume pausou suas reflexões depressivas sobre a possibilidade de conhecermos a realidade, para jogar algumas partidas de gamão com seus amigos. Quando voltou aos seus estudos, todas aquelas preocupações céticas lhe pareciam tão artificiais e desinteressantes… — Por fim, em uma casca de noz ultracomprimida, Kant resolveu parcialmente o problema: negou que, em qualquer momento, possamos saber exatamente o quê existe lá fora, mesmo que tenhamos motivo (contra Berkeley) para supor que existe tal coisa como “lá fora.” Mas tudo bem, pois boa parte do que há de interessante na realidade está na maneira como nossa cabeça representa as coisas, e a isto nós temos acesso direto. (Se você não conhecia o trabalho destas figuras de antemão, então de nada deve ter servido este pequeno apanhado. Se conhecia, talvez eu tenha jogado nova luz sobre o que elas estavam tentando fazer!)

Agradecimentos: Agradeço aos colegas Gregory Gaboardi e Israel Vilas Bôas, pelos comentários intelectualmente e gramaticalmente úteis!

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