Dissecando a pesquisa com animais

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Teste de DNA em cachorro. Créditos da Imagem: http://glo.bo/1fjJ3ve

Este texto tem por objetivo informar e esclarecer certas questões sobre a pesquisa científica com animais. É importante que o material adicional que será disponibilizado aqui no final do texto, também seja lido e visto atentamente e que você, leitor, pesquise também em outros meios e fontes de informação para ver outros pontos de vista e argumentos. Apesar de ter muito material extra, é garantido que são informações muito úteis.

POR QUE FAZER EXPERIMENTOS EM ANIMAIS E NÃO EM HUMANOS?

I) ÉTICA

Sim, a ética não permite que humanos sejam testados. Órgãos de direitos humanos fiscalizam isso por todo o mundo, além de existirem leis que proíbem tal ato, salvo alguns casos históricos, como as duas grandes guerras, que faziam experimentos em seus prisioneiros. Em alguns outros casos, também é permitido que humanos se voluntariem para testes específicos. Mas esse não é um bom argumento e não deveria ser o argumento de ninguém.

II) MÉTODOS DE PESQUISA

Muitos ativistas afirmam que o certo seria pegar criminosos para que os testes sejam feitos, mas isso é um afirmação de total desinformação (para não dizer sadismo). É impossível fazer testes em seres humanos justamente porque não se pode ter controle sobre eles e a pesquisa necessita de ambientes rigorosamente controlados laboratorialmente (biotérios). Você não pode saber a vida inteira de uma pessoa, como e por que ela pegou tal doença, onde ela pegou, quais são seus hábitos ao decorrer de toda sua vida, os ambientes onde ela vive, as relações que ela tem, o comportamento da pessoa e uma infinidade de outras variáveis que têm um peso enorme em uma pesquisa. Como se sabe, a ciência trabalha com a eliminação de variáveis e não com o acúmulo delas. Para entender melhor isso, veja essas duas equações:

//www.universoracionalista.org/

equa 2 //www.universoracionalista.org/

Qual é mais fácil de resolver? De cara, podemos ver que é a primeira, pois possui menos variáveis e facilmente se encontra que o valor de x é 2. Já na outra, com muitas variáveis, contas complexas precisam ser feitas e a equação possui vários resultados.

Outra coisa que atrapalha e muito a pesquisa é o tempo de vida de um ser humano. Enquanto um rato possui uma vida de 2 ou 3 anos, uma pessoa vive uma média de 70 ou 80, isso é mais de 30 vezes a vida do rato. Sendo assim, uma pesquisa que levaria um ano no rato, precisaria ser feita em trinta anos no humano. O desenvolvimento de um animal não-humano é bem mais rápido e observável: você consegue acompanhar todos os estágios da vida de um animal tranquilamente em laboratório; de um humano, não. Imagine que você quer estudar determinada doença que quase sempre só se manifesta depois de determinada fase da vida de um animal – na velhice, por exemplo. Seria mais fácil esperar 60 ou 70 anos criando um ser humano em um laboratório de ambiente controlado, ou um ano e meio, talvez dois, criando um camundongo? Lembrando, o ambiente PRECISA ser controlado. Os cientistas não pegam um animal qualquer na rua e estudam. Eles adquirem animais específicos criados em laboratório desde seu nascimento de linhagens específicas, muitas vezes, com seu genoma alterado para estuda-los.

III) NÚMERO

Supondo que pegássemos os criminosos (vamos deixar de lado as variáveis citadas anteriormente de lado um pouco) e fizéssemos pesquisas com eles. Quantos criminosos você acredita que há no Brasil? Pois então, cerca de meio milhão (como pode ser conferido aqui); essa é a nossa população carcerária e, nela, está incluída os pais que não pagaram pensão, ladrõezinhos de rua e todos os outros delinquentes “leves”. Com meio-milhão de pessoas, o Brasil conseguiria ter o avanço que ele tem hoje? Com certeza, não. Agora, imagine isso a nível global. Uma pesquisa precisa, normalmente, de algumas dezenas de ratos, agora imagine todas as pesquisas nas últimas centenas de anos. Sem contar que usaríamos esses criminosos e, depois que eles fossem abatidos, o que iria acontecer? E se precisássemos fazer experiências genéticas? Poderíamos relacionar dois criminosos e usar a criança filha deles para a pesquisa? E se usássemos e precisássemos de uma terceira geração, cairia de novo no problema do tempo de vida humano. Enfim, o número de criminosos é ínfimo, além do que, com um casal de ratos, cinco gerações depois você já tem centenas de outros ratos.

CERTO! E O SOFRIMENTO DOS ANIMAIS?

O cientista Pirulla e o rato Remmy.
O cientista Pirulla e o rato Remmy

Esse é um conceito muito errado que as pessoas têm.  Grande parte da população acha que cientistas são sádicos, frios, cruéis e sem coração, que adoram matar animais, fazendo isso com prazer ou sem sentimento algum. Aqui, há um artigo bem curto e muito interessante que conta a experiência de um cientista ao matar um animal.

Primeiramente vamos voltar ao item II do subtítulo anterior e olhar bem o que é dito: “a pesquisa necessita de ambientes rigorosamente controlados”. Pois bem, quando é dito controlado, é realmente controlado e isso, por si só, já explica quanto esse argumento do sofrimento é errôneo. Você já percebeu como o estresse, a adrenalina e o nervosismo causam mudanças drásticas? Se você está muito nervoso ou estressado, você começa a suar, produzir mais secreções, tem alterações hormonais, em alguns casos, começa a perder cabelo e ter dermatites e manchas na pele, perde o sono, a fome, a disposição e pode até levar alguém ao suicídio. Se você quer um ambiente controlado, por que iria levar a sua pesquisa frente à tantas variáveis? De novo, no item II, a ciência tem a ver com eliminar variáveis para se chegar à uma resposta. Ao contrário do que se pensa, os animais são muito bem tratados, alimentam-se com as melhores e mais caras rações, moram em ambientes constantemente higienizados e climatizados, não passam frio, sede, estresse ou medo, se possuem alguma rivalidade com outro animal, são separados do mesmo, além de terem conforto e cuidados que a grande maioria dos animais não têm.

Se você for um rato na cidade, ou você viverá em lugares imundos e cheios de doenças ou então acabará morto, seja por venenos ou violência. Alguns dão sorte e vão para pet shops para se tornarem animais domésticos. “Ah, mas e os cachorros? Eles têm vida boa em casas humanas!” Realmente, o que não é diferente nos laboratórios. Um cientista é tão humano quanto você, por que acha que ele odeia e quer exterminar cachorros? Eles vivem em ótimas condições e alguns vivem melhor do que em algumas casas, onde são apenas amados enquanto filhotes, depois são deixados de lado ou confinados em uma casinha até a morte, comendo os restos de comida dos humanos.

Serão deixados dois documentos mais abaixo, um contendo a classificação dos tipos de biotério e outro falando sobre as condições nutricionais, higiênicas e mais uma série de informações sobre os procedimentos dentro do ambiente laboratorial, não deixem de conferir.

MAS OS ANIMAIS SÃO ABATIDOS?

Sim, por LEI (atenção aqui, não é escolha dos cientistas), os animais devem ser abatidos na maioria dos casos, infelizmente. Mas, ao contrário do que muitos ativistas pregam, eles não são queimados, quebrados ou mutilados. Há três formas predominantes de abatimento, que são:

  • MONÓXIDO DE CARBONO 
    O animal é exposto a esse gás por um curto período, então cai no sono para só depois morrer.
  • GUILHOTINA
    A mais cruel das técnicas, mas que leva menos de um segundo e é necessária em uma porção ínfima dos casos.
  • INJEÇÃO LETAL
    O método mais usado, onde um composto é injetado no animal e em poucos segundos ele cai no sono e morre de forma de indolor.

AH É? E QUEM FISCALIZA ISSO?

Logomarca do Comitê de Ética
Logomarca do Comitê de Ética. Créditos da Imagem: CESED/FACISA

Qualquer experimento tem que passar por um rigorosíssimo comitê de ética, que por qualquer motivo cassa a sua licença de profissional, além de multar o laboratório ou até fechá-lo. Pode ler melhor sobre isso aqui:
Comissão de Ética de Pesquisas em Animais – UFPR

MAS EU OUVI DIZER QUE TEM MÉTODOS DE PESQUISA ONDE OS BICHOS SOFREM ATROCIDADES

Teste da Chapa Quente em Camundongos
Teste da Chapa Quente em Camundongos. Créditos da Imagem: dol.inf.br

O que muitos dizem é que os animais são queimados vivos, o que viria a ser chamado de “Chapa Quente”. Nesse método, o camundongo é colocado sobre uma chapa fria de metal que vai aquecendo gradualmente até o ponto do animal ficar INCOMODADO (e não queimado), a temperatura dessa chapa chega até uma temperatura máxima onde ainda é possível tocar com as mãos e suportar tranquilamente (55° C). Esse método é usado para o teste de analgésicos, onde um animal sob o efeito é colocado junto com outro sem o efeito, se o sob o efeito não sentir nada enquanto o outro sente, o remédio funciona.

Outra coisa que falam muito, é sobre a vivissecção, que é o método que consiste em abrir o animal ainda vivo para estudá-lo. Sim, é triste, mas calma, não é algo tão terrível. Esse método, por lei, deve ser feito com o animal sob efeito de anestesia e não pode ocorrer nenhuma dor ou sofrimento.

Será postado mais abaixo todas as informações sobre tais métodos, leis e artigos. Não deixem de ler atentamente os textos e cobrar de profissionais que você conhece um serviço correto e dentro da lei, caso isso não for cumprido, o denuncie.

DIRETRIZES PARA AS PESQUISAS COM ANIMAIS NO BRASIL

I) Garantir que a utilização de animais seja justificada, levando em consideração os benefícios científicos ou educacionais e os potenciais efeitos sobre o bem-estar dos animais;

II) Garantir que o bem-estar dos animais seja sempre considerado;

III) Promover o desenvolvimento e uso de técnicas que substituam o uso de animais em atividades científicas ou didáticas;

IV) Minimizar o número de animais utilizados em projetos ou protocolos;

V) Refinar métodos e procedimentos a fim de evitar a dor ou o estresse de animais utilizados em atividades científicas ou didáticas.

DADOS INTERESSANTES

  • +90% dos avanços biomédicos são devidos às pesquisas em animais;
  • A própria veterinária existe graças a esses testes. Animais por todo o mundo, silvestres, doméstico ou com risco de extinção, se beneficiam dessas pesquisas. Além disso, toda a indústria de pet shop passa por testes em animais;
  • O uso de vivissecção é permitido apenas no 3° Grau de ensino no Brasil, ou seja, apenas no Ensino Superior;
  • Menos de 1% das pesquisas feitas em animais são com cães e primatas não humanos;
  • Todo cosmético, antes de ir para o mercado, é testado em animais por lei. Então, quando você compra um cosmético que diz que não usou animais nos testes, eles apenas pediram que outras empresas usassem para eles;
  • Apesar do que muitas pessoas falam, métodos computacionais e culturas em células ainda estão “engatinhando” e, por enquanto, não podem substituir o teste em animais, apenas são um complemento;
  • Remédios, cosméticos, creme dental, sabonetes, anestésicos, cirurgias, tudo isso só é acessível graças aos animais.

NOSSA, MAS É TÃO IMPORTANTE ASSIM A PESQUISA COM ANIMAIS?

Leia sobre a TALIDOMIDA. Essa é uma substância usada em medicamentos sedativos que foi testada apenas em alguns camundongos e estes não apresentaram nenhum problema. Então, como a lei na década de 1950 era mais leve quanto à experimentação, ela foi liberada ao mercado. Grávidas passaram a usar o medicamento e deram origem ao que hoje é conhecido como “geração talidomida”, que foram mais de 10 mil crianças em todo o mundo que nasceram com defeitos congênitos em 146 países, inclusive o Brasil. Depois, fez-se o teste em cachorros e o mesmo aconteceu aos filhotes, mas já era tarde demais. Até hoje, esse remédio ainda vem causando impactos e protestos em todo o mundo, como você pode ler aqui, aqui e aqui. Numa pesquisa rápida no Google Imagens sobre “Filhos da Talidomida” (ATENÇÃO! As imagens podem ser chocantes),, é possível ter um vislumbre das consequências dessa substância.

Créditos da Imagem: BBC
Créditos da Imagem: BBC

CONCLUSÃO

São muito tristes os testes com animais, porém, são imensamente necessários e não são tão ruins quanto são divulgados. Cientistas não são monstros. Testes em cosméticos podem ser considerados um exagero, já existem cosméticos demais e é algo totalmente antiético matar animais para ter um novo tom de batom vermelho ou um novo perfume; são pesquisas que visam apenas ao dinheiro e ao aumento da indústria.

Então, se ainda assim você é contra, torne-se um cientista e tente estudar formas de substituir esses métodos, sejam computacionais, culturas de células ou algo novo. Pode ter certeza que a comunidade científica agradecer-te-á imensamente, até mesmo a indústria, pois é imensamente mais barato comprar um programa de computador ou cultivar células do que comprar e manter dezenas de animais para um teste e alguém que revolucionar isso, revolucionará o mundo.

Ainda existem lugares que praticam maus tratos, mas todos de formas clandestinas, se você conhece um lugar desses, não tente invadir, denuncie à polícia ou ao ministério público, pois, ao invadir um lugar, eles facilmente podem “eliminar” as provas contra qualquer processo ou detenção que viriam a receber e no fim, você sai como um vilão e eles como vítimas. Outro problema da invasão é que, ao soltar os animais, você coloca toda a população em risco assim como os próprios animais, pois muitos deles estão passando por tratamentos de doenças que podem ser contagiosas e mortais, tanto para eles quanto para a sociedade.

Outra coisa que deve ser ressaltada é que o sistema de pesquisas está se tornando cada vez mais humanizado; notícias a respeito serão colocadas no fim do artigo.

Agora, além de agradecer aos médicos e profissionais da saúde que cuidam de você e de seus familiares, agradeça a todos os bichinhos que morreram por um propósito grandioso, que é contribuir para a sua qualidade de vida, de toda humanidade e de todos os outros animais.

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Monumento em homenagem aos ratos utilizados em pesquisas científicas sobre o DNA, em Novosibirski, na Rússia.

REFERÊNCIAS E MATERIAIS EXTERNOS PARA CONSULTA


ADENDO ADICIONADO EM 17/05/2014

ADENDO ADICIONADO EM 04/07/2014

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