Em Defesa do Realismo e do Cientificismo

Albert Einstein foi um defensor do realismo.

Por Mario Bunge
Traduzido por Douglas Rodrigues

Herman Tennessen deseja matar vários pássaros com um só tiro: sensacionalismo, realismo e cientificismo. Concordamos que o primeiro é insustentável, mas tentarei defender os outros dois, que são casos bem diferentes.

Em primeiro lugar, é necessário recordar que existem dois tipos principais de realismo em termos de conhecimento: ingênuo e crítico. O realista ingênuo concebe o mundo sendo como ele o percebe. Tennessen efetivamente eliminou esse tipo de realismo, mas não eliminou, contudo, o realismo crítico. O último desconfia dos dados sensoriais e, longe de tentar explicar o mundo em termos deles, incentiva a construção de sistemas conceituais sofisticados (teorias). Esses sempre incluem alguns conceitos que têm apenas uma remota relação com a realidade ou, no caso da matemática, relação nenhuma. Contudo, uma teoria não pode pretender explicar um certo domínio de fatos a menos que alguns de seus conceitos se refiram, não importa o quão tortuosamente, a esses fatos. Por exemplo, na teoria quântica, um raio no espaço de Hilbert (um construto altamente abstrato) pretende representar o estado de alguma coisa real, como um elétron ou um fóton.

Eu afirmo que o realismo crítico não só é consistente com a ciência e tecnologia como é, também, um componente do plano de fundo filosófico desse último. De fato, o pesquisador que manipula instrumentos ao fazer medições sobre os objetos que estuda pressupõe a realidade independente de tais instrumentos, e ele assume, pelo menos provisoriamente, que seus objetos de estudo existem por conta própria. E o teórico, a menos que ele seja um matemático puro, assume que suas teorias se referem a entidades reais, ou pelo menos possivelmente reais, – sejam átomos ou estrelas, gafanhotos ou pessoas.

Em outras palavras, nem o experimentalista e nem o teórico criam o mundo: ambos apenas o estudam. Com certeza, o primeiro pode projetar e montar coisas novas, tais como artefatos, e ele pode até mesmo criar novas espécies de coisas; e o teórico criativo cria novos conceitos, assim como o tecnólogo criativo cria novos projetos ou planos. Mas todos eles assumem a existência autônoma de um mundo externo, e todos eles pressupõe que é sua tarefa explorá-lo, entendê-lo, ou alterá-lo. Se assim não fosse, poderiam ser considerados como fabricantes de mitos ou escritores de ficção.

É verdade que alguns físicos, de Niels Bohr a Bernard d’Éspagnat, alegaram que a teoria quântica refutou o realismo: que demonstrou que a distinção entre o objeto de estudo (e.g., um átomo) e o sujeito (e.g., um experimentador) insustentável. Contudo, é fácil demonstrar que isso é um erro. Em primeiro lugar, todo experimentador cuidadoso se esforça para evitar influenciar seus objetos de estudo, ou, pelo menos, para tentar estimar o tamanho da perturbação que suas ações causam. Se não fosse assim, as diferenças entre o grupo controle e o grupo experimental, e entre a coisa observada e a sonda de observação, seria inexistente e o método experimental seria inaplicável. Em segundo lugar, as fórmulas gerais da teoria quântica não contêm qualquer referência explícita a quaisquer sujeitos ou experimentadores, ou mesmo para arranjos experimentais. E as poucas que se referem a esse último, o tratam como entidades físicas, não como entidades psicofísicas. É por isso que a teoria quântica é aplicada com sucesso na astronomia, que lida com objetos que estão além do controle experimental. Em conclusão, a física quântica é tão realista quanto a física clássica. A principal diferença entre as duas é que, enquanto na física clássica cada propriedade tem um valor preciso a qualquer momento, na física quântica a maioria das propriedades são não-precisas (ou distribuídas). Em outras palavras, enquanto os estados clássicos são simples, o típico estado quântico é uma superposição de estados simples. (Veja Bunge 1967a e 1973 para obter detalhes sobre interpretações subjetivistas e objetivistas da teoria quântica).

Quanto ao cientificismo, o entendo como sendo bastante diferente da “crença” de Tennessen em “algum tipo de visão de mundo científica que emana milagrosamente do corpo principal do testemunho dos sentidos ou dos chamados resultados científicos”. O tipo do cientificismo que defendo se resume à tese de que a investigação científica (ao invés da contemplação do próprio umbigo ou a leitura de textos sagrados) pode produzir o melhor (mais verdadeiro e mais profundo) conhecimento possível de coisas reais (concretas, materiais), sejam eles campos ou partículas, cérebros ou sociedades, ou o que se quiser. Como a pesquisa científica envolve não somente perceber, mas também conceber e reconhecer, a visão de mundo científica em um determinado momento não pode “emanar” sozinho a partir dos testemunhos dos sentidos, muito menos de forma milagrosa. Ademais, como a ciência avança, a nossa visão de mundo científica não fica parada no mesmo lugar. Por exemplo, ao contrário da maioria dos cientistas do Séc. XIX, agora acreditamos na aleatoriedade objetiva e nas leis probabilísticas básicas; também acreditamos que a mente não é uma entidade separada do cérebro vivo; e acreditamos em algum grau de determinismo econômico.

Eu penso que os cientistas estão dentre os mais firmes crentes no cientificismo: caso contrário, eu seria incapaz de entender por que eles se dedicam à investigação científica. E, é claro, eu incluo o método científico dentre os pressupostos gerais ou filosóficos, ou dentre as condições prévias para a investigação científica. Em outras palavras, eu tomo o método científico, ao invés de qualquer resultado específico da investigação científica, como o núcleo do cientificismo. Como consequência, não posso aceitar a aprovação implícita de Tennessen à anti-metodologia de Feyerabend, o “anarquismo epistemológico” – a versão mais recente do ceticismo radical. O “princípio” desta doutrina é que vale tudo. Isto não é realmente um princípio, mas uma licença para acreditar em, e fazer, qualquer coisa. Portanto, ela em nada ajuda na conduta da investigação e não é a resposta correta à metodologias estreitas e autoritárias (ou dogmáticas) como o positivismo clássico (e seu companheiro psicológico, o behaviorismo radical). É simplesmente uma marca de vazio intelectual e irresponsabilidade. É verdade que devemos ser céticos e estarmos prontos a mudar algumas de nossas crenças mais adoradas, caso queiramos nos chamar de cientistas ou filósofos. Mas a dúvida é um meio, não um fim. O objetivo da investigação científica (e humanista) é compreender o mundo com a ajuda de teorias que sobreviveram a uma série de testes, dentre eles os de observação ou experimentação. (Veja detalhes sobre a metodologia científica em Bunge, 1967b; sobre o realismo científico em Bunge, 1983a e 1983b.)

Em conclusão, concordo com Tennessen que a percepção é limitada e, além disso, específica à espécie (e.g., antropocêntrica), assim como que pode ser contaminada com ideias e expectativas. Mas discordo com sua conclusão de que esse fato refuta o realismo e o cientificismo. Ele refuta apenas o realismo pré-científico (ingênuo) e a aceitação acrítica (portanto não-científica) de todos os resultados da investigação científica. A ciência é falível, mas não pura ficção; é cética, mas não niilista. E a ciência muda, às vezes de uma maneira revolucionária, mas nunca de uma forma total: nenhuma mudança científica, mesmo que profunda, apaga completamente as conquistas que ela substitui. Assim como nos casos do desenvolvimento individual e da evolução das populações, o avanço do conhecimento científico é descontínuo em alguns aspectos e contínuo em outros. Isso explica porquê mesmo aqueles que se dedicam à psicologia fisiológica podem continuar a aprender com as realizações da psicologia introspectiva e behaviorista, e ao mesmo tempo criticar suas falhas. Revolução, sempre que necessária; anarquia, jamais.

REFERÊNCIAS

  1. BUNGE, Mario. (1967a). Foundation of Physics. New York: Springer-Verlag.
  2. BUNGE, Mario. (1967b). Scientific Research (2 vols.) Berlin and New York: Springer-Verlag.
  3. BUNGE, Mario. (1973). Philosophy of Physics. Dordrecht: Reidel.
  4. BUNGE, Mario. (1983a). Exploring the World. Dordrecht and Boston: Reidel.
  5. BUNGE, Mario. (1983b). Understading the World. Dordrecht and Boston: Reidel.

PAPER

BUNGE, Mario. In Defense of Realism and Scientism (PDF). In: Annals of Theoretical Psychology. Springer US, 1986. p. 23-26 – http://dx.doi.org/10.1007/978-1-4615-6453-9_3

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