Espiritismo no Brasil e a dissonância cognitiva

Na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo se desenvolve e evolui em uma nova religião.

Por Kentaro Mori
Publicado na Skeptical Inquirer

Todos já vimos antigas ilustrações vitorianas sobre fantasmas em lençóis brancos e em fotos desagradavelmente mal feitas de espíritos criados a partir de dupla exposição, principalmente resultantes do movimento espírita no Reino Unido e nos Estados Unidos. O movimento atingiu seu auge no final do século XIX, sendo reconhecido como um modismo passageiro, mesmo quase um século depois.

Porém, em alguns outros países, especialmente na Europa continental e particularmente no Brasil, um ramo do espiritualismo chamado espiritismo ainda é muito significativo e continua evoluindo, tornando-se um exemplo fascinante do desenvolvimento de uma nova religião. Os seguidores serão rápidos em enfatizar a distinção entre o mais conhecido espiritualismo e o espiritismo, que foi fundado por um francês chamado Hypolite Rivail (1804-1869) sob o pseudônimo de “Allan Kardec“. Esse modismo, ou falácia, está sendo promovido em nome da ciência.

Chico Xavier

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que realiza o censo oficial, o Brasil possui o maior número de espíritas do mundo: mais de 2,3 milhões de seguidores, quase 1,3% da população total e o terceiro maior grupo religioso, atrás apenas dos católicos e evangélicos¹.

Todos esses três grupos são cristãos. Os espíritas brasileiros dão especial relevância para “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. O líder mais importante desse movimento no Brasil, Francisco “Chico” Xavier (1910–2002), é nosso maior foco de interesse aqui, pois simboliza o espiritismo brasileiro.

Chico Xavier foi considerado um médium. Sua principal forma de mediunidade, no entanto, foi a “psicografia”, que é a escrita automática pela qual ele afirmava entrar em contato com pessoas mortas por meio de cartas escritas pelo morto, e também por meio de livros escritos por autores famosos já falecidos.

Vendendo esses livros “psicografados”, os quais Xavier escreveu por volta de 400, o movimento conseguiu florescer e promover obras de caridade em um ciclo autoalimentado, onde cada elo reforça o outro, tendo Xavier no topo. Obviamente, ele não era um Sexy Sadie, mas, mesmo em vida, Xavier vivia modestamente e nunca se casou, sendo adorado como uma espécie de santo ascético. Não havia nenhuma evidência de que a imagem divulgada por seus seguidores não fosse verdadeira. Quase uma década após sua morte, e no centenário de seu nascimento, sua vida foi dramatizada e divulgada em filme², e é quase impensável questionar a personalidade pública de Xavier.

Porém, uma análise crítica dos poderes paranormais de Chico Xavier rapidamente revela sua maior falha. Fiquei surpreso. Até o momento em que me aprofundei na pesquisa, sempre assumi que as alegações de Xavier tinham algo verdadeiro. Se não fosse um fenômeno paranormal autêntico, pensei que ao menos se chegaria a algo não solucionado e intrigante. Muito pelo contrário, isso acabou não sendo o caso.

“Odorização”

Um amigo meu, Vitor Moura Visoni³, conseguiu fazer com que um dos maiores e mais próximos associados de Xavier, Waldo Vieira, explicasse claramente como Xavier promovia fraudes. Vieira deveria saber porque estava com Xavier.

“Os trabalhadores do Centro Espírita faziam fila para conseguir detalhes dos falecidos ou se utilizavam de histórias contadas pelos parentes nas cartas onde pediam por um encontro. As mensagens de Chico tinham essa informação”, revelou Vieira. Isso explicaria suas cartas “psicografadas” com detalhes que “apenas os falecidos sabiam”. Mais do que uma leitura fria, era justamente uma falsificação legítima. Haviam outras fraudes, de acordo com Vieira.

“Vi que [Xavier] estava conduzindo algumas sessões nas quais eu não fazia parte… onde algumas pessoas às vezes relatavam sobre os perfumes [do espírito] de Scheila… [Então] um dia… ele foi postar algo no correio… fui até seu armário, o qual estava com a porta aberta, pretendendo fechá-la. Quando cheguei lá, vi uma sacola cheia de frascos… Ele usou os perfumes… eram de rosas… [Confrontei-o] então, Chico começou a chorar na minha frente”.

O uso de aromas supostamente de origem sobrenatural é um truque espiritualista comum. O fato do líder espírita e principal “médium” no Brasil ter utilizado esses perfumes, de acordo com um de seus associados mais íntimos, é muito revelador.

Porém, nada supera o caso de Otília Diogo.

Irmã Josefa

Olhe para essa fotografia. Isso faz parte de um show de comédia? Pode ser engraçada, mas intencionalmente não é. A foto foi tirada em 1964, e o homem sorridente de óculos escuros é o próprio Chico Xavier. A pessoa coberta pelo lençol branco é a médium Otília Diogo, ou, como os espíritas acreditam, a “materialização” do espírito da irmã Josefa no ectoplasma. Graças à mediunidade de Otília Diogo, é claro.

Outras fotos claramente mostram a médium atrás do véu e, de fato, o véu tinha uma parte retangular semitransparente para permitir que Diogo pudesse enxergar. A suposta materialização ectoplásmica pode ser tocada e também segurar uma Bíblia pesada. Isso é realmente muito material. E até mesmo os crentes notaram como a médium, Diogo, possuía uma notável semelhança com a face do espírito.

E, no entanto, acreditaram. Eles ainda acreditam nisso. Xavier estava lá e afirmou enfaticamente que a materialização era real e autêntica. Contudo, o caso logo se tornou uma grande confusão.

As fotos foram tiradas pela revista Cruzeiro, que tinha a máxima prioridade de vender mais revistas. Primeiro, promover, em seguida, expor a fraude, o que caiu como uma luva. Após publicar primeiramente um artigo em que questionavam se as “materializações de Uberaba” eram reais e abertas à interpretação, eles passaram a expor a fraude que ajudaram a promover.

Apanhados no ato!

Eles expuseram. Com fotos nítidas fica claro que a “materialização” é simplesmente a médium Diogo em lençóis. Os crentes chegaram a afirmar que o espírito atravessava barras de aço sólido, mas as fotos mostram que eram apenas alguns lençóis que eram jogados para o outro lado, enquanto a médium, bastante sólida (e viva), estava por trás das barras.

A Cruzeiro não poderia ter tido melhor furo de reportagem quando, em 1970, Otília Diogo foi finalmente pega em flagrante. Ela queria remover suas rugas com cirurgia plástica e, como pagamento pela cirurgia, ofereceu-se para realizar sessões de materialização na casa do médico, um crente no espiritismo. Contudo, o médico não era tão crédulo e suspeitava de uma pequena maleta que ela sempre levava. Quando ele e sua família conseguiram abri-la, enquanto Diogo dormia, eles encontraram todo o “ectoplasma”, isto é, todas as roupas e véus materiais que ela utilizava para interpretar diferentes espíritos.

Suas ferramentas incluíam até perfumes “para reforçar a presença do espírito”. Assim como Xavier, de acordo com Vieira.

Finalmente exposta sua fraude, o que Diogo pode dizer? “Perdi minha mediunidade em 1965, mas achei que deveria manter a encenação das materializações. Não queria que ninguém percebesse”.

E as pessoas acreditaram nisso. A grande maioria dos espíritas no Brasil, quando informados sobre o envolvimento de Chico Xavier no caso de Otília Diogo, acreditam piamente que, embora ela definitivamente fosse uma farsante, ela só começou a fraudar após o fenômeno ter sido testemunhado e autenticado por Xavier. Esse é um exemplo clássico de dissonância cognitiva.

Mesmo que as fotos tiradas durante as sessões de 1964 mostrassem claramente uma pessoa utilizando véus e evidenciassem a fraude, muitos ainda acreditariam que o ectoplasma funcionou de forma misteriosa – incluindo se parecer exatamente um véu comum. Nós, céticos, ainda argumentamos com os crentes que defendem veemente esse caso com argumentos elaborados – sendo que todos foram refutados -, mas a primeira e óbvia impressão das fotos tiradas é certeira: são exemplos simples e ridículos de fraudes.

Pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas

Waldo Vieira também era testemunha dessas sessões espíritas, revelando que desde o início já suspeitava de Diogo. Contudo, ele também afirma que Diogo também era uma médium autêntica, assim como Xavier. Embora fosse uma farsante por algumas vezes, ela também tinha poderes paranormais extraordinários. A dissonância cognitiva é completa.

Mesmo se alguém aceitar que esses supostos médiuns eram farsantes, o crente se convencerá de que parte do fenômeno farsante é autêntica. Parafraseando uma questão filosófica velha e peculiar, se um farsante não for pego em seu ato fraudulento no meio da floresta, ele cometeu a fraude? Para os crentes, a resposta é clara. Os argumentos mais elaborados e impensáveis ​​são apresentados como argumento para aquelas fraudes ridículas que podem ter sido consideradas como autênticas.

Voltando no tempo novamente podemos encontrar exemplos de farsantes. E a história de Otília Diogo, tão famosa no espiritismo brasileiro, é quase idêntica à história das materializações de Florence Cook de Katie King, que ocorreram quase um século antes no auge do espiritismo vitoriano. Os crentes argumentarão que ela só começou a fraudar após ser examinada por William Crookes. Billy Meier, o suíço que diz ter contatos com alienígenas, pode ter falsificado algumas fotos, mas deve ter começado a fazer isso após ter tido alguns contatos autênticos com alienígenas provindos das Plêiades.

Certamente, há muitas outras histórias sobre Chico Xavier, pois não entramos em detalhes na sua principal reivindicação paranormal de 400 livros “psicografados”. Essa é outra oportunidade de desmascará-lo.

Porém, como foi uma personalidade famosa por sua orientação moral e mensagens espirituais publicadas em centenas de livros, terminaremos com um pequeno trecho particularmente interessante: “A verdade que fere é pior do que a mentira que consola… Aqueles que conseguem compreendê-la entenderão”.

Notas

  1. O número total de ateus e cidadãos não religiosos no Brasil é provavelmente comparável e talvez até maior que o número de espíritas, no entanto, o IBGE se recusa a contabilizar o número de ateus no Censo.
  2. Muitos brasileiros das classes mais altas, incluindo a elite do entretenimento, são espíritas. Considerando-se mais refinados que o catolicismo tradicional.
  3. O trabalho de Visoni está disponível gratuitamente em português em http://obraspsicografadas.org/
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