Sasha Sagan, filha de Carl Sagan, fala sobre ciência, imortalidade e sentido da vida

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Créditos: Sasha Sagan / Penguin Books.

Por Alita Byrd
Publicado na Spectrum Magazine

Este artigo é uma tradução da entrevista que Sasha Sagan, filha do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, prestou para o portal Spectrum sobre seu livro For Small Creatures Such As We: Rituals And Reflections For Finding Wonder. Nesta entrevista, ela discute sobre a imortalidade, o sentido da vida e a razão de seu livro ser tanto para pessoas religiosas como para não religiosas.

Questão: Você foi criada em uma casa secular pelo famoso astrônomo Carl Sagan e pela produtora de documentários Ann Druyan – seus pais. Você falava sobre coisas espirituais em família?

Resposta: De certa forma, quase tudo o que conversávamos era “espiritual”. Palavras como “espiritual”, “mágico” e “sagrado” vêm do teísmo, mas também se aplicam a um sentido profundo de significado que podemos obter ao entender nosso lugar no tempo e no espaço como revelado pela ciência. Meus pais me ensinaram que as coisas verificáveis e prováveis não eram menos significativas porque eram apoiadas por evidências, mas eram mais maravilhosas por serem assim. Eles me ensinaram a amar o aprendizado e a enxergar uma profunda compreensão como sendo fonte de admiração.

Contudo, se você quer dizer “espiritualidade” no sentido religioso e teológico, a resposta também é sim – o tempo todo! A religião certamente não foi censurada de nenhuma forma em nossa casa. Frequentemente, tínhamos convidados religiosos para o jantar, incluindo membros do clero, e discutíamos e debatíamos filosofia abertamente. Meus pais queriam que eu entendesse o que as pessoas acreditavam no mundo ao longo do tempo. Meus pais me ensinaram histórias da Bíblia – não como história, mas como pilares importantes da civilização. Eles achavam que, sem aprendê-los, minha educação não chegaria nem perto de ser completa. Quando eu escrevia meu livro, a minha babá, Maruja Farge, que viveu conosco desde que eu tinha seis meses de idade até completar 8 anos, exerceu uma enorme influência sobre mim e foi uma das pessoas que mais amei na vida. Ela era uma católica devota e, às vezes, me levava à Igreja com ela, e eu gostava. Desde muito jovem, eu sabia que as crenças dela eram diferentes das dos meus pais e isso era perfeitamente aceito.

Eu também tinha um conjunto de brinquedos de madeira da Arca de Noé, que eu adorava!

Você disse que seu pai lhe ensinou sobre a imortalidade. O que ele te ensinou?

Ele me ensinou que, na escala do universo, a vida humana é muito curta e que não temos evidências do que acontecerá depois da morte. Vivemos em um pequeno planeta que orbita uma estrela amarela que em, aproximadamente, 5 bilhões de anos implodirá. Vivemos em um universo em que a mudança é constante e, até mesmo, as estrelas morrem. Não temos evidências que sugerem que a imortalidade exista para alguém ou alguma coisa. A vida é finita. E, em parte, porque não é infinita, estarmos vivos, aqui e agora, neste exato momento, é profundamente especial.

Quando criança, você alguma vez sentiu que estava perdendo algo por não fazer parte de uma crença religiosa ou uma Igreja?

Bem, seríamos judeus seculares, então não teria sido uma família de igreja em si, mas não. Talvez teria os mesmos amigos que tive a vida toda. Ainda estamos profundamente próximos, apesar de vivermos distantes. Além da minha família, eu sempre pude contar com o apoio deles para rir e chorar e, graças à tecnologia moderna, todos ainda conversamos constantemente e vemos fotos dos filhos e das viagens uns dos outros. Sinto e sempre me senti parte de uma comunidade por causa deles.

Quando seu pai morreu, você tinha apenas 14 anos, você desejou crer na vida eterna da mesma forma como os cristãos acreditam?

A questão do que acontece depois que morremos atormenta nós humanos, talvez mais do que qualquer outra coisa. Nossa espécie tem criado inúmeras teorias diferentes ao longo dos tempos. Meu pai disse: “Não quero acreditar, quero saber”. Tenho o mesmo pensamento. Isso não quer dizer que tenho total convicção de que não há nada depois da morte, além de um sono sem sonhos. Eu prefiro abster da crença na ausência de evidência, enquanto aguardo na ambiguidade até a minha hora chegar.

Enquanto isso, eu sei que tive muita sorte de ter por 14 anos um pai amoroso, brilhante, interessante e interessado. Não acho que algo deva durar para sempre para ser maravilhoso.

Você publicou recentemente um livro chamado For Small Creatures Such As We: Rituals And Reflections For Finding Wonder. No livro, você descreve rituais e tradições não religiosas criadas para sua própria filha. Você pode nos contar mais sobre isso? Por que você acha que são importantes?

Pessoas seculares também precisam processar as constantes mudanças que compõem a vida na Terra. Também atingimos a maioridade, também nos casamos, também perdemos pessoas que amamos, também queremos alegria nas profundezas do inverno. Muito antes do monoteísmo, as pessoas encontravam inspiração para rituais e feriados no mundo natural, no que hoje chamamos de biologia e astronomia. As mudanças das estações do ano são particularmente populares, geralmente nos solstícios e nos equinócios. Nem sempre sabíamos que eles eram subprodutos da inclinação do eixo da Terra, mas encontramos padrões no mundo: dia e noite, calor e frio, morte e renascimento. Muitos feriados monoteístas modernos são construídos com base nessa relação e no mesmo tempo desses eventos.

A família do meu marido é historicamente cristã. Nossa filha tem um Natal secular todos os anos através deles. E ela recebe uma versão secular do Hanucá parecida com a que tive na minha infância e no meu lado da família.

Não acho que devíamos descartar completamente os rituais de nossos ancestrais porque nossas filosofias não se alinham. Quando acendo um Menorá, eu sinto que estou honrando as pessoas cujos genes eu carrego, mesmo que eu não concorde com a teologia deles.

Também fazemos outra coisa em dezembro, que reflete o que eu e meu marido pensamos ser profundo e significativo.

Para mim, a ideia que depois do solstício de inverno os dias começarão a ficar mais longos, e que depois disso a primavera chegará, acredite ou não, tudo por causa de uma colisão na juventude turbulenta do nosso planeta, há bilhões de anos, é muito poderosa. Nessa noite, acendemos algumas velas, trocamos presentes, fazemos um brinde e tentamos explicar um pouco de astronomia para nossa filha. Dessa forma, celebramos as notícias intrinsecamente boas de que, não importa o quê, amanhã a luz começará a voltar.

Seu livro fala sobre como misturar ciência e espiritualidade. O que é espiritualidade para você? Explique como uma pessoa não religiosa pode ser espiritual.

Bem, eu mencionei acima, pode estar faltando uma palavra na língua inglesa para isso.

Na maior parte da história, quanto mais conseguíamos entender sobre a natureza, como as mudanças das estações, as fases da lua, o nascimento e a morte, mais pensávamos que melhor entendíamos nossos deuses. Em algum lugar ao longo do caminho, surgiu um conflito: a ciência e a “espiritualidade” se separaram, mas isso é relativamente recente na cena da história de nossa espécie.

Escrevi em meu livro que, quando eu era jovem, meus pais me ensinaram que existia um código secreto em meu sangue que me conectava a meus antepassados, a pessoas cujos nomes eu nunca conheceria, mas de quem eu carregava uma pequena parte dentro de mim. O DNA é verificável, acreditando ou não. Não requer fé. E fornece essa emoção arrepiante – a sensação de fazer parte da grandiosidade da interconexão de tudo isso. Eu sinto o mesmo sobre nosso lugar no universo. Durante muito tempo, nós humanos assumimos que éramos o centro de tudo, mas quanto mais aprendemos, mais percebemos que somos uma parte minúscula da vastidão. Como é surpreendente e inspirador para nossa espécie começar a entender o quão enorme é o universo ou que as células do nosso corpo vieram de estrelas a muitos anos-luz de distância. Para mim, como meus pais e muitas pessoas seculares, esse tipo de ideia evoca os mesmos sentimentos que os devotos podem derivar da religião.

Em sua opinião, qual é o sentido da vida? O que seu livro nos diz sobre isso?

Longe de responder a essa pergunta para alguém. Para mim, é o amor que sinto por meu marido, por nossa filha, por nossa família e amigos. Sentindo aqueles momentos de alegria e apreço por estar vivo. É também o profundo sentimento de satisfação que tenho ao aprender o máximo que posso, ao entender, ao conectar os pontos, ao compreender como a vida é interdependente em nosso planeta. São revelações em um sentido diferente da palavra, penso eu. Também deduzo que o sentido surja do trabalho visando construir um mundo como eu gostaria que fosse, seja por meio de voluntariado, protesto ou doação.

O que mais admiro na religião organizada é a expectativa social de fazer boas obras. E penso que, tanto para aqueles que não acreditam que exista uma rede de segurança moral como para quem acredita que tudo acontece por uma razão, também precisamos entender que é nosso dever trabalhar para construir um mundo mundo mais justo.

Você recomendaria este livro para pessoas religiosas? O que elas acharão do livro?

Muitas pessoas com quem convivo são religiosamente devotas, especialmente membros de várias denominações cristãs. Eu os amo e pensei neles com frequência enquanto escrevia meu livro. Eu não acho que entender os padrões e ritmos da vida na Terra, como eles acontecem e como os humanos os celebram e honraram ao longo do tempo, seja menos interessante para as pessoas que têm uma fé profunda.

Agradeço por escrever um livro que nos dá mais informações sobre a mente de Carl Sagan e sobre um belo relacionamento entre pai e filha. O que você espera que os leitores aprendam com seu livro?

Espero que aprendam que os elementos prováveis e verificáveis da natureza, revelados pela ciência, possam proporcionar esse profundo senso de beleza e alegria. Isso não importa em que você acredita, não importa quais sejam as especificidades de seus costumes ou teologia, em todo o mundo e ao longo do tempo estamos comemorando e marcando as mesmas mudanças: nascimentos, maioridade, morte, estações de ano que passam, etc. Todos nós estamos tentando encontrar o sentido de estarmos vivos neste planeta e processar as infinitas mudanças que compõem nossas vidas.

O que você faz quando não está escrevendo?

Sou mãe de uma menininha muito amável e muito tagarela e esposa de um homem amável por quem me apaixonei a maior parte de minha vida adulta. Viajamos, lemos, fazemos pequenas aventuras a lugares como museus e aquários. Tem sido mais difícil nos últimos anos, mas tento trabalhar voluntariamente sempre que posso. Na verdade, somos muito fortes, eu juro!

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