Esta pode ser a primeira evidência de um calendário maia de 260 dias já encontrado

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Dois dos fragmentos de hieróglifos. Crédito: Projeto Arqueológico Regional de San Bartolo-Xultun.

Por Carly Cassella
Publicado na ScienceAlert

Entre os fragmentos de um antigo mural mesoamericano, arqueólogos da Guatemala descobriram as primeiras evidências inequívocas de um calendário sagrado maia.

Em um pequeno fragmento de um mural que uma vez adornou a parede do templo, vestígios da cabeça de um animal podem ser vistos sob um ponto preto e uma linha contínua – símbolos representando ‘7 Cervo’, um dos 260 dias do calendário.

Outros registros históricos deste calendário sagrado foram encontrados na América Central antes, mas provaram ser difíceis de datar com precisão.

A descoberta é um exemplo muito raro de um hieroglífico claro sobre um dia do ano, que foi talhado em algum momento entre 200 e 300 a.C., de acordo com a análise de radiocarbono.

Isso é mais de mil anos mais velho do que outros hieróglifos de calendário encontrados em outras partes da Guatemala. E dado o quão ‘avançada’ a inscrição parece, os pesquisadores suspeitam que o calendário estava em uso muito antes desta data ser talhada.

“As evidências agora sugerem que não podemos mais destacar uma região da Mesoamérica, como Oaxaca, como ‘o’ ponto de origem para inscrições ou manutenção dos registros de calendário”, escreveram os autores do estudo. “A situação apontaria para uma origem ainda anterior do calendário em algum momento durante o Período Pré-Clássico Médio, se não antes, embora a evidência permaneça indireta”.

A data dos 7 Cervo foi encontrada entre centenas de outros fragmentos nas fundações da pirâmide de Las Pinturas, localizada em San Bartolo, Guatemala.

Esta pirâmide é o lar de várias camadas da história maia, cada uma empilhada uma sobre a outra, que remonta a aproximadamente 800 a.C.

A pirâmide foi a mais recente estrutura a ser construída no local e é famosa por abrigar murais pintados que retratam a mitologia maia.

Debaixo da pirâmide estão várias outras estruturas que já estiveram em seu lugar. Em 2005, escavações abaixo da quinta camada de construção revelaram restos de paredes de gesso, pintadas com hieróglifos.

Esses rabiscos estão entre as primeiras evidências de escrita hieroglífica na região maia.

Agora, escavações subsequentes na mesma camada descobriram o que é possivelmente a evidência mais antiga de um calendário hieroglífico.

A descoberta recente só reforça os apelos para que os murais pintados de San Bartolo sejam classificados como Patrimônio Cultural. Os fragmentos de gesso pintado provavelmente faziam parte de um mural de parede, com algumas superfícies cobertas com tintas misturadas coloridas e outras marcadas por linhas pretas.

A data 7 Cervo, por exemplo, é escrita em um estilo de linha preta.

Os maias são conhecidos por seguirem um calendário sagrado de 260 dias que ainda é usado por algumas comunidades indígenas hoje. Dias individuais neste calendário são nomeados de 1 a 20 em uma ordem definida e se repetem 13 vezes por ano.

O dia 7 Cervo, por exemplo, é seguido por um dia 8 Coelho, um dia 9 Água e um dia 10 Cão.

Os dois fragmentos representando uma data do calendário maia. Créditos: Karl Taube / Projeto Regional Arqueológico de San Bartolo-Xultun.

O fragmento superior é um hieróglifo que mostra claramente a cabeça de um cervo. Acima dessa cabeça, emoldurada por um fundo simples, está uma barra e ponto representando o número 7.

O fragmento inferior, que fica logo abaixo do calendário, inclui outro hieróglifo de significado não descrito. O alinhamento vertical sugere fortemente que a data acima está agindo como uma espécie de legenda para o que vem abaixo.

É possível que o cervo também possa representar um nome, já que às vezes os maias foram nomeados após eventos do calendário (como os nomes April ou August em inglês). Os pesquisadores, no entanto, suspeitam que é mais provável que seja uma data.

Detalhe do símbolo do dia 7 Cervo com cor adicionada para mostrar o fundo emoldurado. Crédito: David Stuart.

“O calendário de 260 dias tem sido um elemento-chave nas definições tradicionais da Mesoamérica como uma região cultural, e sua persistência em muitas comunidades até os dias atuais é um testemunho de sua importância na vida religiosa e social”, escreveram os arqueólogos. “Nossa capacidade de rastrear seu uso inicial há cerca de 23 séculos é outro testemunho de seu significado histórico e cultural”.

O estudo foi publicado na Science Advances.