Estrelas que nascem, estrelas que morrem

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Hawking em um churrasco familiar, com sua primeira esposa, Jane Wilde, e seus filhos Robert e Lucy.

Toda data do calendário acumula significado com o passar dos séculos, e a data 14 de Março acaba de ganhar uma nota amarga ao seu sabor.

A data que marca o aniversário do físico teórico Albert Einstein e o dia do Pi, agora marca também a morte do físico Stephen Hawking, cosmólogo e físico teórico expoente na física moderna e na cultura popular.

O físico é amplamente conhecido tanto como cientista quanto como personalidade. Os seus inúmeros anos de conquistas acadêmicas, sucessos na divulgação científica e luta com a sua doença renderam-lhe fama internacional inquestionável.

Sua particularidade física o tornava uma figura ainda mais reconhecível e distinta. A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que causa paralisia dos músculos esqueléticos, tomou de Hawking muitas de suas capacidades físicas e por pouco não tomou tudo que tinha, se não fosse por um pouco de sorte e muito apoio de amigos e familiares.

Stephen Hawking morreu com 76 anos, mesma idade com que também morreu Einstein. Sua morte foi informada pelos seus filhos, Lucy, Robert e Tim, que afirmaram que o cientista morrera nas primeiras horas da quarta-feira (horário local) em sua casa na cidade de Cambridge, Reino Unido. Em declaração, disseram:

“Nós estamos profundamente entristecidos que nosso amado pai tenha falecido hoje. Ele foi um grande cientista e um extraordinário homem, cujo trabalho e legado viverão por muitos anos”.

Eles exaltaram sua “coragem e persistência”, e disseram que seu “humor e brilhantismo” inspiraram pessoas ao redor do mundo. “Uma vez, ele disse: ‘Este não seria tanto um universo se não fosse lar das pessoas que você ama'”.

Longe de ser uma declaração redigida somente pela emoção, esta declaração é sóbria, assertiva e contínua com tantas outras que vem sendo feitas ao físico desde muito antes de sua morte, dada sua relevância no cenário científico (mesmo que seja no cenário mais “pop” ultimamente).

Hawking veio não só mostrar o que é possível ou não de se fazer, como também veio expor as dificuldades de se fazer. Quem o vê não apenas se inspira a superar as próprias barreiras, como também se inspira ajudar os outros a vencer ou mesmo a desmantelar barreiras desnecessárias.

Antes de morrer, Hawking publicou um artigo com novas hipóteses acerca do modelo (de um modelo) de inflação eterna, um modelo derivado do modelo do Big Bang onde a maior parte dos possíveis fins do universo envolve o surgimento de um multiverso onde o espaço se rompe em inúmeras “bolhas”, inúmeros trechos onde as propriedades físicas variam de um pro outro.

Sua nova hipótese propõe um fim mais “suave” para a inflação eterna onde, ao invés de terminar num número indefinido de universos, haveria um set mais bem definido de universos possíveis. Os desenvolvimentos feitos podem permitir a detecção de outros universos (caso realmente exista um multiverso e da forma como a teoria prevê), mas o paper ainda está sendo revisado.

Uma Breve História de Hawking

Nascimento e carreira

Stephen William Hawking nasceu em 8 de Janeiro de 1942 (na exata data dos 300 anos da morte de Galileu), em Oxford, Reino Unido. Durante o ensino básico, Hawking se aproximou de Dikran Tahta, professor de matemática que o inspirou a se desenvolver e mostrar aptidão para ciências exatas.

Após concluir o ensino básico, procurou por um curso de graduação em matemática, mas como a Universidade de Oxford não estava ofertando vagas em tal curso, Hawking decidiu estudar ciências naturais ao invés disso. Terminada sua graduação, ele iniciou seu programa de pós-graduação no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge, onde foi estudar Cosmologia.

Logo no segundo ano, Stephen foi diagnosticado com ELA, doença degenerativa que lhe rendeu um terrível prognóstico, com expectativa de 2 anos de vida. Essa previsão o fez entrar em depressão e ficar desmotivado a continuar seu trabalho, porém a doença se mostrou de progressão lenta, e com sua expectativa de vida reconsiderada, o físico retomou suas atividades acadêmicas.

Durante seus estudos, se inspirou na tese de singularidades no centro de buracos negros desenvolvido por Roger Penrose e decidiu estender esse pensamento a todo o Universo em sua tese (como sendo seu estado inicial).

Após ter sua tese aprovada em 1966, ganhou uma vaga no programa de pós-doutorado da faculdade de Caius (faculdade constituinte da Universidade de Cambridge), onde fez um ensaio chamado “Singularities and the Geometry of Space-time” (Singularidades e a Geometria do Espaço-Tempo) que o levou a ganhar o prêmio Adams de 1966 junto a Roger Penrose.

De 1966 em diante, Hawking trabalhou em colaboração com Penrose, aprofundando as ideias sobre singularidades e os trabalhos sobre buracos negros, postulando as “quatro leis da mecânica de buracos negros”, traçando uma analogia com as 4 leis da termodinâmica.

A segunda destas leis postulava que buracos negros jamais poderiam diminuir, mas isso conflitou com os trabalhos dos físicos russos Yakov Borisovich Zel’dovich e Alexei Starobinsky, que mostravam que, de acordo com o Princípio da Incerteza, buracos negros em rotação deveriam emitir partículas, o que levaria a uma redução dos mesmos.

Foi destas discussões que Hawking reavaliou suas hipóteses e, concordando com os trabalhos dos russos, chegou à predição de que buracos negros emitem radiação. Essa radiação é hoje conhecida como Radiação de Hawking, uma das suas mais reconhecidas contribuições científicas. A publicação deste trabalho foi considerado um grande avanço na física teórica e Hawking foi eleito um membro da Royal Society poucas semanas depois, sendo um dos cientistas mais jovens na época.

Hawking tomou vários postos como professor a partir de 1970 e em 1973 e continuou a ganhar prêmios, mas foi em 1984 que ele daria seu próximo passo para a fama: Motivado por motivos financeiros, Hawking procurou uma editora popular e por fim fechou contrato com a Bantam Books, editora de larga escala, para publicar um livro sobre física para o público leigo. O primeiro rascunho do livro, chamado “A Brief History of Time” (“Uma Breve História do Tempo”, tanto tradução literal quanto seu nome oficial no Brasil), foi completado em 1984.

O livro foi publicado em 1988 e se provou um enorme sucesso, trazendo Hawking à fama, que seria mantida e ampliada por outras publicações e participações na divulgação científica como o livro “O Universo numa Casca de Noz”, o documentário “O Universo de Stephen Hawking” (Discovery Channel, 2010) e até participações em séries como a famosa sitcom “The Big Bang Theory”.

Ao longo de sua vida, Hawking fez trabalhos em várias áreas da física, como cosmologia, termodinâmica, quântica e teoria da informação, e por estes ganhou mais de 16 prêmios de prestígio.

Stephen também se tornou membro de várias ordens e associações, tendo o título de “Comandante da Exclentíssima Ordem do Império Britânico” (CBE), sendo membro da Ordem dos Companheiros de Honra (CH), da Royal Society (FRS), da Royal Society of Arts (FRSA) dentre várias outras organizações.

Luta com a ELA

Outro fator notório da vida de Hawking foi sua luta com a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que leva à paralisia dos músculos esqueléticos, tornando o portador incapaz de se mover, falar e até de respirar, fator último que causa a morte da maioria das mortes de portadores da doença.

Stephen Hawking foi diagnosticado com ELA em 1963, quando tinha 21 anos. O diagnóstico foi realizado quando Hawking procurou ajuda médica por sua crescente dificuldade em se mover e falar, que o levava se comportar de forma cada vez mais “desajeitada” e a falar de forma arrastada.

O prognóstico inicial, de dois anos de vida restantes, se baseou na progressão comum da doença e na sua expectativa na época (quando além de haver menos recursos se conhecia menos a doença). Porém, a progressão da ELA se mostrou mais lenta do que o esperado, incentivando Hawking a continuar com seus estudos e trabalhos acadêmicos.

A crescente dificuldade em escrever levou Hawking a desenvolver outros métodos visuais compensatórios, como imaginar equações em termos de geometria.

Mesmo após ter que usar muletas e ter grandes dificuldades em se locomover, Hawking inicialmente resistiu a ter que usar cadeira de rodas. Foi necessária muita persuasão para que usasse, e finalmente começou a usar no final da década de 60, quando ficou conhecido pela sua forma selvagem de pilotar a cadeira.

Sua fala continuou a se deteriorar, e já em 1970 só podia ser entendida por seus familiares e amigos próximos. Em 1985, durante uma visita ao CERN, Hawking contraiu pneumonia, que era letal dada sua condição. Hawking precisou fazer uma traqueostomia, que acabou com o restante de sua fala e requeria cuidados 24 horas por dia. Uma fundação americana pagou para que tivesse enfermeiras e cuidados médicos em casa.

Para se comunicar, Hawking precisava levantar as sobrancelhas para escolher dentre letras em cartões que lhes eram apresentados. Foi então, em 1986, que viria o mais importante e característico sistema de auxílio de Hawking: O Equalizer, software que permitia, através de um botão, escolher dentre palavras para montar uma frase que seria então pronunciada.

Inicialmente, o programa rodava em um Desktop, mas David, engenheiro de computação e marido de uma de suas enfermeiras (Elaine Mason, que viria a ser a segunda esposa de Hawking) ajudou a instalá-lo em um pequeno computador anexado à sua cadeira de rodas. Na época, o único sotaque disponível no software era inglês americano e é essa voz que Hawking usou pelo resto de sua vida. Apesar da possibilidade de mudar para uma voz de sotaque britânico que viria a seguir depois, ele optou por continuar com a voz que já tinha.

Visões pessoais

Enquanto cosmólogo, Hawking busca conhecer a evolução do universo, de ponta a ponta – isso é, se houverem “pontas”. Isso inclui pensar no futuro do universo (e logo, no da humanidade).

A nível pessoal, isso obviamente envolve a crença na existência ou não de um criador, rendendo um tema interessante para quem o segue, apesar de que os indivíduos aparentemente mais interessados nesse aspecto de Hawking são os fanáticos religiosos e não seus próprios seguidores.

Além de falar de suas crenças (ou não-crenças) religiosas, Hawking também falou sobre tópicos como o futuro da humanidade, a importância da filosofia, política e outros assuntos.

Hawking sustentava forte preocupação com o futuro da humanidade, que no meio de tanto caos social, econômico e ambiental acabe sucumbindo a guerras nucleares, vírus geneticamente modificados (criados para fins de guerra biológica), a mudança climática ou a outros perigos ainda nem previstos.

Enquanto defendia que deveríamos colonizar outros planetas para evitarmos a extinção por conta de grandes catástrofes, Stephen defendia que deveríamos evitar contato com civilizações alienígenas (se alguma dia viermos a ter), pois poderiam invadir e tomar nosso planeta para explorar seus recursos.

Ele também afirmou que a criação de uma super-inteligência artificial será um dos próximos maiores passos da humanidade, mas que também pode ser um dos últimos, se não soubermos evitar os perigos do desenvolvimento e aplicação desregrados da Inteligência Artificial.

Hawking também fez alegações polêmicas sobre a filosofia, afirmando que esta estaria “morta” e que não é mais necessária no cenário moderno, podendo ser substituída pela ciência. Este assunto foi retratado neste post do Universo Racionalista.

No que se trata de posicionamento político, Hawking foi um apoiador de longa data do Partido Trabalhista, apoiando pautas como o desarmamento nuclear e a saúde universal (saúde pública), temendo que a privatização dos serviços de saúde reduzissem a acessibilidade destes.

No tema religião, Hawking se afirmava ateu. Apesar de algumas vezes usar o termo “Deus” ou fazer analogias com ele, como ao falar sobre “A mente de Deus”, não havia ali uma real intenção de inferir a existência de deus. Seu uso tem vários fins, especialmente em suas obras literárias.

Enquanto não afirmava convictamente a não-existência de um deus, Stephen era incisivo na rejeição sobre a maior parte do imaginário religioso  popular, como na ideia de “céu” ou de um “inferno”.

Referências:

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