Ferradura: quando os opostos se aproximam

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Considere as seguintes situações:

Você está sofrendo de enxaquecas recorrentes, duas ou três vezes na semana você não consegue sair da cama por conta das dores de cabeça. A intensidade aumenta com o passar do tempo e, eventualmente, você tem crises de epilepsia.

Após um período de chuvas intensas em sua cidade, diversas rachaduras começam a aparecer em seu edifício. Algumas com mais de um palmo de largura. Durante a noite é possível escutar o estalar de concreto e de metais. Algumas portas do seu edifício começam a se fechar sozinhas, aparentemente por conta da inclinação de toda a estrutura predial.
Qual seria sua reação ao enfrentar tais situações?

Um médico e um engenheiro poderiam dar respostas satisfatórias em ambos os casos. De qualquer maneira, você saberia onde buscar ajuda.

Por algum motivo, no entanto, diversos setores da sociedade são extremamente relutantes em aceitar a opiniões de especialistas quando determinados assuntos são trazidos à tona. Na maioria das vezes, o fator motivador da discordância se esconde atrás de religiosidade ou doutrinas econômicas.

O que se segue é um misto de viés de confirmação temperado com o efeito Dunning-Kruger.

images (2) Três temas em especial me chamam a atenção no quesito “negação do público”. São eles: Biologia evolutiva, transgênicos e mudanças climáticas.

Os criacionistas foram minha primeira experiência online, no início dos anos 2000, com o negacionismo da ciência. Eu ainda estava na graduação, mas me deparava com os mais absurdos argumentos criacionistas e, independente da consistência dos argumentos contrários, os defensores das ideias criacionistas não recuavam.

Passados mais de dez anos, pouco mudou na abordagem do grupo. Não é necessário muito esforço para encontrar apelo à autoridade, non sequitur, ad hominem e tantas outras falácias utilizadas em sequência. Qualquer oposição é rechaçada com afirmações falaciosas, versões adultas do comportamento infantil de tapar os ouvidos e gritar “lá lá lá lá”.

Para tornar o cenário ainda mais interessante, os argumentos produzidos pelos negacionistas se comportam como zumbis!

As afirmações desses grupos sempre retornam depois de contrapostas, nesse sentido, enquanto a ciência acumula conhecimento através de testes e rejeição, os negacionistas literalmente acumulam toda sorte de informação, correta ou não, rejeitada ou não.
De todas as formas de negacionismo, o criacionismo é talvez a mais evidente.

O criacionismo carece de produção técnica, não pode ser enquadrado em qualquer ramo da ciência e possui uma agenda parcialmente desmascarada através da Estratégia da Cunha [1]. Em resumo, o criacionismo é parte de uma agenda religiosa ligada a setores conservadores da direita cristã anglófana.

Há de se considerar, no entanto, que o público médio aceita bem o conjunto de ideias criacionistas, não é preciso ir longe. Basta acompanhar as fanpages do Universo Racionalista ou Bule Voador em postagens a respeito de evidências da evolução.

Os criacionistas sempre dão as caras e quase sempre estão acompanhados do discurso religioso!

Temos de assumir, os criacionistas tem obtido êxito na disseminação de suas ideias, já contamos inclusive com um Congresso no tema apoiado por uma Universidade que tem o criacionismo em sua raiz [2].

Não menos infundadas, mas mais difíceis de refutar, estão as propostas dos negacionistas das mudanças climáticas. O grupo surgiu de maneira similar ao criacionismo moderno, nos países anglófanos, majoritariamente nos Estados Unidos. No entanto, as motivações são um pouco distintas.

Embora bem aceito nos círculos religiosos, os negacionistas das mudanças climáticas estão mais frequentemente associados a opositores da interferência estatal na economia.

Com o crescimento das informações acerca das mudanças climáticas, no final da década de 1990, algumas corporações manifestaram aceitação da perspectiva de influência humana no clima e a necessidade de redução das emissões de carbono para a atmosfera. No início dos anos 2000, no entanto, diversas dessas corporações mudaram suas posições e começaram a financiar ativistas do negacionismo das mudanças climáticas [3].

Inúmeros casos emblemáticos vieram à tona recentemente. Como a Exxon Mobil, que embora soubesse a respeito das mudanças climáticas já em 1981, financiou negacionistas durante 27 anos seguintes [4].

Em 2013, Robert Brulle publicou um trabalho analisando o financiamento de movimentos de negacionismo das mudanças climáticas. Em suas análises, foi elucidada a nova estratégia de financiamento destes grupos, majoritariamente mantida através de doações não identificáveis de comunidades como a DonorsTrust – que promove ideais ultra liberais e de limitação das ações governamentais – enquanto isso, doações de grupos como Exxon Mobil caíram drasticamente [5].

Apesar de financiados por grupos econômicos fortes, os negacionistas ainda se apresentam como defensores da verdade lutando contra um paradigma científico dominante.

É interessante notar que a principal estratégia para disseminação do discurso negacionista neste caso é a produção de bibliografia no tema. Apenas para se ter ideia da velocidade de desenvolvimento do grupo, nos EUA entre 1980 e 2000 foram lançados 24 livros no tema. Entre os anos de 2000 e 2010 o número saltou para 84 livros [3].

O que se nota é que livros acabam conferindo um valor de legitimidade ao discurso negacionista e seus autores, enquanto boa parte dos pesquisadores da área está preocupada em publicar dados em periódicos revisados, os opositores estão fazendo um ótimo serviço de desinformação, atingindo o coração da opinião pública e reduzindo criticamente a aceitação do problema global das mudanças climáticas antropogênicas.

No lado oposto do espectro político, mas não tão distantes assim, estão os opositores aos transgênicos. No Brasil este grupo está mais inserido em movimentos sociais da esquerda e grupos autointitulados progressistas.

Uma das características mais marcantes desta ala negacionista é a oposição absoluta à técnica e seus produtos. Veja bem, mesmo entre criacionistas há certa aceitação de parte do processo evolutivo, enquanto os negacionistas de mudanças climáticas muitas vezes querem apenas livrar os humanos da culpa. Já entre os opositores da biotecnologia o discurso é mais incisivo.

A atuação desses grupos se baseia na ideia de natureza pura, em oposição à indústria e ao capital multinacional, onde produtores que não utilizam sementes transgênicas mantêm o equilíbrio e sustentabilidade agrícola.

Embora haja consenso a respeito da segurança dos transgênicos [6, 7, 8, 9, 10], os negacionistas utilizam argumentos ad hoc na manutenção da oposição, apelando inclusive para teorias conspiratórias.

Recentemente, seguindo a liberação de mosquitos transgênicos pela empresa Oxitec, com a finalidade de avaliar a eficácia desta técnica no combate ao Aedes aegypti – em Piracicaba -SP – surgiram diversas publicações de cunho conspiratório alegando a ligação entre o mosquito liberado e a epidemia de zika vírus pelo país [11].

Outras ideias conspiratórias causaram e causam impactos ainda mais profundos. Um deles envolve a oposição do Greenpeace ao Golden Rice, uma variedade geneticamente modificada de arroz, produzida com a finalidade de fortalecer a alimentação de populações em áreas com deficiência de vitamina A. A deficiência em vitamina A que leva a morte de mais de 600 mil crianças com idade inferior a cinco anos anualmente.

O mais assustador nesta frente opositora é que os argumentos não são contra a técnica, focando apenas na planta transgênica. Alguns opositores alegam que a introdução do Golden Rice abriria as portas para a tecnificação da agricultura, como se tecnificar praticas rudimentares em locais miseráveis pudesse aprofundar os problemas sociais decorrentes da miséria.

Enquanto isso, apesar da oposição, soluções efetivas para o problema da deficiência de vitamina A não foram apresentadas [12, 13, 14].

No cenário nacional alguns grupos lançaram mão inclusive de violência e depredação de patrimônio como forma de “protesto” contra transgênicos. Os casos mais emblemáticos envolveram a invasão de centros de pesquisa e produção, seguidos da destruição de material de genético por integrantes do MST e Via Campesina [15, 16, 17].

De maneira similar aos demais movimento negacionistas, fica clara a função política dos movimentos antitransgênicos. A preocupação com a técnica é suplantada pelo apelo emotivo e falácias do declive escorregadio. Mesmo nos meios mais informados a oposição surge como marca política.

Atualmente, o ENEBio – Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia é um dos grupos de maior oposição à biotecnologia dentro de Universidades Públicas, com o apoio de grupos como o MST o ENEBio promove ações opostas ao que se esperaria de propostas de extensão universitária.

Em todos os casos de negacionismo da ciência o que observa é um pano de fundo padrão. Sejam criacionistas, antitransgênicos ou negacionistas das mudanças climáticas, há sempre uma agenda política por trás de um discurso. Na maioria dos casos os grupos negacionistas não produzem pesquisas, não possuem especialista dentro da área de oposição e apelam a falsas autoridades que, frequentemente, utilizam informações distorcidas para manter posição contrária.

Em todos os casos é fácil entender a ampla aderência do público. Ter valores pessoais confrontados pode causar muito desconforto e a adoção de comportamentos defensivos como viés de confirmação e aceitação de avaliações simplórias são comportamentos comuns.

O pensamento científico exige aprofundamento e compreensão de conceitos densos, que tomam tempo e recursos, nem sempre disponíveis ou então simplesmente preteridos frente a explicações sem embasamento e de fácil entendimento.

Como complicador, o modelo de produção científica, focado no publish or perish, dificulta o engajamento de pesquisadores e autoridades das áreas. Preocupados com a produção de material técnico-científico e enfrentando a proliferação desenfreada de livros, blogs e discursos sem embasamento é quase impossível para um pesquisador em início de carreira dispensar tempo no combate direto a esse tipo de informação.

Dessa forma, podemos esperar mais movimentos de negação da ciência, apoiados em questões políticas e cada vez mais disseminados dadas as facilidades trazidas pelas mídias digitais e as dificuldades impostas pelo analfabetismo científico.

FONTES:

1.http://www.antievolution.org/features/wedge.pdf

2.http://www.unasp-ec.edu.br/noticia/1752/noticia.html

3.Climate Change Denial Books and Conservative Think Tanks: Exploring the Connection – Riley E. Dunlap & Peter J. Jacques

4.https://www.theguardian.com/environment/2015/jul/08/exxon-climate-change-1981-climate-denier-funding

5.http://www.scientificamerican.com/article/dark-money-funds-climate-change-denial-effort/

6.http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2015/07/are_gmos_safe_yes_the_case_against_them_is_full_of_fraud_lies_and_errors.html

7.http://www.agrobio.org/bfiles/fckimg/Nicolia%202013.pdf

8.http://www.fao.org/docrep/006/Y5160E/y5160e10.htm#P3_1651The

9.http://www.genetics.org/content/188/1/11.long

10.http://gaiapresse.ca/images/nouvelles/28563.pdf

11.http://www.verdadeabsoluta.com/2015/12/mosquito-transgenico-causou-a-zika-e-a-microcefalia-verdade.html

12.http://online.sfsu.edu/rone/GEessays/goldenricehoax.html

13.http://www.reuters.com/article/us-genetically-modified-rice-idUSBRE87E0RO20120815

14.http://link.springer.com.sci-hub.cc/article/10.1007%2Fs10790-009-9189-1

15.http://g1.globo.com/sao-paulo/itapetininga-regiao/noticia/2015/03/mst-invade-fabrica-e-destroi-milhares-de-mudas-geneticamente-modificadas.html

16.http://www.canalrural.com.br/noticias/noticias/mst-invade-fazenda-utilizada-para-pesquisas-parana-58344

17.https://pib.socioambiental.org/en/noticias?id=40960

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