Filhote de leão-das-cavernas congelado por 28 mil anos é encontrado quase intacto

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Créditos: Love Dalén / Centro de Paleogenética / Twitter.

Por Carly Cassella
Publicado na ScienceAlert

Um filhote de leão-das-cavernas de quase 28.000 anos, descoberto congelado no pergelissolo da Sibéria, está tão bem preservado que você ainda pode ver cada um de seus bigodes.

Pesquisadores na Suécia afirmam que o filhote, apelidado de Sparta, é provavelmente o animal da Idade do Gelo mais bem preservado já descoberto e o ele foi descrito no Quaternary. Seus dentes, pele e tecidos moles foram todos mumificados pelo gelo. Até seus órgãos permanecem intactos.

Até o momento, Sparta é o quarto filhote de leão-das-cavernas (Panthera spelaea) encontrado abaixo do pergelissolo de Iacútia, que fica no nordeste da Rússia. Ele foi descoberto em 2018 pelo residente local Boris Berezhnev, que procurava antigas presas de mamute na tundra.

À medida que a caça e o comércio de animais selvagens se tornaram mais restritos, ‘caçadores de presas’ como Berezhnev começaram a procurar por marfim antigo no norte gelado. Com a mudanças climáticas enfraquecendo o pergelissolo e estendendo a temporada de caça às presas, estamos encontrando mais vestígios antigos – e não apenas de mamutes-lanudos.

Nos últimos anos, os residentes na Sibéria retiraram rinocerontes-lanudoslobos, ursos-pardos, cavalos, renas e bisões do pergelissolo, e algumas dessas carcaças datam de 40.000 anos.

Claramente, essas estepes geladas já abrigaram vários mamíferos de grande porte. Na verdade, um ano antes de encontrar Sparta perto do rio Semyuelyakh, Berezhnev encontrou outra carcaça de leão-das-cavernas a apenas 15 metros de distância.

Este, chamado Boris, mostrou um pouco mais de dano, possivelmente devido ao colapso de sua caverna no pergelissolo, mas ainda estava incrivelmente intacto.

Pesquisadores na Suécia, que desde então ajudaram a analisar as carcaças, afirmam que Boris e Sparta têm cerca de um a dois meses de idade. No entanto, apesar de sua proximidade física e aparências semelhantes, Boris é considerado cerca de 15.000 anos mais velho, mais ou menos alguns séculos.

Hoje, o pouco que sabemos sobre os leões-das-cavernas vem principalmente de fósseis, rastros e arte em cavernas antigas.

Corpos mumificados encontrados em pergelissolo são algumas das melhores evidências que temos de sua existência. Suas carcaças congeladas se parecem notavelmente com os leões modernos em muitos aspectos, apenas em uma escala muito maior e com uma pelagem muito mais quente. Mas uma das características mais icônicas dos leões-africanos, sua juba, parece estar ausente dos leões-das-cavernas.

Na verdade, as primeiras obras de arte humanas da época sugerem que os leões-das-cavernas raramente ostentavam jubas, ou se sim, eram extremamente discretas. Algumas pinturas da Idade do Gelo, por exemplo, mostram padrões de cores escuras no rosto do leão-das-cavernas, mas não está claro o que isso representa.

Boris e Sparta são leões-das-cavernas infantes, o que significa que é difícil dizer como suas pelagens teriam se desenvolvido à medida que envelheciam. Além de algumas colorações escuras na parte de trás das orelhas, os pesquisadores dizem que elas são geralmente cobertas por uma pele marrom-amarelada.

Se os filhotes tivessem a chance de crescer, os especialistas acreditam que seu pelo provavelmente teria ficado mais cinza claro para ajudá-los a se camuflar no frio do Ártico Siberiano.

A presença de uma juba é importante porque pode nos dizer sobre as estruturas sociais dos leões-das-cavernas. Por exemplo, se eles vivem sozinhos ou em grupos com hierarquias claras.

No momento, os cientistas ainda estão debatendo se os leões-das-cavernas durante a Idade do Gelo vagavam pelas estepes da Sibéria por conta própria ou em bando como os leões-africanos modernos.

Há uma pintura em particular na caverna de Chauvet da França, da Idade do Gelo, que retrata quase uma dúzia de leões-das-cavernas, machos e fêmeas, no ato de caçar bisões.

“A caça em grupos pode ser mais eficaz do que a caça solitária quando a presa é grande, e os leões-das-cavernas teriam muitas dessas espécies de presas disponíveis em seu ecossistema, por exemplo, mamutes e rinocerontes, quando não havia outras opções disponíveis para eles”, escreveram os autores da análise recente.

“Além disso, grandes bandos teriam ajudado a proteger sua caça da competição e também a proteger os filhotes de predadores”.

Por enquanto, tudo isso é apenas adivinhação. Embora tenhamos encontrado alguns leões das cavernas incrivelmente intactos nos últimos anos, ainda não temos informações suficientes sobre esses predadores extintos para chegar a qualquer conclusão sobre suas estruturas sociais.

Talvez um dia isso mude. Talvez possamos desenterrar outro leão-das-cavernas com alguma pista sobre suas vidas perdidas há muito tempo. Ou talvez um dia, possamos trazer os leões das cavernas de volta à vida com sucesso.

“Há uma chance muito realista de recriar leões-das-cavernas, e seria muito mais fácil do que clonar um mamute-lanudo”, disse o paleontólogo e um dos autores do estudo, Albert Protopopov, ao Siberian Times.

Alguns cientistas sugeriram que poderíamos fazer isso com mamutes-lanudos também, mas os leões-das-cavernas são uma espécie muito mais recente. Protopopov sugere que poderíamos complementar seus clones com alguns dos genes de leões-africanos modernos, tornando o trabalho um pouco mais fácil.

Essa é obviamente uma ideia controversa, e a realidade dela provavelmente ainda está um pouco distante.

Por enquanto, a próxima etapa é sequenciar todo o genoma de Sparta e Boris. Então, podemos descobrir o que fazer com as informações que coletamos.

O estudo foi publicado no Quaternary.