Filosofia Analítica vs. Continental

Alguns de vocês devem saber da divisão que existe na filosofia contemporânea entre estilos “analítico” e “continental”, mas não saber de que se trata essa divisão ou por que a filosofia analítica é melhor. Esse texto é para resolver isso.

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Publicado em Fake Nous
Autor: Michael Huemer
Tradução: Elan Marinho

I. Sobre a filosofia analítica

A filosofia analítica é escrita sobretudo em países de língua inglesa (Inglaterra, Estados Unidos, etc.). Pense em pessoas como G. E. Moore, Bertrand Russell, A. J. Ayer, e na maioria das pessoas nos departamentos de filosofia de alto nível nos EUA hoje.

Filósofos “analíticos” costumavam ser pessoas que pensavam que a principal tarefa da filosofia deveria ser analisar a linguagem (explicar o significado das palavras), ou analisar os conceitos. Mas agora eles são basicamente apenas pessoas que fazem filosofia em um certo estilo (independentemente das suas visões substantivas).

Que estilo é esse? Em geral, há uma justa tentativa de dizer de modo claro o que se quer dizer, dar argumentos lógicos para as teses e responder (de modo lógico) às objeções dos argumentos.

Além disso, ainda há atenção razoável a questões sobre o significado de palavras, ou sobre as relações lógicas e semânticas entre conceitos, que são questões de interesse filosófico. Se um filósofo analítico está discutindo justiça, você pode usualmente esperar uma discussão sobre tais coisas em termos do significado de “justo”; como o conceito de justo se relaciona a conceitos como “justiça” ou “retidão”; etc.

II. Sobre a filosofia continental

A filosofia continental vêm principalmente de países da Europa continental, sobretudo da França e da Alemanha. Pense em pessoas como Heidegger, Foucault e nos existencialistas.

O estilo é amplamente oposto ao da filosofia analítica. Os escritores continentais tendem a ser muito menos claros sobre o que dizem do que os filósofos analíticos. Eles não vão, por exemplo, definir de modo explícito seus termos antes de prosseguir. Eles usam mais metáforas sem nenhuma explicação literal, e eles usam mais jargões abstratos e idiossincráticos.

Quando eles avançam em uma ideia, meio que dão argumentos a favor, mas é difícil isolar premissas específicas e passos de raciocínio. Um autor continental nunca vai dizer a você que ele tem três premissas em seu argumento, e então escrevê-las abaixo como sentenças (1), (2), (3) (como os filósofos analíticos costumam fazer). Você também encontraria muito pouco esforço de responder às objeções ou de confrontar teorias alternativas. Eles dizem coisas que deveriam levá-lo ao longo de uma linha de pensamento. Ao final, é muito difícil responder questões como “Quantas premissas haviam ali?”, “Qual foi a segunda premissa?”, e “Qual foi a primeira objeção?”.

*Acima: Heidegger, um rebento da filosofia continental, foi literalmente um nazi, que é uma visão de “direita”. Então, uma afirmação mais completa poderia ser a de que os filósofos continentais têm mais probabilidade de se inclinarem às visões políticas extremas, malucas e horríveis, como o comunismo e o fascismo.

Existem também certos temas doutrinários. Os trabalhos em filosofia continental estão muito mais propensos do que os da filosofia analítica a comunicar algum tipo de subjetivismo ou de irracionalismo. Isto é, você está mais propenso a encontrar passagens que (quando meio que vagamente procura o que elas podem ter querido dizer) parecem ser defesas de que a realidade depende de observadores, que não é possível nem desejável pensar com objetividade, ou que não é possível nem desejável ser racional.

Os filósofos analíticos tendem a se inclinar politicamente para a esquerda, ao passo que os filósofos continentais tendem a se inclinar mais à extrema esquerda (mais do que outros filósofos)*

III. Carnap vs. Heidegger

Não é possível mencionar a divisão analítica/continental sem mencionar o desacordo entre o (filósofo continental) Martin Heidegger e o (filósofo analítico) Rudolf Carnap. Em “Superação da metafísica pela análise lógica da linguagem”, Carnap discute enunciados sem sentido que podem ser produzidos na linguagem natural. Ele nos dá um exemplo no seguinte trecho de Heidegger:

Investigado deve ser apenas o ente e mais – nada; somente o ente e além dele – nada; unicamente o ente e para além disto – nada. Que acontece com este nada? (…) Há o nada apenas porque há o não, isto é, a negação? Ou ocorre o contrário? Existe a negação e o não apenas por que há o nada? (…) Nós afirmamos: o nada é mais originário que o não e a negação (…) Onde procuramos o nada? Onde encontramos o nada? (…) Nós conhecemos o nada. (…) A angústia torna manifesto o nada. (…) Diante de que e por que nós nos angustiávamos não era ‘propriamente’ – nada. De fato: o próprio nada – enquanto tal – estava aí. (…) O que acontece com o nada? (…) O próprio nada nadifica.[1]

(Nota: isso é muito mais claro do que a maioria dos escritos de Heidegger)

Carnap prossegue com a explicação de (pelo uso da lógica de predicados) como, em uma linguagem lógica apropriada, tais afirmações não poderiam estar bem formuladas.

IV. A filosofia analítica é obviamente melhor

Muitas pessoas interessadas em filosofia continental são pessoas perfeitamente agradáveis. Dito isso, filosofia analítica é obviamente melhor. Por quê?

A. Estilo

Minha descrição acima da diferença entre as duas escolas deve deixar claro o porquê de eu dizer que a filo analítica é melhor. Esses pontos:

1. Teses claras
2. Argumentos claros e lógicos
3. Respostas diretas às objeções

Eu diria que essas são as virtudes principais da escrita filosófica (ou de outra atividade intelectual). E, de qualquer modo, eu não acho que minha descrição da diferença entre Filo Analítica e Continental é muito controversa. Acho que quase qualquer um que olhasse um apanhado dos dois tipos de trabalho perceberia essas três diferenças.

Por que esses pontos são tão importantes? Porque (e eu assumo isso sem argumentar) trabalhos filosóficos têm um propósito cognitivo. O propósito é aprimorar o conhecimento e a compreensão do leitor sobre algo. O propósito não é, e.g., confundir as pessoas, ou impressioná-las com seu vocabulário, ou fazê-las gostar de contemplar sentenças com estrutura complexa, ou induzir as pessoas a calar a boca e pararem de te questionar.

Para o trabalho ampliar o conhecimento e a compreensão da audiência, é geralmente necessário que o leitor entenda o que o trabalho está dizendo. Logo, a expressão clara é uma virtude fundamental da escrita filosófica.

Além disso, para aprimorar o conhecimento e a compreensão filosófica de um leitor, deve-se geralmente ter que dar a ele boas razões para acreditar no que se está dizendo. Isso porque, na maioria dos casos, as ideias filosóficas que valem a pena discutir não são tão autoevidentes tal que os leitores possam assumi-las ao ver suas verdades imediatamente após serem afirmadas. Usualmente, a principal tese de alguém é algo do qual outras pessoas inteligentes poderiam discordar.

Portanto, se os leitores adotarem racionalmente a sua posição, eles em geral precisarão de razões para isso. Além disso, eles em geral vão precisar entender o que há de errado com as principais objeções que outros filósofos levantariam. Se, em vez disso, eles adotarem a visão do filósofo por causa das suas habilidades retóricas, porque eles estão impressionados com sua sofisticação, porque o filósofo os confundiu a ponto de não pensarem em objeções, etc., então eles não terão adquirido conhecimento nem entendimento sobre o assunto.

Então, dar argumentos lógicos e responder às objeções também são virtudes fundamentais do trabalho filosófico.

Você pode pensar que isso tudo é trivial e que não é necessário de ser explicado. Mas parece que muitas pessoas (que preferem o estilo continental em vez do analítico) não apreciam esses pontos.

B. Doutrinas

A outra coisa apontada é que as doutrinas substantivas mais comumente associadas aos filósofos continentais são falsas.

(1) Existe uma realidade objetiva.

Por exemplo, quando você fecha seus olhos, o resto do mundo não deixa de existir. O mundo já existia muito antes de existirem observadores humanos (ou mesmo observadores não-humanos). A Terra estava aqui há 4,5 bilhões de anos, enquanto que humanos observadores só vieram a existir por volta de 20.000 a 2 milhões de anos (dependendo do que você conta como “humano”). Logo, o mundo não depende de nós.

Qual é a objeção a isso? Até onde posso dizer, há um argumento principal contra a existência da realidade objetiva. A versão de sua primeira aparição, até onde eu sei, é a de Berkeley. O argumento de Berkeley era algo como isso (minha reconstrução):

1. Se x é inconcebível, então x é impossível. (premissa)
2. Não é possível conceber uma coisa sobre a qual ninguém pensa. (premissa)
Explicação: se você concebe x, então você está pensando x.
3. Logo, [uma coisa sobre a qual ninguém pensa] é inconcebível. (De 2)
4. Logo, [uma coisa sobre a qual ninguém pensa] é impossível. (De 1, 3)
5. Se existisse uma realidade objetiva, então seria possível haver coisas sobre as quais ninguém pensa. (Do significado de “objetivo”)
6. Logo, não há realidade objetiva (De 4, 5)

(David Stove refere-se a esse argumento como “a Pérola” (“the Gem“), e ele o concedeu o prêmio de Pior Argumento do Mundo.)

Aqui, vou apenas apontar alguns equívocos em (2). Em linguagem analítica, ele tem uma ambiguidade de escopo. O problema é que 2 poderia ser lido ou como 2a ou como 2b:

2a. Não é possível: [Para algum x,y, (x conceber y, e ninguém pensar que y)]
2b. Não é possível: [Para algum x, (x conceber: {para algum y, ninguém pensar que y})]

A leitura 2a é necessária para a premissa ser verdadeira, mas a leitura 2b é necessária que 3-6 se sigam.

Normalmente, o argumento para o subjetivismo é estabelecido de maneira muito menos clara. Usualmente, pessoas dizem algo que soa mais como isso:

“É impossível para nós sabermos qualquer coisa sem usarmos nossas mentes/esquemas conceituais/percepções/etc. Logo, nós podemos apenas saber das coisas-como-nós-as-concebemos/como-nós-as-percebemos/como-nossas-mentes-as-representam/etc. Logo, não faz sentido falar sobre coisas tais como elas são. Logo, a ideia de ‘realidade objetiva’ apenas não faz sentido; é sem sentido”

Estou fazendo o meu melhor para entender os tipos de argumentos que ouvi e fazê-los soar de maneira lógica, mas quando você ouve os subjetivistas reais conversando, é usualmente bem menos claro do que isso (Bispo Berkeley foi, na verdade, o subjetivista mais claro).

De qualquer modo, a afirmação acima é essencialmente uma (mais confusa) versão da Pérola, basicamente tem o mesmo erro. O erro é confundir a afirmação de que um dado objeto de conhecimento é representado por uma mente particular com a ideia de que o fato de que ser representado por essa mente faz parte do conteúdo de sua representação.

Em outras palavras: eu apenas consigo imaginar a Terra quando eu a estou imaginando. Não se segue disso que eu só posso imaginar a Terra como sendo imaginada por mim. I.e., não se segue disso que eu não possa imaginar a Terra estando lá quando eu não estava por perto. (E seria muito tosco negar que eu possa fazer isso)

(2) Ser racional & objetivo

Eu não vou discutir detalhadamente o porquê você deveria pensar racionalmente. Acho que isso é basicamente uma tautologia. (O pensamento racional é apenas o pensamento correto. Se houvesse uma boa razão para “não ser racional”, isso apenas provaria que o que você está chamando de “não ser racional” é, na verdade, racional.)

Mas eu vou apenas comentar sobre o que está acontecendo quando um pensador começa a atacar a racionalidade ou a objetividade. Para ser justo, poucas pessoas dirão com sinceridade, “Ei, eu sou irracional, e você deveria ser também!” (muito porque “irracional” soa de forma pejorativa). Mas você pode ouvir pessoas rejeitando dogmas centrais da racionalidade, como o de que devemos nos empenhar para sermos objetivos e consistentes.

Então, está aqui o que eu penso que está acontecendo quando isso ocorre: o pensador sabe que ele mesmo está errado. Ele não sabe disso explicitamente, é claro; ele está enganando a si mesmo, e está tentando manter um autoengano. Se você está errado, e se você quer continuar mantendo suas crenças falsas, então você sabe de maneira implícita que você precisa evitar pensar racional ou objetivamente. Você também tem que evitar deixar que as coisas sejam declaradas de forma clara. Névoa, viés e confusão são as chaves para que você continue mantendo crenças falsas.

(Como alternativa, o pensador pode simplesmente querer que outras pessoas mantenham crenças falsas, e saber que o viés e a confusão são as chaves para tornar isso possível)

Então, quando eu ouço alguém mais ou menos atacando a racionalidade e a objetividade, ou tentando evitar formular ideias claras, eu tomo isso como quase que uma prova de que o resto do que a pessoa tem a dizer está errado.

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[1] Para evitar confusões de tradução, essa citação de Heidegger foi retirada da tradução do texto de Carnap para o português, cf. http://www.revistas.usp.br/filosofiaalema/article/view/123996

Tradução gentilmente autorizada pelo filósofo Michael Huemer.

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