‘Fóssil vivo’ pensado estar extinto por 273 milhões de anos é encontrado no fundo do oceano

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Créditos: Zapalski et al., Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 2021.

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Uma relação simbiótica entre duas formas de vida marinha acaba de ser descoberta prosperando no fundo do oceano, após desaparecer do registro fóssil por centenas de milhões de anos.

Os cientistas encontraram corais não esqueléticos crescendo a partir de pedúnculos de animais marinhos conhecidos como crinoides, ou lírios-do-mar, no fundo do Oceano Pacífico, ao largo das costas de Honshu e Shikoku no Japão.

“Esses espécimes representam os primeiros registros detalhados e as primeiras análises de uma recente associação sin vivo de um crinoide (hospedeiro) e um hexacoral (epibionte)”, escreveram os pesquisadores em seu estudo, “e, portanto, as análises dessas associações podem esclarecer e contribuir para a nossa compreensão dessas associações paleozoicas comuns”.

Durante a era Paleozoica, crinoides e corais parecem ter se dado muito bem. O registro fóssil do fundo do mar está repleto disso, rendendo inúmeros exemplos de corais que cresceram demais em pedúnculos de crinoides para escalar acima do fundo do mar na coluna de água, buscando correntes oceânicas mais fortes para alimentação por filtro.

No entanto, esses melhores amigos bentônicos desapareceram do registro fóssil há cerca de 273 milhões de anos, depois que os crinoides e os corais específicos em questão foram extintos. Outras espécies de crinoides e corais surgiram no Mesozoico, após a extinção do Permiano-Triássico – mas nunca mais os vimos juntos em uma relação simbiótica.

Créditos: Zapalski et al., Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 2021.

Bem, até agora. Em profundidades superiores a 100 metros abaixo da superfície do oceano, os cientistas encontraram duas espécies diferentes de coral – hexacorais do gênero Abyssoanthus, que é muito raro, e Metridioidea, um tipo de anêmona-do-mar – crescendo a partir de pedúnculos de lírios-do-mar-japoneses vivos (Metacrinus rotundus).

A equipe conjunta de pesquisa polonesa-japonesa, liderada pelo paleontólogo Mikołaj Zapalski, da Universidade de Varsóvia, na Polônia, usou pela primeira vez a microscopia estereoscópica para observar e fotografar as espécimes.

Em seguida, eles usaram microtomografia não destrutiva para fazer uma varredura nas espécimes visando revelar suas estruturas internas e códigos de barras de DNA para identificar as espécies.

Eles descobriram que os corais, que se fixavam abaixo dos braços dos crinoides, provavelmente não competiam com seus hospedeiros por comida; e, sendo não esquelético, provavelmente não afetou a flexibilidade dos pedúnculos dos crinoides, embora a anêmona possa ter impedido o movimento dos cirros do hospedeiro – fios finos que revestem os pedúnculos.

Também não está claro quais benefícios os crinoides ganham com um relacionamento com o coral, mas uma coisa interessante foi revelada: ao contrário dos corais paleozoicos, os novos espécimes não modificaram a estrutura do esqueleto dos crinoides.

Isso, disseram os pesquisadores, pode ajudar a explicar a lacuna no registro fóssil. Os fósseis paleozoicos de corais simbióticos e crinoides envolvem corais que possuem um esqueleto de calcita, como Rugosa e Tabulata.

Fósseis de organismos de corpo mole – como corais não esqueléticos – são raros. Zoantharia como Abyssoanthus não tem registro fóssil confirmado, e Actiniaria como Metridioidea (a espécime morta mostrada na imagem abaixo) também são extremamente limitados.

Créditos: Zapalski et al., Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 2021.

Se esses corais não modificam o hospedeiro e não deixam nenhum registro fóssil, talvez eles tenham uma longa relação com os crinoides que simplesmente não foi registrada.

Isso significa que a relação moderna entre o coral e o crinoide pode conter algumas pistas sobre as interações paleozoicas entre o coral e o crinoide. Há evidências que sugerem que zoantários e corais rugosos compartilham um ancestral comum, por exemplo.

O número de espécimes recuperados até agora é pequeno, mas agora que sabemos que eles estão lá, talvez mais trabalho possa ser feito para descobrir a história desta amizade fascinante.

“Como a Actiniaria e a Zoantharia têm suas raízes filogenéticas profundas no Paleozoico, e as associações coral-crinoide eram comuns entre os corais Paleozoicos Tabulata e Rugosa, podemos especular que também os corais Paleozoicos não esqueléticos podem ter desenvolvido esta estratégia de fixação em crinoides”, escreveram os pesquisadores em seu estudo.

“As associações coral-crinoide, características das comunidades bentônicas paleozoicas, desapareceram no final do Permiano, e este trabalho atual representa a primeira análise detalhada de sua redescoberta nos mares modernos”.

A pesquisa foi publicada em Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.