Fotos perdidas sugerem que os europeus estavam mumificando seus mortos muito mais cedo do que pensávamos

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Arapouco 1962, esqueleto desconhecido 3 em posição hiperflexionada que indica mumificação. Créditos: Peyroteo-Stjerna et al., Eur. J. Archaeol., 2022.

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Arqueólogos podem ter descoberto evidências da mais antiga prática conhecida de mumificação.

Restos humanos enterrados há 8.000 anos no Vale do Sado, em Portugal, durante o Mesolítico, parecem ter sido deliberadamente tratados para mumificação antes do sepultamento. Esta é a primeira evidência de mumificação mesolítica na Europa.

É também possivelmente a mais antiga do mundo. Anteriormente, a primeira evidência que tínhamos de mumificação deliberada datava de 7.000 anos atrás, nas múmias de Chinchorro encontradas no deserto de Atacama, no Chile.

No Egito, famoso por seus antigos costumes funerários, a evidência mais antiga que temos de mumificação deliberada é de 5.600 anos atrás.

“Nosso estudo combina análise arqueotanatológica norteada por pesquisas tafonômicas experimentais, adicionando assim uma nova dimensão à nossa compreensão das práticas mortuárias mesolíticas”, escreveu uma equipe de pesquisadores liderada pela arqueóloga Rita Peyroteo-Stjerna, da Universidade de Uppsala, na Suécia. “Aqui apresentamos o que acreditamos ser uma evidência de mumificação intencional e refletimos sobre as atitudes em relação ao corpo e o manuseio dos mortos, incluindo seu transporte para locais significativos na paisagem”.

Arqueólogos e antropólogos acreditam que a mumificação pode não ter sido incomum nas eras pré-históricas, mas a evidência disso é um pouco difícil de encontrar. O tecido mole, não importa quão bem mumificado, tende a se degradar com o tempo. Até as múmias Chinchorro estão agora em decomposição.

Os restos do Vale do Sado, descobertos no início da década de 1960, têm muito pouco tecido mole. Embora obviamente colocados deliberadamente, os sepultamentos foram considerados bastante simples. Os restos mortais foram desenterrados e removidos para o Museu Nacional de Arqueologia em Portugal, juntamente com croquis e algumas fotografias do local de baixa qualidade, o que limitou o estudo de acompanhamento.

Recentemente, porém, na sequência da morte do arqueólogo Manuel Farinha dos Santos, foram recuperados três rolos de filme fotográfico dos seus pertences pessoais. Embora Farinha dos Santos não tenha assistido às escavações, fez alguns trabalhos para o museu, e Peyroteo-Stjerna e a sua equipe conseguiram ligar os rolos de filme às escavações realizadas em Poças de São Bento em 1960 e Arapouco em 1962.

As imagens nele capturadas eram de qualidade excepcional e permitiram à equipe de pesquisa realizar uma análise arqueotanatológica mais aprofundada do que era possível anteriormente; esse é o estudo arqueológico multidisciplinar de antigas práticas funerárias.

Com imagens dos restos mortais in situ, os arqueólogos puderam reconstruir, com mais detalhes, como os restos foram manuseados antes de seu sepultamento.

Além disso, a antropóloga forense Hayley Mickleburgh conduziu experimentos de decomposição humana no Unidade de Pesquisa de Antropologia Forense da Universidade Estadual do Texas (EUA).

Isso permitiu que a equipe entendesse melhor como os cadáveres humanos se decompõem em diferentes posições quando são mumificados e quando não são. (Esteja avisado: se você for ler o estudo, há fotografias desses experimentos.)

Os resultados destas experiências puderam então ser comparados com imagens dos restos do Vale do Sado; e, fascinantemente, mesmo sem tecido mole, os restos de um indivíduo apresentavam sinais de serem mumificados. Estes incluem membros hiperflexionados, ausência de desarticulação e rápido preenchimento de sedimentos ao redor dos ossos.

Isso porque corpos em decomposição se desarticulam em articulações fracas com relativa rapidez; a mumificação preserva a articulação, bem como a flexão forte. O preenchimento de sedimentos no espaço ao redor dos restos teria mantido os ossos no lugar.

“Para que as posições hiperflexionadas estejam presentes em um sepultamento com conexões articulares fracas preservadas em posições instáveis, o corpo deve ter sido inicialmente enterrado nessa posição hiperflexionada”, escreveram os pesquisadores. “A combinação de hiperflexão em todo o corpo com falta de desarticulação ou evidência de movimento ósseo in situ, como observado no esqueleto desconhecido 3 de Arapouco encontrado em 1962 é, portanto, um forte indicador tafonômico de sepultamento em condição de mumificação”.

Os resultados, os pesquisadores acreditam, sugerem que a mumificação deliberada pode ter sido mais difundida globalmente do que entendíamos anteriormente, e que suas descobertas devem informar como as escavações arqueológicas serão conduzidas no futuro.

Ao permitir a possibilidade de mumificação ao escavar restos muito antigos, poderíamos obter mais evidências para isso e expandir nossa compreensão de como nossos ancestrais cuidavam de seus mortos.

A pesquisa foi publicada no European Journal of Archaeology.