O mínimo que você precisa saber sobre David Hume para não ser um idiota

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Um dos maiores nomes da filosofia moderna é David Hume. Nascido em 1711, de uma família nobre da Escócia, entre os 12 e 14 anos estudou literatura e filosofia na universidade de Edimburgo, apaixonando-se por essas duas áreas. Se preparou para trabalhar na profissão do direito e até se arriscou como negociante, mas segundo suas palavras suas próprias palavras, sentia “uma aversão insuperável a tudo o que não fossem as buscas da filosofia e do conhecimento em geral”. Mais do que apenas um filósofo, Hume fez muita fama como historiador e ensaísta. Em vida, sua obra que mais fez sucesso – e lhe rendeu uma segurança financeira considerável – foi uma série de livros intitulada “A História da Inglaterra” (1754-62). No entanto, a sua primeira obra foi um dos livros mais importantes da história da filosofia, chamado “Tratado da Natureza Humana” (1739-40). Entre os anos de 1734 e 1737, cansado de tentar a vida como negociante (que só durou três meses, diga-se de passagem), resolveu viver de sua herança e foi para o interior da França, tentando a vida no campo por pensar que seria economicamente mais viável. Ele foi residir em La Flèche (sim, cidade onde Descartes estudou no colégio jesuíta). Usando da biblioteca desse colégio David Hume compôs seu longo tratado. Apenas como uma nota – para dar inveja a qualquer jovem – Hume começou a escrever seu tratado com 23 anos! Sim, com 23 anos ele começou a escrever uma das maiores obras da história da filosofia, sendo publicada em três livros entre os anos de 1739 e 1740, quando Hume tinha por volta de 28 anos.

Tratado da Natureza Humana, uma das principais obras da filosofia escritas pelo filósofo empirista escocês David Hume.

A ideia de Hume com seu tratado era introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos filosóficos. Isso se caracterizará como uma forte renúncia à metafísica. Contudo, a aceitação do Tratado da Natureza Humana foi péssima. O próprio David Hume, se referindo a essa obra, disse que “jamais uma empreitada literária foi tão desafortunada quanto o meu Tratado”, ele ”já saiu natimorto da impressora”. Parte dos filósofos da época que liam a obra não a compreendiam direito, parte a recusava, e uma parte muito pequena a aceitava. Para solucionar esse problema, Hume publica em 1748 a obra intitulada “Investigações Sobre o Entendimento Humano”, que basicamente era um resumo revisto de seu Tratado. Essa obra, sem sombra de dúvidas, é fantástica! Com uma clareza e objetividade sem igual, Hume apresenta em um livro curto toda sua teoria filosófica. Completamente argumentativo e com uma riqueza literária, a exposição que Hume faz se tornou um paradigma de escrita clara para todos os filósofos que vieram após ele, até mesmo para os filósofos que não concordavam com sua teoria. Até o final de sua vida, David Hume tem uma coleção de livros e ensaios publicados. No entanto, para apresentar sua teoria, basta nos centrarmos nas Investigações Sobre o Entendimento Humano.

Hume, tal como Descartes, estava preocupado em entender os fundamentos do conhecimento humano. Todavia, Hume chega em conclusões bem contrárias as de Descartes. Enquanto Descartes se enquadra como um racionalista, Hume foi um empirista. Mas primeiro, antes de explicarmos isso, vejamos sua teoria.

Como funciona nosso processo de entendimento? Essa primeira pergunta nos servirá de condutora para o início dos pensamentos de Hume. De acordo com os termos usados por Hume, nós entendemos o mundo através de duas vias: (1) Ideias; e (2) Impressões.

(1) Impressões.

As impressões seriam nossas percepções mais vívidas e fortes, por exemplo, nossas sensações. Quando eu vejo o notebook na minha frente, eu tenho a impressão em minha mente desse computador. Essa impressão é vívida, pois eu estou em contato direto com aquilo que me cria essa impressão. Eu tenho uma experiência com o objeto da minha impressão. As impressões podem ser caracterizadas como sensações, que são frutos da experiência que tenho dos meus sentidos com objetos externos; ou reflexões, que são frutos da experiência que tenho dos meus sentimentos, ou seja, são objetos internos a nós.

(2) Ideias.

As ideias, por sua vez, são os objetos que estão em nossa mente sem que tenhamos naquele momento um contato direto com as impressões dela. As ideias seriam impressões menos vívidas, mais tênues. Por exemplo, quando eu penso na bicicleta que eu tinha quando criança, ainda que eu feche os olhos e quase sinta o vento em meus cabelos ao pedalar aquela bicicleta, essa impressão que eu tenho é menos vívida que a do meu notebook, que está agora na minha frente. Os objetos da minha memória (como a bicicleta) não são objetos presentes nas minhas impressões (como o notebook), esses objetos da nossa mente seriam as ideias.

Podemos distinguir dois tipos de ideias: as simples e as complexas. As ideias simples são aquelas que são cópias diretas de impressões que tivemos. A da bicicleta, por exemplo, é uma ideia simples, pois eu tive uma impressão com essa bicicleta no passado, mas hoje eu só tenho a ideia dessa bicicleta, que é a memória dela.

Belerofonte montando Pégaso enquanto mata a Quimera.

As ideias complexas, por sua vez, são objetos da nossa imaginação. Pensem em Pégaso, o famoso cavalo alado da mitologia grega. Nós – e ninguém – teve a impressão direta de um cavalo com asas. Mas ele é objeto de nossos pensamentos, e entendemos qualquer frase que fala sobre Pégaso. Por exemplo, conseguimos entender a frase “Pégaso era o cavalo alado de Belerofonte”. Como podemos entender essa ideia, se nunca tivemos uma impressão direta com ela? Porque a ideia que temos de Pégaso é fruto da imaginação, é uma ideia complexa. A imaginação, para Hume, é a faculdade que é capaz de manipular as ideias simples, gerando ideias complexas. Por exemplo, eu entendo o que é “cavalo” e o que é “asas”, pois já tive experiência com um cavalo e com um animal com asas, como um pássaro. Tenho assim a ideia simples de cavalo e a ideia simples de asas, que é uma cópia da impressão que eu tive ao ter o contato com esses animais. A imaginação, por sua vez, permite-me misturar essas ideias simples e formar uma nova, a ideia complexa de cavalo alado.

A faculdade da imaginação nos permite também misturar ideias complexas com uma outra ideia simples e formar uma ideia mais complexa ainda. Por exemplo, a ideia que tenho de Pégasos rosa. Temos a ideia complexa de Pégasos (que é uma mistura das ideias simples de cavalo e de asas) e adicionamos mais uma ideia simples, a ideia simples de ter a coloração rosa. Obtemos, pela imaginação, uma nova ideia complexa: a ideia de cavalo alado com pelagem cor de rosa.

Eis que Hume apresenta o famoso argumento da decomposição para defender o que ele chama de Princípio da Cópia. Se podemos decompor nossos pensamentos em ideias simples, copiadas de alguma sensação que já tivemos, então todas as nossas ideias são cópias de nossas impressões (ou percepções mais vívidas). Aparentemente, todas as ideias que temos podem, de fato, ser decompostas em ideias simples, ideias que são cópias diretas das impressões. Portanto, (esse é o princípio da cópia) todas nossas ideias são cópias de nossas impressões.

Outro argumento que Hume apresenta para defender o princípio da cópia é o da impossibilidade de formarmos ideias sem que haja uma sensação, ou impressão, pelo qual essa ideia é uma cópia. Se não podemos formar ideias acerca de sensações que jamais tivemos, então todas as nossas ideias são cópias de nossas impressões. De fato, não podemos formar ideas acerca de sensações que nunca tivemos, isto é, de impressões que nunca tivemos. Para pensarmos nisso, basta pegarmos o caso de deficientes físicos. Um cego não poderia, infelizmente, formar a ideia de cor; tal como um surdo não consegue formar a ideia de sons. Isso por que tanto o cego quanto o surdo não podem ter a experiência, a impressão, que forma a ideia (respectivamente) de cor e som. Portanto, todas nossas ideias são cópias de nossas impressões.

Como funciona as conexões entre as ideias que formamos? Hume afirma que são de três modos:

Esse é o retrato de David Hume, e através dele temos a ideia de como ele realmente era.

Semelhança: Quando vemos um retrato, por exemplo, formamos a ideia desse retrato, mas naturalmente pensamos no objeto original, que é retratado. Isso acontece por que conectamos a ideia do retrato com a ideia do objeto retratado através da semelhança.

Ao vermos um quarto nós já supomos que existem outros cômodos, ou espaços além desse. Com essa imagem, por exemplo, já até supomos que os outros cômodos da casa não seriam lá muito arrumados…

Contiguidade: Já quando pensamos em um cômodo de uma casa, como um quarto, nós pensamos também acerca dos outros cômodos. Nós sempre pensamos que para todo espaço qualquer A existe um espaço maior B no qual A pertence a B. Isso acontece por que a ideia que temos de A se conecta com a ideia que formamos de B através da contiguidade. O mesmo acontece com o tempo, por exemplo, quando pensamos em um certo momento no tempo, quando formamos a ideia desse momento, sempre pensamos nos momentos anteriores e posteriores a ele, formamos a ideia desses momentos. Pense, por exemplo, na ideia que você tem de quando você nasceu. Automaticamente você pensa que houve um momento anterior ao seu nascimento, mesmo que você não tenha a experiência, a impressão desse momento anterior (você não tinha nascido), mas você forma a ideia complexa desse momento por que existe a contiguidade.

Ao vermos essas ondas na água nós já supomos que houve alguma coisa antes, provavelmente que caiu na água, que causou esse efeito que vemos, isto é, essa perturbação.

Causalidade: Quando pensamos em causas e efeitos, nós pensamos através da conexão de ideias regidas pela causalidade. Por exemplo, pense quando jogamos uma pedra em uma poça com a água em repouso. Nós temos a ideia dessa ação de jogar a pedra. Automaticamente nós conectamos essa ideia ao seu efeito, a perturbação da água que estava em repouso. Conectamos a ideia do efeito, que é a perturbação da água em repouso, com a ideia da sua causa, que é atirarmos a pedra na poça d’água. O mesmo ocorre quando jogamos bilhar ou sinuca. Digamos que você está apontando o taco para uma bola A, mirando de certo modo que a bola A atinja a bola B, que está parada. Antes mesmo de você dar a tacada, você já tem a ideia de que ao dar a tacada na bola A, ela irá se movimentar em direção a bola B, e o choque entre as duas fará com que a bola B se movimente. Mas você ainda nem deu a tacada e já pressupõe que a bola B irá se mover. Isso acontece por que conectamos a ideia da bola B se mover como sendo um efeito causado por sua tacada. Essas conexões acontecem em virtude da causalidade.

Hume pensa que através desses três princípios de conexões, ou associações entre ideias, nós seremos capazes de explicar como funciona nosso processo de compreensão. Temos assim uma resposta para a pergunta de como entendemos o mundo. A resposta seria que nosso processo de entendimento é composto por impressões e ideias, e nós conectamos as ideias de três modos. Esses modos determinam como entendemos as coisas. Hume dará especial atenção para o terceiro modo de que conectamos as ideias, o princípio de causalidade. De acordo com ele, é através desse princípio que fundamentamos todos os nossos conhecimentos científicos, pois sempre supomos que todo evento na natureza são causados por alguma coisa, e a ciência pretende descrever e fornecer as leis que regem a conexão entre esses eventos. Por exemplo, quando soltamos um objeto temos como efeito ele cair, e a ciência oferece uma lei (nomeadamente, da gravitação) para descrever como isso acontece.

Como nós justificamos os nossos conhecimentos? Hume oferece dois tipos de justificações e diz como elas se comportam. De acordo com sua explicação, todo o conhecimento humano é dividido em relações de ideias e questões de fato.

  • Relações de Ideias

O conhecimento baseado em relações de ideias são aqueles tais como da matemática, geometria e lógica. Trata-se de conhecimentos a priori que temos, que determinamos sua verdade pela simples operação do pensamento, independente do que possa existir em qualquer parte do universo. Por exemplo, sabemos que todo triângulo tem três lados, ou que o quadrado da hipotenusa de um triângulo é igual a soma dos quadrados de seus dois lados apenas pelo raciocínio. Não precisamos da experiência para descobrir que essas afirmações são verdadeiras. Além disso, afirmações que são relações de ideias, se são verdadeiras, são necessariamente verdadeiras; e se forem falsas, são falsidades necessárias. Ou seja, serão verdadeiras ou falsas em todas as circunstâncias possíveis. Que todo triângulo tem três lados é uma afirmação verdadeira em qualquer circunstância possível, mesmo não existindo um objeto triangular, mesmo que nós não existíssemos para comprovar isso. Ela é verdadeira indiferente a como o mundo se comporta.

  • Questões de fato

O conhecimento baseado em questões de fato são aqueles das ciências empíricas, ou aqueles que que temos no dia a dia sobre o mundo. Trata-se de conhecimento a posteriori, que só podemos determinar sua verdade através da experiência. Ou seja, não podemos saber se afirmações que são questões de fato são verdadeiras ou falsas apenas pensando sobre elas, tal com ocorre na matemática por exemplo. Como sabermos se a afirmação de que Napoleão tinha um cavalo branco, é verdadeira ou falsa? Não podemos determina a veracidade desta afirmação apenas pensando sobre isso, precisamos de que alguém tenha visto o cavalo de Napoleão para determinar se a afirmação é verdadeira ou falsa.     Além disso, não incorreríamos em alguma contradição em supormos a negação de uma questão de fato. Toda afirmação que é uma questão de fato é contingentemente verdadeira. Ou seja, é verdadeira, mas poderia ser falsa.

Essa distinção entre relações de ideias e questões de fato será essencial para o trabalho de Hume. Devemos ter em mente que relações de ideias são afirmações que podemos determinar seu valor de verdade a priori e que, para Hume, toda afirmação dessa natureza é (se for verdadeira) necessariamente verdadeira ou (se for falsa) é uma falsidade necessária. Além disso, toda afirmação que é uma questão de fato é tal que só podemos determinar seu valor de verdade de modo a posteriori, e todas essas afirmações são (se for verdadeira) contingentemente verdadeira ou (se for falsa) contingentemente falsa.

Entre vários tipos de afirmações que fazemos, Hume teve interesse por um tipo em especial, as questões de fatos não-presentes. O que seriam essas afirmações? Quando fazemos afirmações de questões de fatos, só podemos determinar seus valores de verdade de modo a posteriori. Ou seja, apenas através da experiência sabemos se elas são verdadeiras ou falsas. Mas há um certo tipo de questões de fatos que não nos é permitido conferir todos os casos, através de experiência, para sabermos se de fato a afirmação é verdadeira ou falsa. Pense, por exemplo, na afirmação que todos os seres humanos são mortais. Acreditamos que essa afirmação é verdadeira em virtude de todas as vezes que vimos seres humanos morrerem, além de que todos os relatos que chegaram até nós parecem confirmar essa tese. No entanto, nós nunca poderíamos investigar todos os seres humanos para constatar se essa afirmação é verdadeira ou falsa. Daqui a 100 anos nascerá um ser humano, mas nós já supomos que ele será mortal. Toda a ciência parece se basear neste tipo de inferência. Essas inferências falam sobre casos gerais (como todos os x se comportaram de um certo modo y), como também fazem previsões (se um objeto x estiver em tais condições, então ele se comportará de um certo modo y). Mas como justificamos essas inferências? Elas escapam da possibilidade de nós investigarmos empiricamente e descobrirmos se são verdadeiras ou falsas, tampouco podemos descobrir seus valores de verdade de modo a priori.

Hume afirma que as questões de fato não-presentes estão fundamentadas nos princípios da causalidade. Entre os três modos de conectarmos as ideias, um deles é a causalidade. Ela nos permite compreender como o mundo se organiza em causas e efeitos. Assim, a nossa justificação para afirmações desse tipo se sustenta nesse princípio. O problema: Será que a causalidade existe só na nossa cabeça, ou podemos observá-la no mundo? Ou seja, será que nós pressupomos que há causalidades porque nossas faculdades cognitivas consegue melhor compreender o mundo desta forma, ou será que podemos de fato observar causas e efeitos no mundo?

De acordo com Hume, as questões de fatos não-presentes são justificadas pela causalidade, ou princípio da causação. Todavia, como podemos conhecer causas e efeitos? Como esse processo funciona? Iremos agora não nos preocupar qual é a justificativa para questões de fatos não-presentes, mas tentaremos nessa parte entender como elas funcionam.

O processo de entendermos a causalidade funciona baseado nas experiências que tivemos. Como Hume afirma, se nós nunca tivéssemos visto antes uma bola de bilhar, ao termo uma em nossas mãos nós jamais conseguiríamos, apenas observando suas propriedades, dizer o comportamento dessa. Não poderíamos dizer que se a jogarmos contra outra bola de bilhar, a segunda bola iria se movimentar. Nós fazemos inferências causais, ou seja, dizemos que há um comportamento de causa e efeito entre certas coisas, nos baseando nas experiências passadas que tivemos. Pense em uma criança. Ainda que façamos várias descrições sobre o fogo e os perigos desse, uma criança jamais criará uma relação entre causa e efeito entre o fogo e a dor de uma queimadura a não ser que ela experimente pôr a mão no fogo e perceber a dor causada. Assim, tomando o fogo como causa e o efeito como a dor, a criança criará essa relação através de experiências. Tendo isto em vista, Hume afirma que a causalidade é baseada nas experiências passadas. Nós observamos e tivemos várias experiências de dois eventos sempre ocorrerem em uma certa conjunção: soltar um objeto no ar, ele cair ao chão; pôr a mão no fogo e sentir o calor; etc. Supomos, desse modo, que o primeiro evento (o evento A) causa o segundo evento (o evento B). Deste modo afirmamos que o evento B é efeito do evento A, que é sua causa. Nós pressupomos então que há uma relação entre esses eventos.

Hume foi um dos primeiros a observar o que chamamos de inferências indutivas. Inferências indutivas são aquelas que a partir de experiências passadas ou presentes (que seriam as premissas do nosso argumento), tentamos inferir uma conclusão que trata de casos gerais ou faça previsões. Por exemplo:

  1. Observamos no passado que se algo é um ser humano, então ele morreu.
  2. Observamos no presente que se algo é um ser humano, então ele morre.
  3. Logo, todos os humanos (de hoje ou do futuro) são mortais.

As premissas (1) e (2) tratam de observações, experiências que fizemos no passado. A partir delas nós tentamos garantir que a proposição (3) é verdadeira. O mesmo ocorre, por exemplo, com as leis científicas. Os cientistas se baseiam em diversas observações e experimentos cuidadosamente feitos para que então se conclua algo geral acerca do comportamento de certos aspectos da natureza, e com isso fazer previsões.

Sabemos como as questões de fatos não-presentes funcionam: através de argumentos indutivos. Como vimos anteriormente, argumentos indutivos são aqueles que as premissas se baseiam em observações feitas no passado ou no presente e que tentam inferir uma conclusão acerca de casos gerais ou fazer previsões. Temos então que as questões de fatos não-presentes se justificam pelo princípio de causalidade, e a causalidade se baseia na indução (e já sabemos como ela funciona), mas quais as justificativas para aceitarmos a indução? Como nos assegurarmos que a indução é um bom método para conhecermos a realidade? Pensando sobre isso Hume apresenta um dos principais problemas da filosofia, o Problema da Indução: Como justificamos as inferências indutivas?

Para entendermos o problema da indução, melhor começarmos por mostrar como a indução se diferencia da dedução. Vejamos o exemplo de um argumento dedutivo e de um argumento indutivo:

Argumento Dedutivo
(A) Se algo é um ser humano, então é mortal.
(B) Sócrates é um ser humano.
(C) Sócrates é mortal.

Argumento Indutivo
(1) Observamos no passado que se algo é um ser humano, então ele morreu.
(2) Observamos no presente que se algo é um ser humano, então ele morre.
(3) Logo, todos os humanos (de hoje ou do futuro) são mortais.

O que diferencia esses dois argumentos? A sua validade. Nos argumentos dedutivos válidos, em todos os casos que assumirmos que suas premissas são verdadeiras, teremos de assumir que suas conclusões são verdadeiras também. Por exemplo, vamos supor que (A) e (B) são verdadeiras. Podemos rejeitar (C)? Não, é impossível, pois (A) e (B) implicam (C). Se rejeitarmos (C) isso significa que ou (A) ou (B) são falsas (mas nós já assumimos que são verdadeiras). Já nos argumentos indutivos válidos, ainda que aceitemos que as premissas (1) e (2) são verdadeiras, a conclusão (3) poderia ser falsa. As premissas de argumentos indutivos só ajudam a garantir maior probabilidade da conclusão ser verdadeira. Assim, enquanto em argumento dedutivos dizemos que a conclusão preserva o valor de verdade das premissas (ou seja, necessariamente, se as premissas são verdadeiras a conclusão também será); em argumentos indutivos as premissas aumentam a probabilidade da conclusão ser verdadeira. Mas notemos, ainda que a conclusão tenha uma probabilidade altíssima de ser verdadeira, ainda é possível que essa conclusão seja falsa em alguma circunstância – o que não acontece com as conclusões de argumentos dedutivos válidos, se assumirmos que suas premissas são verdadeiras.

Hume notou que os argumentos indutivos oferecem conclusões contingentes, pois ainda que assumirmos suas premissas, a conclusão sempre pode ser falsa (ou seja, são questões de fato). Isso traria preocupações tanto para o nosso dia a dia como também para a ciência. Para o nosso dia a dia por que grande parte das inferências que fazemos são indutivas. E para a ciência por que elas se baseiam nessas inferências para formular leis científicas. No entanto, não há fortes garantias de que as conclusões são verdadeiras – garantias essas que as inferências dedutivas oferecem. Hume então pensa em algum modo de tornar as inferências indutivas em dedutivas. Fazer isso implica que poderíamos salvar do campo das incertezas as inferências indutivas. Vejamos como poderia ser feito:

(1) Observamos no passado que se algo é um ser humano, então ele morreu.
(2) Observamos no presente que se algo é um ser humano, então ele morre.
(PUN) A natureza mantém sua uniformidade no tempo.
(3) Logo, todos os humanos (de hoje ou do futuro) são mortais.

Hume adiciona (PUN) como premissa, que seria o Princípio de Uniformidade da Natureza (PUN). Ou seja, a natureza mantém uma uniformidade no tempo, de modo que suas regularidades, que ocorreram no passado ou no presente, não se alteram no futuro. Se aceitarmos (1), (2) e (PUN), podemos inferir dedutivamente a conclusão (3). Ou seja, se as premissas forem verdadeiras, então a conclusão é verdadeira. Eis que temos uma aparente solução. Transformamos um argumento indutivo em um argumento dedutivo.

No entanto, continua Hume sua investigação: O que garante que o PUN é verdadeiro? Eis que ele se encontra em um beco sem saída. Tentamos justificar a indução adicionando uma premissa que tornaria o argumento inicial, que era indutivo, em um argumento dedutivo. No entanto, só podemos garantir essa premissa indutivamente. Aceitamos o Princípio de Uniformidade da Natureza por que aceitamos o seguinte raciocínio:

(4) Observamos no passado que a natureza se manteve uniforme.
(5) Observamos no presente que a natureza se manteve uniforme.
(PUN) Logo, a natureza mantém sua uniformidade no tempo.

O raciocínio para garantirmos que o PUN é verdadeiro é um raciocínio indutivo. Ou seja, estamos sendo circulares. O que garante as inferências indutivas seria o PUN, mas ele só pode ser garantido pela própria indução. Estaríamos, em última análise, garantindo a indução pela própria indução.

Não podemos então garantir a indução através da dedução. E se garantimos a indução pela própria indução (como no caso de usarmos o PUN), estamos sendo circulares. O que garante então a indução? Hume então percebe que formamos inferências indutivas não por garantias racionais, mas por questões psicológicas. Nós o fazemos por que temos o hábito de fazer. O hábito de vermos regularidades no mundo nos fazem dar adesão para induções, mas não existe garantias racionais para esse método.

Hume foi um dos principais expoentes do empirismo, principal corrente filosófica que se opunha ao racionalismo. Enquanto o racionalismo tentava fundamentar na razão o papel predominante para aquisição de conhecimentos substanciais acerca da realidade; o empirismo diz que são nossos sentidos que têm esse papel fundamental. Não seríamos capazes de oferecer um fundamento último apenas em uma tese metafísica fundamentada pela razão. A nossa aquisição de conhecimento é feita em virtude de conhecermos e determinarmos certos conceitos, e isso ocorre em virtude de certas experiências que temos. A análise que Hume oferece do nosso entendimento, com a distinção entre ideias e impressões, e que todas ideias são cópias de impressões, deixa claro sua posição empirista. Nossas ideias são determinadas em virtude das experiências que tivemos. Se não tivéssemos essas experiências, jamais formaríamos ideias, haja vista que são essas experiências que nos permitem formar impressões, e as ideias simples são cópias das impressões que temos. Então todo conhecimento que temos sobre o mundo será, em última instância, baseado nas impressões que tiramos das experiências que tivemos.

David Hume foi um dos principais filósofos do período moderno, sintetizando com maestria a tese empirista em sua análise dos processos do entendimento e apresentando um dos principais problemas filosóficos que temos hoje: O Problema da Indução. Além do mais, com seus livros temos um padrão de clareza e objetividade que servem de guia para toda escrita filosófica. Sua obra merece ser lida não só como uma obra de filosofia, mas como uma obra da literatura mundial.

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