Mario Bunge: “A morte não é um mistério para aqueles que sabem um pouco de biologia”

Créditos da Imagem: Lucía Monti.

Por Eduardo Quintana
Publicado na ABC

Contundente e firme, o filósofo e físico Mario Bunge assegura que “a morte não é um mistério para aqueles que sabem um pouco de biologia”. O pensador, que estará no Paraguai essa semana para dar conferências, argumenta que, em matéria cultural, a religião, a filosofia e a música estão em decadência. Bunge diz nesta entrevista, por correio eletrônico, que as pseudociências podem ter consequências fatais na sociedade que as cultiva.

Bunge tem mais de 40 livros publicados, principalmente em português, inglês e espanhol. Conta com 16 doutorados honoris causa e tem polemizado em diferentes áreas do conhecimento. Decidiu aposentar-se aos 90 anos da McGill University no Canadá, ainda que tenha passado 21 de setembro com 94, o grande pensador da ciência visitará o Paraguai para dar conferências e reunir-se com cientistas e filósofos, em um evento organizado pela Associação Paraguaia Racionalista (em espanhol, Asociación Paraguaya Racionalista).


Na Grécia Antiga, a filosofia era a mãe de todas as ciências e representava o amor pela sabedoria. Isso ainda continua?

Na Grécia Antiga, a filosofia era igual a ciência. Hoje há, além da filosofia, fobososofia (ver Dicionário de Filosofia de Mario Bunge), que pretende se passar por filosofia, mas não é, mas que se trata de charlatanice existencialista e pós-moderna.

Stephen Hawking disse em seu livro “O Grande Projeto” que a filosofia “não tem acompanhado os desenvolvimentos modernos da ciência, em particular da física” e que por isso está morta. Esta declaração não é filosófica?

A filosofia está muito doente, mas ainda vive pelas perguntas que formulam os que pensam a fundo, referentes a realidade, a verdade, a justiça, etc.

Justamente, você também disse em “Crises e Reconstrução da Filosofia” que a filosofia está estagnada, que não se apresentam inovações e que os filósofos estão mais preocupados em ensinar do que em investigar. Por que isso corre?

Porque é mais fácil expor as ideias dos outros do que criar ideias próprias, e porque nas mesmas universidades rechaçam a ciência e ensinam os erros de Kant e os disparates de Hegel, Husserl, Heidegger, etc., como se fossem verdades profundas.

Como filosofa um ser humano contemporâneo?

Depende do filósofo. Há quem analise ideias e há quem as produzem, há comentaristas e construtores de sistemas, assim como críticos e historiadores. Necessitamos de todos eles, contanto que sejam claros e críticos, em vez de obscuros e dogmáticos.

O que fazem os filósofos do século XXI e o que devem fazer para que a filosofia não se estagne?

A grande maioria dos professores de filosofia não são filósofos, mas expositores e comentaristas. Os filósofos não fazem operações em laboratórios e nem observações de campo. Limitam-se a pensar, ler, debater e escrever. Se informam sobre ciência e técnica, mas não as fazem. Se são criadores, abordam problemas filosóficos, velhos ou novos, com ânimo de resolvê-los de novas maneiras.

Se tivera que reconhecer alguns filósofos que contribuíram com grandes ideias nos últimos anos, a quem mencionaria?

Não estou em dia com a literatura filosófica. Apenas leio trabalhos científicos que estão ao meu alcance.

É trabalho do filósofo seguir buscando a verdade ou aproximação da verdade como dizia Karl Popper?

Sim, mas o conceito de verdade aproximada é usado nas ciências e técnicas desde Arquimedes.

Os pós-modernos contribuíram com algo positivo ao conhecimento ou não há nenhuma colaboração deles?

Não colaboraram com conhecimentos novos porque não os buscaram e porque rechaçaram todo o fundo de conhecimento.

Você também criticou duramente o existencialismo. Chegou a dizer que se “as lombrigas tivessem vida mental seriam existencialistas”. Afirmou que são inimigas da razão. Mas não contribuíram com a defesa da liberdade individual?

Heidegger abraçou o nazismo, que não era precisamente partidário da liberdade. Sartre e outros existencialistas pregaram a irresponsabilidade, as indiferenças às nossas obrigações para com o próximo. Isso não é liberdade, mas apenas licença.

Sem dúvidas, você é reconhecido por dar chibatadas na psicanálise, na qual não tem status científico. Por que considera que na América Latina, e, principalmente, na Argentina ou Paraguai tem muitos seguidores e esta pseudociência é ensinada até nas universidades?

Porque é mais fácil e mais economicamente rentável que a psicologia biológica e experimental. Os dogmas psicanalíticos aprendem-se em uma semana, enquanto que a formalização de um psicólogo científico, como Wundt, Piaget, Hebb ou Brenda Milner, requer uns dez anos de estudo e investigação disciplinada em um ambiente maduro e crítico.

É um paradoxo que no século XXI floresçam as pseudociências? É um período onde temos maior acesso a informação e ao conhecimento. Há um retrocesso?

Todas as revoluções científicas têm sido seguidas de contrarrevoluções. Por exemplo, a ciência e a filosofia grega foram reprimidas pelo cristianismo; os trabalhos de Galileu Galilei e a sua escola foram seguidas pela maior caça às bruxas da história; o Iluminismo pelo Contra-Iluminismo de Hegel, Nietzsche e os seus sucessores; Husserl e Heidegger emergiram em momentos em que triunfavam a relatividade, a quântica e a teoria sintética da evolução.

Por que as pseudociências são prejudiciais?

Porque afastam as pessoas da ciência, fomentam o dogmatismo e a improvisação, e podem ter consequências fatais para a saúde ou o bem-estar público.

Voltando ao tema da “cultura da morte”, o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa em seu livro “A Civilização do Espetáculo” fala justamente de que a cultura “tal e como a conhecemos” está praticamente morta, devido a mediocridade e a banalização que existem nos meios de comunicação, na indústria editorial e na arte em geral. Você compartilha da visão do escritor peruano?

Não compartilho, talvez porque não uso o mesmo conceito de cultura que Vargas Llosa, a quem admiro como romancista. Creio que os únicos ramos da cultura que estão em decadência são a religião, a filosofia e a música. A matemática, as ciências naturais e sociais e as técnicas seguem florescendo.

A morte segue sendo um mistério? Por que as pessoas continuam temendo?

A morte não é um mistério para alguém que sabe um pouco de biologia. A morte não assusta a um ateu, porque sabe que nada poderá ocorrer depois de morto. A única coisa que poderá assustá-lo é uma morte lenta e dolorosa, mas a morte assistida nos liberta deste temor.

O Prêmio Nobel de Medicina, Ramón Santiago e Cajal, assegurou que “enquanto o cérebro for um mistério, o universo continuará sendo um mistério”. Este é o século das neurociências?

A neurociência tem avançado muito desde que escreveu o grande Cajal, mas o conhecimento do mundo físico tem avançado sem a ajuda da neurociência, porque não se ocupa do cérebro.

A respeito de sua filosofia materialista, você se considera um ateu militante?

Sou ateu, mas não militante, porque eu não creio que a religião deve ser combatida. Creio que temos que ensinar uma visão do mundo secular e temos que estudar as religiões, em particular, o seu uso como ferramenta de controle social. Para isso, temos que reestudar Aristóteles, San Pablo e Maquiavel. Eu também creio que os ateus compartilham com quase todos os crentes sinceros algo muito mais forte do que os separa: amor pela vida, respeito pelo próximo, ajuda mútua, etc.

Todas as morais religiosas são imorais, por que seguem existindo as religiões?

Como disse o Buda: os homens inventaram os deuses por temer a morte.

Há massacres em nome de Deus em pleno século XXI. É um retrocesso?

É verdade que, desde o massacre de Jericó, tem-se invocado a Deus. Mas também é certo que Juan Pablo II condenou todas as guerras de seu tempo, e que Francisco I tem retomado a bandeira da paz.

CONTINUAR LENDO