Natural ou Cultural: De onde vêm nossas aptidões e comportamentos?

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O Homo sapiens é, dentre os animais terrestres, possivelmente aquele mais estudado, talvez por uma questão de ego ou por real curiosidade pela descoberta de quem somos. E, talvez, um dos campos mais debatidos atualmente (em meio científico) seja o problema do Natural versus Cultural, ou seja, o que o ser humano aprende, ou decorre do meio, versus o que é biológico, ou genético.

O que é Natural?

Esta é a pergunta complexa. Para estes estudos se considerará natural qualquer comportamento humano básico (se alimentar, dormir, copular…) bem como aqueles que podem ser, direta ou indiretamente, correlacionados a genes.

Por fim também se considerará natural qualquer diferença demonstrada através de pesquisa científica entre indivíduos semelhantes (ambiente, idade, sexo, educação ou qualquer outro fator que possa afetar diretamente a pesquisa).

O que é Cultura?

Cultura é todo conhecimento acumulado de geração em geração entre espécies e, no caso do ser humano, também é quaisquer formas de manipulação de um conceito ou ideia, abrangendo os conhecimentos científicos, empíricos e religiosos. Explica Reale (1953, p. 221–222) que:

[…] não é cultura apenas o produto da atividade do homem, porque também é cultura a atividade mesma do homem enquanto subordinada a regras. A maneira de ser, de viver, de comportar-se, em uma palavra, a conduta social é um dos elementos componentes da cultura, como é cultura um utensílio culinário ou um avião de bombardeio.

Outra forma de ver a cultura é como subproduto da evolução do ser humano, nesse sentido cultura também contribui para essa evolução através do padrão de a cultura mudar o ambiente, o ambiente selecionar o ser, e o ser mudar novamente sua cultura. Nesse sentido

Os progressos biológicos de uma espécie condicionam seus avanços técnicos e culturais ulteriores, mas, em contrapartida, a herança técnica e cultural de uma espécie constitui uma espécie de meio humanizado, historicamente constituído, que condiciona sua evolução biológica futura. Assim, de uma espécie de hominídeos à outra, o aumento da população e o enriquecimento de sua bagagem técnica e cultural multiplicam as chances de inovações, que vão acelerando-se e que, para cada espécie, se concentram no fim de seu período de existência. (MAZOYER, ROUDART, 2010, p. 69)

Exemplos de comportamentos naturais

Um importante debate neste sentido foi acerca da homo-afetividade. Afinal, o homossexualidade é construído socialmente ou é natural? É adquirido ou inato?

A relação entre nossa genética, nosso ambiente e nossa cultura é tão intrínseca que se torna extremamente complexo realizar uma divisão simples de qual característica, ou quanto porcento dela, tem que origem. Mesmo não podendo fornecer uma resposta concisa podemos afirmar, com uma perspectiva geral dos resultados acadêmicos, que o comportamento homossexual pode ser tanto natural quanto derivado do ambiente.

Segundo Kean (2013), em seu livro “O polegar do violinista”, a orientação sexual tem certa base genética. Foi descoberto que, em camundongos, a desativação de um gene poderia tornar as fêmeas lésbicas. No caso dos humanos (onde os gays masculinos são mais estudados) os indivíduos gays têm mais parentes gays do que os indivíduos heterossexuais criados em mesmo ambiente. Outros estudos apontam mais gays masculinos no grupo dos canhotos e ambidestros do que no grupo dos destros (algum gene de longo alcance poderia influenciar as duas características). Um outro sinal de homossexualidade é o número de irmãos biológicos mais velhos: cada irmão mais velho aumenta a probabilidade de 20% a 30% de ser homossexual.

Além da homo-afetividade existem diversos outros campos onde se busca entender o comportamento inato do indivíduo. Nos conta Mlodinow (2015), em “Dos Primatas a Astronautas”, sobre um experimento com bebês sobre noções basilares de física onde se observou que as mesmas sabiam identificar uma situações de incoerência.

Desta forma é possível observar que formas de pensar e agir são inatas, diversas outras pesquisas apontam para a curiosidade dos bebês e diversos outros estudos (vários citados nos livros que fundamentam este texto) vem apontando características comportamentais que demonstram origem inata.

Exemplo de comportamento social

Do mesmo modo como ocorre com as demonstrações de caráter natural é possível observar algumas correlações importantes de caráter social/cultural.

No livro “Epigenética” (2015), de R.C. Francis, nos apresenta diversos estudos onde comportamentos sociais influenciam diretamente na forma onde indivíduos conviverão socialmente. Na sua obra aponta que em um teste para verificar uma ideia do behaviorismo que dizia que os bebês só se mantêm com a mãe (e tem resistência a outras pessoas) porque necessitam de sua fonte de alimento.

Para testar a hipótese realizaram testes com chimpanzés, onde verificaram que os mesmos preferiam uma boneca de arame com tecido a uma sem o tecido e com a fonte de nutrientes. Além disso, em continuidade, as fêmeas criadas por este método não se mostraram boas mães como as fêmeas criadas em ambiente convencional (agindo com mais violência física e obtendo níveis maiores de estresse com suas crias). Já as fêmeas criadas por estas mães violentas tinham maior chance de repetir o comportamento com sua prole.

A infância humana é especialmente prolongada. Crianças submetidas a maus-tratos maternos ou paternos, incluindo agressões físicas e psicológicas, não apresentam boa saúde mental. Como nos ratos e macacos, esses efeitos estão associados a alterações na reação ao estresse. Além disso, também como entre ratos e macacos, filhos malcuidados tendem a se transformar em maus pais depois de adultos. Como vimos no Capítulo 4, os ratos privados de lambidas têm uma reação exacerbada ao estresse, causada por alterações epigenéticas do gene NGF no hipocampo. Hoje há provas da existência de efeito semelhante em seres humanos que sofreram abusos na infância. (Francis, 2015)

De forma concisa podemos dizer então que o abuso na infância pode gerar alterações comportamentais em um indivíduo podendo, em alguns casos extremos, gerar abusos semelhantes posteriores. Mas, como já citado, os seres humanos são mais plásticos quando da questão social e, desta forma, é possível que fornecendo ambiente adequado e, caso necessário, tratamento psicológico quaisquer possíveis danos sejam anulados.

Casos complexos

Existe uma tendência no meio científico pela busca de uma explicação genética para todos os problemas sociais. Existe também a tendência contrária, que busca afirmar que todos os comportamentos e aptidões são socialmente adquiridos.

Exemplo do primeiro foi a tentativa de culpabilizar os genes pela obesidade americana, ao demonstrar que pessoas de culturas diversas tinham maior taxa de obesidade e diabetes ao serem expostas à mesma alimentação. Ignorando que o problema maior era a forma como o exagero da alimentação era vendido pela mídia (Francis, 2015).

E mais, é comprovado que certas informações sociais nos fazem apreciar mais ou menos alguma coisa (e vice-versa). No “Subliminar”, de Mlodinow (2013), nos são apresentadas pesquisas onde a adesão de perfume sutil fazia com que pessoas comprasse mais uma meia em detrimento de outra. Ao serem confrontados os cobaias justificavam a compra usando outros critérios, como o tecido, mesmo as meias sendo do mesmo modelo. O exemplo contrário ocorreu no caso de teste com vinhos sem rótulos, mas de mesma marca e safra, foram apresentadas como de preços diversos, não foi surpresa quando os resultados informaram que os supostos vinhos mais caros eram mais saborosos que os mais baratos.

Além destas encontramos em Scarr & Weinberg (1983) e em Richardson & Norgate (2006) que a curva de desenvolvimento do QI dos filhos adotivos seguiam a dos pais biológicos, ao invés da dos pais adotivos, mesmo a crianças nunca tivesse tido contato com os pais. Não apenas isso, para todos os tipos de inferências psicológicas testadas foram constatadas correlações possivelmente genéticas, onde o filho seguia mantendo comportamento próximo aos dos pais biológico mesmo em ambientes diversos.

Em outro artigo, Polderman et al. (2015),  foi feita uma pesquisa com 14,5 milhões pares de gêmeos durante cinquenta anos e os resultados revelam que, em média, a variação dos traços e doenças humanas é 49 por cento genética, e 51 por cento se deve a fatores ambientais e/ou erros de medição. E  mais a pesquisa demonstrou que em 69 por cento dos casos as características individuais eram o produto do efeito cumulativo das diferenças genéticas.

Todas estas informações acumuladas nos informam que para conhecer melhor o ser humano não basta olhar seus genes ou seu ambiente isoladamente. Para se conhecer o indivíduo com certo grau de certeza se faz necessário estudar os reflexos conjuntos das potencialidades dos genes e da natureza.

Por fim não cabe a este texto definir a resposta final para esta pergunta, apenas assegurar que o conhecimento sobre o comportamento humano individual e/ou social não pode ser explicado completamente ignorando os conhecimentos ofertados pelas áreas conexas.

Como adendo venho citar um documentário Brainwash (Lavagem Cerebral), do humorista norueguês Harald Eia, que busca apresentar diversas situações problemas comumente citadas nesse debate do Natural ou Social. (O documentário não segue bem uma linha científica, mas é possível encontrar os artigos dos quais tratam os acadêmicos entrevistados) [tem 5/7 capítulos traduzidos nessa playlist]

Bibliografia

  • FRANCIS, Richard. Epigenética: Como a ciência está revolucionando o que sabemos sobre hereditariedade. Zahar, 2015.
  • KEAN, Sean. O Polegar do Violinista: E outras histórias da genética sobre amor, guerra e genialidade. Jorge Zahar Editor Ltda, 2013.
  • MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo: Do neolítico à crise contemporânea. Brasilia: NEAD, 2010.
  • MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado. Zahar, 2009.
  • _____________. Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas. Zahar, 2013.
  • POLDERMAN, Tinca JC et al. Meta-analysis of the heritability of human traits based on fifty years of twin studies. Nature genetics, 2015.
  • REALE, Miguel. Filosofia do direito. São Paulo (SP): Edição Saraiva, 1953.
  • RICHARDSON, Ken; NORGATE, Sarah H. A critical analysis of IQ studies of adopted children. Human Development, v. 49, n. 6, p. 319-335, 2006.
  • SCARR, Sandra; WEINBERG, Richard A. The Minnesota adoption studies: Genetic differences and malleability. Child Development, p. 260-267, 1983.
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