Marx e a sociologia econômica – Parte II

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A historicidade e a totalidade

A teoria marxista repercutiu de maneira decisiva não só na Europa – objeto dos seus primeiros estudos – como nas colônias europeias e em movimento de independência. Incentivou os operários a organizarem partidos marxistas – e os sindicatos revolucionários -, levou intelectuais à crítica da realidade e influenciou as atividade científicas de modo geral e as ciências humanas em particular.

Em de elaborar uma teoria que condenava as bases sociais da espoliação capitalista, conclamando os trabalhadores a construir, por meio de sua práxis revolucionária, uma sociedade assentada na justiça social e igualdade real entre os homens, Marx conseguiu, como nenhum outro, com sua obra estabelecer relações profundas entre a realidade, a filosofia e a ciência.

Por sua formação filosófica, Marx concebia a realidade social como uma concretude histórica, isto é, como um conjunto de relações de produção que caracteriza cada sociedade num tempo e espaço determinados. Na obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Marx dá um exemplo do seu método ao analisar o golpe de Estado ocorrido na França no século XIX, encabeçado pelo sobrinho de Napoleão I, mostrando como este parodiou o feito do tio que, em 1799, substituiu a República pela Ditadura. Marx vaticinou o fracasso da aventura do sobrinho, porque este aplicou a mesma fórmula política do tio, porém, para uma conjuntura totalmente diferente daquela enfrentada por Napoleão Bonaparte.

Por outro lado, cada sociedade representa para Marx uma totalidade, isto é, um conjunto único e integrado das diversas formas de organização humana nas suas mais diversas instâncias – família, poder, religião. Entretanto, apesar de considerar as sociedades da sua época e do passado como totalidades e como situações históricas concretas, Marx conseguiu, pela profundidade de suas análises, extrair conclusões de caráter geral e aplicáveis a formas sociais diferentes. Assim, ao analisar o golpe de Luís Bonaparte, identifica na estrutura de classes estabelecidas na França aspectos universais da dinâmica da luta de classes.

As ideias de Marx serviram de base para a Revolução de 1917, na Rússia. Pintura “O palácio de inverno é capturado” óleo de Vladimir Serov.

A amplitude da contribuição de Marx

O sucesso e a penetração do materialismo histórico, quer no campo da ciência – ciência política, econômica e social -, quer no campo da organização política se deve ao universalismo de seus princípios e ao caráter totalizador que Marx imprimiu às suas ideias. Deve-se também ao caráter militante das ideias propostas, voltadas para a ação prática e para a práxis revolucionária.

Além desse universalismo da teoria marxista – mérito que a diferencia de todas as teorias subsequentes – outras questões adquiriram nova dimensão com os princípios sustentados por Karl Marx. Um deles foi a objetividade científica, tão perseguida pelas ciências humanas. Para Marx, a questão da objetividade só se coloca como consciência crítica. A ciência, assim como a ação política, só pode ser verdadeira e não-ideológica se refletir uma situação de classe e, consequentemente, uma visão crítica da realidade. Assim, a objetividade não é uma questão de método, mas de como o pensamento científico se insere no contexto das relações de produção e na história.

A ideia de uma sociedade “doente” ou “normal”, preocupação dos cientistas sociais positivistas, desaparece em Marx. Para ele, a sociedade é constituída de relações de conflito e é de sua dinâmica que surge a mudança social. Fenômenos como luta, contradição, revolução e exploração são constituintes dos diversos momentos históricos e não disfunções sociais.

A partir do conceito de movimento histórico proposto por Hegel, assim como o historicismo existente em Weber, Marx redimensiona o estudo da sociedade humana. Suas ideias marcaram a maneira definitiva do pensamento científico e a ação política dessa época, assim como das posteriores, formando duas diferentes maneiras de atuação sob a bandeira do marxismo. A primeira é abraçar o ideal comunista, de uma sociedade em que estão abolidas as classes sociais e a propriedade privada dos meios de produção. Outra é exercer a crítica à realidade social, procurando suas contradições, desvendando as relações de exploração e expropriação do homem pelo homem, de modo a entender o papel dessas relações no processo histórico.

Não é preciso afirmar a contribuição da teoria marxista para o desenvolvimento das ciências sociais. A abordagem do conflito, da dinâmica histórica, da relação entre consciência e realidade e da correta inserção do homem e da sua práxis no contexto social foram conquistas jamais abandonadas pelos sociólogos. Isso sem contar a habilidade com que o método marxista possibilita o constante deslocamento do geral para o particular, das leis macrossociais para suas manifestações históricas, do movimento estrutural da sociedade para a ação humana individual e coletiva.

A sociologia, o socialismo e o marxismo

A teoria marxista teve ampla aceitação teórica e metodológica, assim como política e revolucionária. Já em 1864, em Londres, Karl Marx e Friedrich Engels estruturaram a Primeira Associação Internacional de Operários, ou Primeira Internacional, promovendo a organização e a defesa de operários em nível internacional. Extinta em em 1873, a difusão das ideias e das propostas marxistas ficou por conta dos sindicatos existentes em diversos países e nos partidos, especialmente os social-democratas.

A Segunda Internacional surgiu na época do centenário da Revolução Francesa (1889), quando diversos congressos socialistas tiveram lugar nas principais capitais européias, com várias tendências, nem sempre conciliáveis. A Primeira Guerra Mundial pôs fim à Segunda Internacional como uma organização revolucionária da classe trabalhadora (¹), em 1914. Em 1917, uma revolução inspirada nas ideias marxistas, a Revolução Bolchevique, na Rússia, criava no mundo o primeiro Estado operário. Em 1919, inaugurava-se a Terceira Internacional ou Comintern, que, como a primeira, procurava difundir os ideais comunistas e organizar os partidos e a luta dos operários pela tomada do poder. O Comintern foi dissolvido em 1943, como gesto de amizade do antigo bloco soviético em relação aos aliados da Segunda Guerra Mundial.

A aceitação dos ideais marxistas não se restringia mais à Europa. Difundia-se pelos quatro continentes, à medida que se desenvolvia o capitalismo internacional. À formação do operariado no restante do mundo seguia-se o surgimento de sindicatos e partidos marxistas. Os ideais marxistas também se adequavam perfeitamente à luta por soberania e autonomia, existente nos países latino-americanos no início do século XX, assim como à luta pela independência que surgia nas colônias europeias da África e da Ásia, após a Segunda Guerra Mundial.

Em 1919, surgiram partidos comunistas na América do Norte, na China e no México; em 1920, no Uruguai; em 1922, no Brasil e no Chile; e, em 1925 em Cuba. O movimento revolucionário tornava-se mais forte à medida que os Estados Unidos e a URSS emergiam como potências mundiais e passavam a disputar influencia no mundo. Várias revoluções, como a chinesa, a cubana, a vietnamita e a coreana, instauraram governos revolucionários que, apesar de suas diferenças, organizavam um sistema político com algumas características comuns – forte centralização, economia altamente planejada, coletivização dos meios de produção, fiscalismo e uso intenso de propaganda ideológica e do culto ao dirigente.

Intensificava-se, nos anos 1950 e 1960, a oposição entre os dois blocos mundiais – o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, liderado pela URSS. A polarização política e ideológica é transferida para o conjunto do método e da teoria marxista que passam a ser usados, sob o peso da direção do stalinismo na URSS e dos partidos comunistas a ele filiados, como um corpo doutrinário fechado para legitimar a tese do “socialismo em um só país”, preconizada pela liderança soviética, e da gestão burocrática dos estados socialistas. O marxismo deixa, então, de ser um método de análise da realidade social para transformar-se em ideologia, perdendo, assim, muito da sua capacidade de elucidar os homens em relação ao seu momento histórico e mobilizá-los para uma tomada consciente de posição.

Em razão dessa disseminação pelo mundo e de sua vulgarização, o marxismo passou a ser identificado com todo movimento revolucionário que se propunha combater as desigualdades sociais entre homens e mulheres, entre diferentes grupos nacionais, étnicos e religiosos. Todos eles são considerados movimentos de esquerda – uma referência aos jacobinos, partido que, à época da Revolução Francesa, defendia ideais de igualdade e liberdade e sentava-se à esquerda na Assembleia. Todos se confundem com o marxismo, dificultando a identidade e a especificidade das teorias de Marx.

Congresso de fundação da Terceira Internacional, em Moscou, 1919. Lênin (terceiro a partir da esquerda) preside os trabalhos.

Entre 1989 e 1991, desfazia-se o bloco soviético após uma crise interna e externa bastante intensa – dificuldade em conciliar as diferenças regionais e étnicas, falta de recursos para manter um estado de permanente beligerância, atraso tecnológico, gestão burocrática da economia e do Estado, baixa produtividade, escassez de produtos, inflação e corrupção, entre outros fatores. O fim da União Soviética provocou um abalo nos partidos de esquerda no mundo todo e o redimensionamento das forças internacionais.

Por outro lado, nas últimas décadas, em diferentes países, partidos socialistas conseguiram eleger deputados e até presidentes sem que a forma de poder ou a política econômica tenham se modificado significativamente. Assim, o caráter revolucionário dos partidos de inspiração marxista passa a ser questionado ao mesmo tempo que torna possível a convivência pacífica destes com o capitalismo, pois o objetivo desses partidos não é mais o de romper com o capitalismo, mas apenas o de reformá-lo. Rever as ideias de Karl Marx, entender que, para ele, a teoria não pode se distinguir da práxis sob pena de se tornar alienada e vazia, mas que a história não depende apenas da disposição humana, torna-se fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea e das crises que ora se apresentam. É importante também para rever conceitos que não foram criados para a especulação científica mas para a ação concreta sobre o mundo.

Toda essa explicação a respeito do marxismo se faz necessário por diversas razões.

Em primeiro lugar, porque a sociologia confundiu-se com o socialismo em muitos países, em especial nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento – como são hoje chamados os países dependentes da América Latina e da Ásia, surgidos das antigas colônias européias. Nesses países, intelectuais e líderes políticos associaram de maneira categórica o desenvolvimento da sociologia ao desenvolvimento da luta política e dos partidos marxistas. Entre eles, a derrocada do império soviético foi sentida como uma condenação e quase como a inviabilidade da própria ciência.

É preciso lembrar que as teorias marxistas transcendem o momento histórico no qual são concebidas e tem uma validade que extrapola qualquer das iniciativas concretas que buscam viabilizar a sociedade justa e igualitária proposta por Marx. Nunca será bastante lembrar que a ausência da propriedade privada dos meios de produção é condição necessária mas não suficiente da sociedade comunista teorizada por Marx. Assim, não se devem confundir tentativas de realizações levadas a efeito por inspiração das teorias marxistas com as propostas de Marx de superação das contradições capitalistas. Também é improcedente – e de maneira ainda mais rigorosa – confundir a ciência com o ideário político de qualquer partido. Pode haver integração entre um e outro mas nunca identidade.

Em segundo lugar, é preciso entender que a história não termina em qualquer de suas manifestações particulares, quer na vitória comunista, quer na capitalista. Como Marx mostrou, o próprio esforço por manter e reproduzir um modo de produção acarreta modificações qualitativas nas forças em oposição. Assim, em termos científicos e marxistas, é preciso voltar o olhar para a compreensão da emergência de novas forças sociais e de novas contradições. Enganam-se os teóricos de direita e de esquerda que vêem em dado momento a realização mítica de um modelo ideal de sociedade.

Em terceiro lugar, hoje se vive nas ciências, de maneira geral, um momento de particular cautela, pois após dois ou três séculos de crença absoluta na capacidade redentora da ciência, em sua possibilidade de explicitar de maneira inequívoca e permanente a realidade, já não se acredita na infalibilidade dos modelos, e o trabalho permanente de discussão, revisão e complementação se coloca como necessário. Não poderia ser diferente com as ciências sociais, que, do contrário, adquiriram um estatuto de religião e fé, uma vez que se apoiaram em verdades eternas e imutáveis.

Assim, o fim da União Soviética não significou o fim da história ou da sociologia, nem o esgotamento do marxismo como postura teórica das mais amplas e fecundas, com um poder de explicação não alcançado pelas análises posteriores. Tampouco terminou com a derrubada do Muro de Berlim o ideal de uma sociedade justa e igualitária. O que se torna necessário é rever essa sociedade cujas relações de produção se organizam sob novos princípios – enfraquecimento dos estados nacionais, mundialização do capitalismo, formação de blocos supranacionais e organização política de minorias étnicas, religiosas e até sexuais -, entendendo que as contradições não desaparecem mas se expressam em novas instâncias.

Em seu livro “De volta ao palácio do barba azul”, George Steiner mostra como a sociedade pós-clássica acabou por desmanchar os antagonismos mais agudos que existiam na sociedade ocidental. Os grupos etários se aproximam, as distinções comportamentais dos sexos desaparecem, o mundo rural e o urbano se integram numa estrutura única industrial, e assim por diante. É nessa perspectiva que ele propõe uma releitura da teoria marxista, tentando encontrar em diferentes conjunturas sociais formas de contradição e exploração como as que Marx distinguiu na realidade francesa e na inglesa. Por mais que pretendesse entender o desenvolvimento universal da sociedade humana, Marx jamais deixou de respeitar cientificamente a especificidade e a historicidade de cada uma de suas manifestações.

(¹) A Segunda Internacional ou Internacional Socialista existe ainda hoje, sua sede fica em Londres, representando, na sua maioria, os partidos social-democratas e/ou socialistas formados, no final do século XIX, na Europa e, no primeiro quartel do século XX, no resto do mundo.

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