Medicina alternativa, charlatanismo e picaretagem: analfabetismo científico e irresponsabilidade na saúde brasileira

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Segundo publicação na página do Ministério da Saúde, “estes tratamentos utilizam recursos terapêuticos, baseados em conhecimentos tradicionais, voltados para curar e prevenir diversas doenças como depressão e hipertensão”.

É inconformável constatar que, enquanto a medicina, baseada no conhecimento científico (genética, imunologia, parasitologia, bioquímica, etc) tem feito enormes avanços, e alinhada com com áreas das ciências exatas, como a computação, engenharia, estatística e matemática, alguns segmentos, política e pessoas insistem em continuar vivendo na Idade Média.

Descrevemos abaixo o significado dos principais itens citados na publicação, em especial as que consideramos mais pseudocientíficas e irresponsáveis.

Ayurveda

A Ayurveda baseia-se no sistema filosófico samkhya nos cinco elementos que formam toda a manifestação material do universo. São eles éter, ar, fogo, água e terra. De acordo com o Ayurveda, quando algum dos 5 elementos está em desequilíbrio no corpo do indivíduo, inicia-se o processo da doença. Segundo essa tradição, os seres humanos são influenciados pelos 5 elementos através do dosha. Os doshas são Vata, regido por ar e éter, Pitta, regido por fogo e água, e Kapha, regido por terra e água. Todas as pessoas possuem os três doshas, mas em diferentes proporções. No momento da nossa concepção a nossa constituição é definida, isto é, os doshas que estão presentes em maior quantidade no nosso organismo. Ao nascermos, tal proporção está em equilíbrio (prakrti), mas com o tempo e a vida desregrada surge o desequilíbrio em um ou mais desses doshas (vikrti), contribuindo para o surgimento e desenvolvimento de doenças. Para o Ayurveda, a saúde de uma pessoa é medida pela força de seu agni (fogo digestivo). Um “bom agni” é capaz de extrair dos alimentos ingeridos os nutrientes necessários para formar tecidos fortes; por outro lado, quando o agni está diminuído ou é irregular (menor capacidade digestiva) a nutrição dos tecidos fica mais pobre, comprometendo a saúde e a integridade estrutural do organismo. Costuma-se ouvir muito que “você é o que você come”, mas podemos concluir, com o exposto, que a medicina indiana vai além: “você é o que você consegue digerir”.

Antroposofia

Segundo Steiner, a antroposofia é a “ciência espiritual“. Ele a apresenta como um caminho em busca da verdade que preenche o abismo historicamente criado desde a escolástica entre e ciência. Na visão de Steiner, a realidade é essencialmente espiritual: ele queria ajudar as pessoas a superar o mundo material e entender o mundo espiritual através do eu espiritual, de nível superior. Segundo Steiner, há um tipo de percepção espiritual que opera de forma independente do corpo e dos sentidos corporais.

Crenoterapia

A crenoterapia consiste na indicação e uso de águas minerais com finalidade terapêutica, atuando de maneira complementar aos demais tratamentos de saúde. Com o potencial brasileiro desse recurso terapêutico e os benefícios para a promoção e recuperação da saúde nas diversas racionalidades, demandou-se a implementação, no âmbito das experiências consolidadas, de observatórios de saúde com o objetivo de aprofundar os conhecimentos sobre sua prática e seu impacto na saúde.

Naturopatia

Sistema holístico, ou seja, os médicos naturopatas esforçam-se para encontrar a causa da doença pela compreensão do corpo, mente e espírito da pessoa.

Biodança

Também chamada de psicodança, é um sistema de integração afetiva e desenvolvimento humano baseado em “vivências” (experiências intensas no “aqui e agora”) criadas através de movimentos de dança com músicas selecionadas que geram a catarse purificadora do praticante, e através de situações de encontro não verbal dentro de um grupo, contribuindo para a renovação orgânica e para a reaprendizagem das funções originárias da vida (instintos). Visa a permitir, ao ser humano, o pleno desabrochar de suas potencialidades.

Reiki

Através desta técnica, os praticantes acreditam ser possível canalizar a energia universal (i.e., reiki) em forma de Ki (japonês: ki) a fim de restabelecer um suposto equilíbrio natural, não só espiritual, mas também emocional e físico.

Reflexoterapia

Técnica terapêutica que consiste em provocar, por excitação, picada ou cauterização, reflexos em uma parte do corpo afastada da lesão.

Homeopatia

Método terapêutico que consiste em prescrever a um doente, sob uma forma diluída e em pequeníssimas doses, uma substância que, em doses elevadas, é capaz de produzir num indivíduo sadio sinais e sintomas semelhantes aos da doença que se pretende combate.

Acupuntura

Ramo da medicina chinesa tradicional que consiste em introduzir agulhas metálicas em pontos precisos do corpo de um paciente, para tratar de diferentes doenças ou provocar efeito anestésico.

A medicina científica, baseada em evidências,  precisa passar uma série de etapas que devem ser cumpridas antes de um teste clínico final. Antes de um novo tratamento ser aprovado para testes clínicos, muitas exigências precisam ser cumpridas. Há testes em culturas de célula e estudos in vitro, em seguida os testes em modelos animais, e só finalmente os testes clínicos, realizados também em pelo menos três etapas.

Inicialmente uma hipótese, sem nenhuma comprovação, agora um medicamento ou tratamento clínico com eficácia, com parâmetros farmacológicos (indicações, contra-indicações) incluindo efeitos colaterais.

Como realizar testes em uma terapia alternativa que não tem um princípio científico definido? Que não tem hipóteses científicas claras?

É fundamental as evidências que consigam superar a chamada “hipótese nula”, i.e. a hipótese de que o tratamento não funciona. Parte-se desse pressuposto.

Todo tratamento e terapias é testada partindo do princípio que ele não funciona, a “hipótese nula”, e os pesquisadores devem procurar indícios que refutem esta hipótese. Assim se faz ciência e isso é fundamental na medicina, uma prática clínica responsável pela saúde das pessoas.

Estudos sistemáticos realizados recentemente, por exemplo, tem demonstrado que Homeopatia NÃO FUNCIONA e que efeitos da acupuntura e reiki e outras medicinas alternativas não foram melhores que ao placebo dos mesmos [1] [2] [3] [4] [5].

Apenas um país governado por irresponsáveis e analfabetos científicos, assessorado por ativistas adeptos ideológicos de pseudociência e pseudomedicina e uma população ingênua, desinteressada e passiva, para financiar tratamentos absurdos, ultrajantes e inúteis para pacientes com doenças e transtornos sérios.

Não se espantem quando verem um médico receitar uma biodança para um hipertenso ou quando um psiquiatra sugerir a um psicótico ou depressivo que o mesmo “canalize a energia universal, em forma de Ki, para restabelecer o equilíbrio natural”. É o Brasil, o país mais atrasado do planeta!

  1. https://www.nhmrc.gov.au/_files_nhmrc/publications/attachments/cam02f_listofconsideredevidence140407.pdf
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15291296
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21531671
  4. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cncr.28352/abstract
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19787009
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11 Comentários em "Medicina alternativa, charlatanismo e picaretagem: analfabetismo científico e irresponsabilidade na saúde brasileira"

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V. P. Calvo
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O PLACEBO, fenômeno também conhecido como “santa ignorância” e, o NOCEBO, sua versão maligna, enquanto considerados os únicos efeitos reais atribuídos às terapias “não científicas”, são apontados pelos “céticos”, como uma espécie de enganação feita aos ingênuos e ignorantes pacientes que, crédulos, por não possuírem conhecimentos de base científica, acabam por se sentirem MELHOR, apesar da falsidade ideológica aplicada pelos terapeutas, que neste caso, passam ao status de manipuladores de consciências. Ora, se perguntarmos a um “cético”: Que mal pode haver em fazer os pacientes se sentirem melhor?! Ele prontamente responderá que esse bem estar pode mascarar um mal maior… Read more »
Denise
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“O autor desenvolve pesquisa em neurociência computacional pelo Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC, utilizando spiking neural networks, com foco nos correlatos fisiológicos e biofísico da linguagem, autismo (ASD) e desenvolvimento de algoritmos bioinspirados para inteligência artificial, além de possuir interesses na computação quântica neuronal e engenharia neuromórfica. Amante das artes clássicas, mitologia, filosofia da religião e da linguagem.” Poxa… essa descrição sobre as habilidades do autor são tão incompreensíveis quanto inacessíveis ao cidadão comum. O uso de termos cientificamente rebuscados não me fazem sentir mais segura quanto aos métodos e conhecimentos, isso realmente não… Read more »
Marcelo Marques
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“Então essas terapias alternativas, “delicadamente esculachadas” aqui, são as que agem naquela parcela de 50% referente ao indivíduo.” – R: Simples…é só os homeopatas e demais pseudotratdores de pessoas com suas praticas mirabolantes produzirem artigos científicos demonstrando que ESSAS PRATICAS realmente produz algum efeito nas pessoas…do contrario, não passa de lorota mesmo.
E veja que as ‘provas’ são sempre as mesmas: Um amigo de um primo de uma vizinha que tinha uma dor no estomago melhorou porque tomou um remédio ‘x’ da homeopatia! (ou praticou reike, reflexologia, quiropraxia, etc…etc…)

Richard Mello
Visitante
Samuel, cuidado. É muito fácil colocar todas as PIC no mesmo saco e acusá-las: “charlatanismo pseudocientífico!”. Afinal, no seu texto, você oferece uma breve descrição das práticas que considerou “mais pseudocientíficas e irresponsáveis” e encaminha tuas críticas a poucas delas. Tal postura é justamente a das pseudociências: ou seja, você organizou (algumas das) suas ideias de modo que nem ao menos há espaço para tentar refutá-las. Mas tudo bem, essa crítica é puramente semântica, como também me considero um ‘divulgador’ das ciências, prezo pela clareza das colocações. Desde já deixo claro que quanto à acupuntura, homeopatia, reiki: tendo a concordar.… Read more »
Alan
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Temos uma corja de “pseudoentusiastas” que parecem sádicos que gostam de brincar de Madre Teresa com o povo brasileiro, e quando nós mostramos por A + B que suas pseudociências podem acabar matando pessoas somos taxados de intolerantes, que querem impôr as suas crenças aos outros. Olha, eu vou dizer uma coisa… o Brasil só se afunda cada vez mais e as pessoas que tentam ajudar são afogadas pela ignorância.

Anônimo Conhecido
Visitante
Samuel foi meu adversário de discussão há muito tempo. Depois viramos parceiros, unidos por Nietzsche, Taoísmo e estruturalismo antropológico. Voltamos a “guerrear”, talvez de forma definitiva, por questões concernentes à filosofia da mente e ciência. Aqui manterei a tradição recente (p.s: Samuel, você deverá saber quem lhe escreve hehehe). O autor basicamente reifica a Ciência. Vou explicar os motivos: -Primeiro, partimos de uma tautologia: se algo existe, pode ser medido; e tudo que é mensurável, existe. Por quê? Porque sim. Period. A justificação também costuma ver de maneira tautológica (“o que eu falo é válido porque experimentos reprodutíveis lastreiam o… Read more »
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