Não, cientistas não reverteram o tempo com um computador quântico

Nos últimos dias, a mídia noticiou que uma equipe de cientista conseguiu reverter o tempo a partir de um computador quântico, que ainda não foi inventado para fazer viagens ao passado. No entanto, sua técnica pode ser útil para testar programas quânticos, mas as machetes exageradas sobre esse estudo prejudicam a ciência.

Por Konstantin Kakaes
Publicado no Massachusetts Institute of Technology

Se você acredita em tudo que lê na Internet, deve ter sido uns dias emocionantes para a física quântica.

As manchetes foram extraordinárias nos maiores portais. Por exemplo: a Newsweek (Os cientistas conseguiram inverter o tempo em um computador quântico), a Discover (Os cientistas usaram o computador quântico da IBM para reverter o tempo, possivelmente violando uma lei da física), o Independent (Os cientistas “invertem o tempo” com um computador quântico em uma inovadora investigação) e a Cosmopolitan (Os cientistas conseguiram retroceder o tempo e isso é como se o filme De Volta Para o Futuro se tornasse realidade). Há muitos títulos.

O gatilho para essa notícia foi o artigo publicado na Scientific Reports com o título provocador: “Flecha do Tempo e sua reversão no computador quântico da IBM“. No artigo, os autores afirmam ter conduzido um experimento que abre linhas de pesquisa, em suas palavras, para “investigar a inversão do tempo e o fluxo do tempo para trás”.

Se você teve dificuldade em entender como os cientistas realizaram essa proeza tão contraintuitiva, não se preocupe. Eles não fizeram isso.

Alguns modelos físicos simples são simétricos no tempo. Pense em uma versão idealizada da Terra em óbita em torno do Sol, onde cada uma é uma esfera perfeita. Imagine que esse sistema avança ao longo do tempo, com a Terra orbitando no sentido dos ponteiros do relógio. “Inverta” o tempo e, em vez disso, a Terra viajará em uma órbita na direção oposta aos ponteiros do relógio. Ambos os modelos são igualmente realistas. Ou considere duas bolas de bilhar em colisão. Você pode colocar o vídeo em qualquer direção e ainda parecerá fisicamente viável.

O mundo real não é assim. As coisas pareceriam diferentes a partir do momento em que o tempo fosse invertido – de maneiras diferentes, entre elas, a entropia (muita vagamente falando, uma medida de desordem) aumentaria. Esta é uma lei tanto da física quanto do senso comum. (Para uma explicação divertida e triste do estranho resultado que seria a reversão do fluxo do tempo, veja A Flecha do Tempo, de Martin Amis. E, se você realmente quiser entrar nas profundezas da física da viagem do tempo, clique aqui.)

Então, se eles não inventaram a viagem do tempo, o que esses cientistas realmente fizeram?

Pense em selecionar a opção “retroceder” em um vídeo. Isso “inverte o fluxo do tempo”, de certa forma. Se você nunca viu isso antes, é algo formidável. É possível que isso permita ver coisas, que parecem “reverter a flecha do tempo”, como o vapor de flui para trás de uma chaleira ou a Humpty Dumpty que se junta espontaneamente de um amontoado de peças quebradas, que parecem “inverter a seta do tempo”. O estudo em questão descreve uma versão de computação quântica de um vídeo em execução inversa.

A analogia mais próxima é a de uma lente, como a que se poderia encontrar em um telescópio, microscópio ou óculos. Você pode usar uma lente para focalizar a luz: “invertendo” a dispersão da luz que desfocou. Os autores do artigo, do Instituto de Física e Tecnologia de Moscou (Rússia), do Laboratório Nacional Argonne em Illinois (EUA) e da Escola Politécnica Federal de Zurich (Suíça), dizem que sua técnica poderá ser útil para fazer testes de programas quânticos. Isso está certo. Mas é muito menos interessante do que falar de uma máquina do tempo.

Como Scott Aaronson, diretor do Centro de Informação Quântica da Universidade do Texas em Austin (EUA), diz: “Se você está simulando um processo de reversão do tempo no seu computador, então você pode ‘inverter o sentido do tempo’ simplesmente invertendo o sentido de sua simulação. Depois de uma olhada rápida no estudo, confesso que não entendi como isso se tornaria mais profundo pelo fato da simulação ter sido feita no computador quântico da IBM”.

Outros especialistas de computação quântica com que falamos concordam. Um deles, que não queria ser identificado, disse: “Eu não sei o quão útil é isso… isso não significa que esses caras fizeram uma máquina do tempo. Eles certamente não violaram as leis da termodinâmica ou outras leis da física”, acrescentou. “Esse é o tipo de publicidade que mancha o nome da computação quântica”.

Ele tem razão. As manchetes selvagens não apenas mancham o nome da computação quântica. Elas danificam a ciência como um todo por convencer o público de que a ciência é tão desconcertante que está além de sua compreensão. É suficientemente difícil explicar os paradoxos que realmente existem na mecânica quântica sem um embelezamento sensacionalista. O tempo, queiramos ou não, continua.

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Sou fundador da Universo Racionalista | Graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade de Franca | Especialista em Fundamentals of Computing Network Security ( • Design and Analyze Secure Networked Systems • Basic Cryptography and Programming with Crypto API • Hacking and Patching • Secure Networked System with Firewall and IDS ) pela University of Colorado | Especialização em andamento em Cybersecurity ( • Computer Forensics • Network Security • Cybersecurity Fundamentals • Cybersecurity Risk Management • Cybersecurity Capstone ) pela Rochester Institute of Technology | Certificação em Information Security Specialist ( • InfoSec Foundation • Ethical Hacking Essentials • Computer Forensics Foundation ) pela ITCERTS | Certificação em Information Security Analyst ( • Information Security Policy Foundation • Vulnerability Management Foundation ) pela ITCERTS | Cursei integralmente as disciplinas teóricas em Licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franca, mas não realizei o estágio supervisionado para a obtenção do diploma de Ensino Superior | Especialista em Journey of the Universe: A Story for Our Times pela Yale University | Colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade | Colunista da Climatologia Geográfica | Membro da Rede Brasileira de Astrobiologia | Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes e LinkedIn.