Não, o nosso Sistema Solar não é um “vórtex”

Durante a semana passada, circulou um vídeo “viral”, alegando que o Sistema Solar se comporta como um vórtice ou vórtex.

Trata-se de uma animação, muito bem produzida com efeitos gráficos impressionantes. No entanto, a animação chamou a atenção de pesquisadores com a representação apresentada.

De fato, sabe-se que há muitas informações com pouco embasamento científico, talvez, no mínimo, questionáveis, que são apresentadas como verdadeiras. Algumas pessoas pesquisaram sobre a plausibilidade da animação apresentada e a crítica encontrada, com um elevado grau de razoabilidade foi a de Philip Cary Plait, conhecido como Phil Plait, astrônomo americano, cético e escritor de livros de divulgação científica.

Em seu blog de divulgação científica, Plait, apesar de elogiar a construção do vídeo, afirma que o conteúdo é infundado, baseado em uma premissa incorreta. O motivo de sua crítica é justamente a movimentação não heliocêntrica dos planetas.

Por Phil Plait
Publicado no Bad Astronomy

Tenho recebido inúmeros “tweets” e e-mails de pessoas que mencionam um vídeo de aparência superficial e vaga, trata-se de uma animação computadorizada, mostrando a movimentação dos planetas ao redor do Sol, bem como a movimentação do Sol em sua órbita na Via Láctea. É um vídeo bonito com gráficos e trilha sonora atraentes.

Entretanto, existe um problema com ele: é um vídeo totalmente equivocado. A animação está profundamente errada, baseada em uma premissa incorreta. Embora haja algumas representações úteis, eu recomendo que as pessoas não as levem a sério.

Por quê? A alegação básica do vídeo é que os planetas não estão orbitando o Sol seguindo o modelo heliocêntrico, mas em um modelo de órbita dentro de um vórtice ao redor da nossa galáxia.

Normalmente, eu não me incomodaria em refutar esse tipo de alegação: reivindicações pseudocientíficas são propostas o tempo todo e normalmente desaparecem após um tempo.

Nesse caso, porém, muitas pessoas estão me comunicando sobre esse vídeo, então claramente o mesmo tornou-se popular, provavelmente porque conta com gráficos espetaculares e, por falta de entendimento, parece ser algo correto. Estou observando que o mesmo vídeo está sendo alimentado por pessoas que entendem de ciência, mas erram nas premissas que estão em desacordo com a realidade. Para averiguar essas informações, precisamos nos aprofundar mais em suas premissas.

Então, vamos refutar?

Espiral fora de controle

Assista o vídeo, pois são apenas alguns minutos:

O criador do vídeo, D. J. Sadhu, é nitidamente talentoso com computação gráfica. Já em relação aos seus conhecimentos científicos…

Inicialmente, eu posso ver a primeira alegação proposta. Ele, D. J. Sadhu, deliberadamente diz que o modelo heliocêntrico está equivocado. Essa afirmação de Sadhu é equivalente a afirmação de que a gravidade não existe.

Basicamente, presume-se que o heliocentrismo é a afirmação de que o Sol está no centro do Sistema Solar, e os planetas orbitam em torno desse centro. (É válido citar que os planetas orbitam em trajetórias elípticas, e essas órbitas possuem inclinações diferentes sobre uma em relação a outra). Esse modelo substituiu o antigo modelo geocêntrico, em que o planeta Terra era considerado no centro do Sistema Solar. O geocentrismo, como modelo físico, é extremamente complexo e exagerado, é necessário postular todo tipo de hipótese problemática para que ele faça sentido. (Pesquise sobre “epiciclo”, caso você tenha um Tylenol em mãos). No entanto, o heliocentrismo faz muito mais sentido em relação à física e funciona muito melhor.

Vou observar ambos os modelos e seus usos. Por exemplo, se você quer saber para onde olhar no céu e observar um planeta em particular, você utilizará coordenadas geocêntricas. Afinal, vivemos no planeta Terra e numa observação do tipo faz sentido utilizar esse modelo, visto que, como observador, o céu parece se mover sobre nós. Porém, se você quer enviar uma sonda espacial para o planeta, é muito melhor utilizar o modelo heliocêntrico. Sua matemática será de muito mais fácil compreensão, visto que tanto o planeta (destino) como a Terra (origem) estão em movimento.

A afirmação de Sadhu presume não apenas que o modelo heliocêntrico está equivocado, mas que o movimento do Sistema Solar é um vórtice. Porém, o que ele realmente quer propor é um movimento helicoidal e não um vórtice. Ambos são diferentes não apenas no nome, mas também no que se referem aos seus movimentos físicos como suas propriedades. Podemos obter o movimento helicoidal sem interação com as partículas, assim como no Sistema Solar, mas em um vórtice é necessário a interação das partículas através de arrasto e atrito.

Porém, não vamos discutir sobre a semântica. Assista ao vídeo novamente e perceba que Sadhu propõe um Sol que carrega os planetas em sua frente e percorre um giro em torno da galáxia. Esse fenômeno é ainda mais evidente no segundo vídeo.

Esse segundo vídeo também está completamente equivocado. Muitas vezes, os planetas estão realmente a frente do Sol, levando em consideração a órbita do Sistema Solar através da Via Láctea.

Novamente, não estou argumentando minuciosamente os detalhes. A ideia de que os planetas percorrem órbitas atrás do Sol, enquanto o mesmo se move através da galáxia é fundamental para a proposição de Sadhu. Quanto à hélice, explicarei ao longo do texto: “Como essas ideias surgiram?”. Porém, primeiro é necessário observar outros aspectos.

Para piorar, ele lançou um segundo vídeo, mostrando a movimentação do Sol ao redor da galáxia.

Para ser justo, nesse momento ele propõe a movimentação planetária helicoidal. Porém, ainda descreve os planetas sendo arrastados atrás do Sol, o que é errado. Nota-se, também, no início do vídeo a sua interpretação de movimentação helicoidal com o modelo heliocêntrico, o que revela uma tentativa errônea de sua proposição de que as órbitas planetárias helicoidais estão sendo lideradas pelo movimento solar através da galáxia.

Olhe atentamente para a animação do movimento heliocêntrico. Ele mostra a direção do movimento do Sol ao redor da galáxia sendo no mesmo plano de que as órbitas planetárias. Porém, isso não é o caso. O plano do Sistema Solar é inclinado em relação a galáxia por um ângulo de aproximadamente 60 graus, muito parecido com o formato de um parabrisa de carro em relação a sua movimentação frontal.

Essa é realmente a crítica: no modelo helicoidal, ele apresenta os planetas orbitando o Sol perpendicularmente à movimentação do Sol ao redor da galáxia – e isso está errado. As órbitas planetárias possuem um inclinação de aproximadamente 60 graus e não 90. Por esse motivo, os planetas podem estar a frente ou atrás do Sol. Isso demonstra que a descrição helicoidal está incorreta. No modelo atualmente mais aceito, heliocentrismo, podemos observar essa movimentação a frente e atrás em relação ao Sol, exatamente como é observado realmente.

Porém, não é só isso. Sadhu mostra o Sol se movimentando através da Via Láctea oscilando em uma espiral, como no primeiro vídeo. De fato, uma parte da apresentação está correta, mas longe da representação real.

Nossa galáxia é um disco plano com cerca de 100 mil anos luz de diâmetro com uma protuberância central ou aglomeração de estrelas. Esse disco é composto por bilhões de estrelas e a combinação da gravidade é o que mantém a órbita solar ao redor do centro da galáxia, da mesma forma que a gravidade solar mantém as órbitas planetárias.

Galáxia
Créditos: Chris Setter / Phill Plait.

O comprimento da órbita do Sol não é cerca de 240 milhões de anos. Durante o percurso do Sol orbitando a galáxia, de fato, existe a oscilação. Porém, são cerca de quatro vezes por orbita ao redor do centro galáctico. Sadhu, em seu vídeo, mostra o Sol oscilando ou espiralando dezenas de vezes por órbita.

Essa oscilação é devido ao funcionamento da gravidade do disco galáctico. É realmente impressionante: se você está um pouco acima, você imagina uma atração do globo para baixo em direção ao disco. Imagine que o disco é um enorme pedaço de matéria e o Sol está acima desse disco. A gravidade fará com que o Sol mergulhe para dentro desse disco.

Devido a distância entre as estrelas, imagine o Sol percorrendo através do disco para baixo, em determinado momento o próprio disco estaria puxando-o para cima novamente em direção ao disco. Essa oscilação, levando em consideração o plano médio galáctico ocorre a aproximadamente 200 anos-luz. Analogamente, o disco possui cerca de 1000 anos-luz de espessura, embora passemos a maior parte do tempo dentro desse limite de espessura. Essas oscilações ocorrerão exatamente igual a uma rolha flutuando no oceano.

Desde que o Sol também esteja orbitando a galáxia, o movimento combinado parece com um padrão adorável de onda, subindo e descendo, parecendo um cavalo em um carrossel. Então, Sadhu descreve essa parte de maneira mais ou menos verdadeira.

Porém, então, ele acrescenta um terceiro movimento, uma espiral girando em torno da órbita solar, em que ele atribui a precessão. Essa parte está totalmente equivocada.

A precessão é o resultado de uma oscilação superior no eixo, à medida que gira em torno desse eixo, e ocorre quando possui uma força fora do centro atuando na parte superior do eixo de rotação. Analogamente, é como girar um pião: ele oscila, ou seja, precessa. Nosso planeta mesmo possui precessão em seu eixo e completa essa oscilação a cada 26.000 anos devido à gravidade do Sol e da Lua.

Aparentemente, é isso o que Sadhu representa em seu vídeo. Porém, essa oscilação não afeta o Sol completamente. Sadhu acrescenta esse movimento no Sol ao orbitar a Via Láctea, o que não faz sentido. O vídeo mostra o Sol orbitando ao redor da galáxia e, em determinado momento, mais próximo ao centro galáctico e outro momento mais distante. Voltando a analogia do carrossel, é como se o cavalo, além de oscilar para cima e para baixo, oscilasse à esquerda e à direita. Porém, não é realmente o que o Sol está fazendo, pois não há nenhum movimento de esquerda à direita, na direção para o centro galáctico repetidas vezes por órbita.

Nesse vídeo, Sadhu frequentemente confunde sistemas de coordenadas, forças e movimentos.

Então, por que ele retrata todos esses movimentos de forma errônea? Para descobrir isso, precisei buscar suas fontes.

De onde essas ideias vieram?

Em seus vídeos e em seu site, Sadhu faz referência a um homem chamado Pallathadka Keshava Bhat. Eu encontrei um texto intitulado “Helicoidal Helix: Solar System a Dynamic Process”, que descreve todas essas ideias nonsense. Bhat argumenta que o heliocentrismo está equivocado, mas, em seguida, utiliza falácia após falácia para concluir seu argumento. Eu poderia escrever páginas e mais páginas refutando seus argumentos, mas vou parar por aqui.

Eu li as explicações de Bhat diversas vezes, tentando ser o mais justo possível. Pelo que pude perceber, o que ele alega é: devido ao movimento do Sol, os planetas fazem esses movimentos helicoidais através da galáxia, tendo o Sol como líder e os planetas sendo arrastados para atrás e, portanto, o heliocentrismo está errado. Nota-se que no vídeo de Sadhu é demonstrado exatamente as ideias equivocadas de Bath. Se isso realmente fosse verdade, nunca veríamos os planetas superiores, que são os planetas cuja a órbita é maior do que a nossa em relação ao Sol. No entanto, é o que fazemos o tempo todo.

Além disso, nós temos várias sondas espaciais que visitaram outros planetas, muitas dessas sondas ainda orbitam esses planetas. Se o heliocentrismo estivesse errado na forma como Bath descreve, essas sondas nunca teriam sucesso em realizar sua trajetória e manter sua órbita nos planetas. Os cálculos que foram utilizados para alcançar esses objetivos não teriam funcionado. De fato, não possuímos quaisquer cálculos necessários para realizar uma missão pressupondo o modelo de Bath como correto. Logo, Bath não pode estar certo.

Alegar que o Sol está em uma extremidade ou ponta do Sistema Solar, com os planetas sendo arrastados em órbita helicoidal, também é comprovadamente errado. O Sol não arrasta os planetas através da galáxia como um projétil como as ideias de Bath aparentemente alegam, bem como as animações nos vídeos de Sadhu.

Os planetas orbitam ou giram em torno do Sol, e toda essa organização se move ao redor da galáxia como uma unidade, com uma inclinação de 60 graus, isso significa que os planetas podem estar por vezes, tanto a frente como atrás do Sol ao longo da órbita galáctica.

De forma análoga, é como caminhar e girar em torno de sua cabeça com uma corda, que possui uma bola na extremidade e um círculo produzido pela rotação inclinado em 60 graus. Às vezes, a bola está à sua frente e, às vezes, está atrás de você. Essa bola sempre se moverá com você, não importa o quão rápido você esteja se movendo. Se você traçar seu próprio caminho, você faz uma linha e a bola faz uma hélice inclinada. Isso é o que Bath e Sadhu estão tentando descrever, mas de forma errada.

Há muitos erros e saltos lógicos que Bath cometeu nesse texto. Por exemplo, a aplicação da precessão terrestre feita por Sadhu, eu fiz questão de ler o que Bath tinha a dizer sobre isso. Porém, é tão ilegível e equivocado. Ele afirma que o ciclo de precessão é de 225.000 anos, quando, na verdade, são apenas de 26.000 anos. Há outros absurdos: ele acredita que se o heliocentrismo estivesse correto, deveria existir eclipses solares a cada mês, devido à inclinação da órbita da Lua.

Bath também parece ter um péssimo entendimento sobre a Terra girando em torno do Sol, pois conclui a impossibilidade de órbitas heliocêntricas. Essencialmente, todas as páginas de sua obra possuem erros básicos fundamentais.

Então, dessa forma, Sadhu baseou seus vídeos nesses escritos. Vale citar que se você vasculhar o site de Sadhu, encontrará todos os tipos de links para assuntos pseudocientíficos como: conspirações de 9/11, chemtrails e os delírios de David Icke, que afirma que os reptilianos vivem sobre o aeroporto de Denver e controlam o mundo. Só com base nisso já poderíamos mudar nossa perspectiva sobre a veracidade das alegações em seus vídeos.

Os vídeos de D. J. Sadhu são belos, quando levamos em consideração a computação gráfica envolvida, mas só possuem algumas informações parcialmente verdadeiras. Porém, na minha opinião, a mensagem central é desperdiçada devido o embasamento na visão distorcida de Bath sobre o universo.

Parece tudo muito certo e legal, apelando a um sentido de como as coisas deveriam funcionar. Porém, há uma distância fundamental entre como as coisas deveriam ser e como elas realmente são que não podem ser sobrepostas por uma visão ingênua e pseudocientífica. O universo é um lugar maravilhoso, e funciona através de um conjunto razoavelmente bem estabelecido de leis. Chamamos essas leis de física, que são demonstradas pela linguagem matemática, sempre buscando entender tudo o que é ciência.

Nem tudo o que é legal é ciência, mas tudo na ciência é legal. Essa pode não ser uma dessas leis universais, mas, apesar de tudo que eu vi, é verdade mesmo assim.

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