Neurogênese, fatores neurotróficos e exercício

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A neurogênese é o processo de formação de novos neurônios no cérebro, esse processo ocorre também na fase adulta, em determinadas áreas e por meio de determinadas reações. Acreditava-se que o número de células cerebrais (neurônios) era estabelecido apenas na fase pré-natal, não havendo a geração de novos neurônios ao longo da vida.

Em 1912, Ezra Allen propôs pela primeira vez, ao observar figuras mitóticas nas paredes dos ventrículos laterais em roedores, a possibilidade de que neurônios pudessem ser gerados na fase adulta em mamíferos. Tal informação foi de imediato descartada pelos estudiosos da época, pois nenhum outro estudo nesse sentido demonstrou que tais figuras poderiam ser realmente novos neurônios.

Muitas décadas passaram e o consenso sobre a incapacidade de nosso cérebro em gerar novos neurônios seguiu firme entre os neurocientistas, diversos grupos de cientistas se debruçavam sobre o tema, e o assunto voltou a ganhar força com o desenvolvimento de novas técnicas de pesquisa, onde mais claramente foi possível observar a neurogênese hipocampal em roedores, primatas e posteriormente em humanos, sendo hoje consenso entre os pesquisadores a validade de estudos que mostram a neurogênese em quase todos os grupos de vertebrados e alguns grupos de invertebrados.

Em roedores acredita-se que a taxa diária de novos neurônios no hipocampo e em ventrículos chegue ao número de 9.000, porém em humanos as últimas pesquisas apontam para uma quantia menor variando de acordo com diversos fatores intrínsecos e ambientais. Também é notório o declínio da taxa de neurôgenese ao avançar da idade, no mesmo sentido de declínio de funções cerebrais como a memória, portanto se estabelece o pensamento que tal evento (neurogênese) esteja ligado ao processo de manutenção de funções cognitivas durante o envelhecimento.

shutterstock_200185364Fonte: Google Imagens

Os novos neurônios formados no hipocampo passam por adaptações estruturais até se tornarem funcionais para que possam atuar especialmente nas áreas de memória e aprendizado. Diversos fatores podem interferir nos processos de neurogênese, aumentando ou diminuindo a produção de novos neurônios. Situações de estresse elevam os níveis de glicocorticoides e estudos em roedores mostraram que tal evento diminui a taxa de neurogênese, temos também como exemplo de fator de diminuição na produção de novos neurônios a ingestão de álcool e tabaco.

Por outro lado, alguns estímulos são benéficos e garantem maior neurogênese. Ratos adultos foram colocados em gaiolas com objetos diferentes como túneis, obstáculos e rodas para exercício físico, e os dados coletados mostraram que as atividades exploratórias e o exercício aeróbio foram fatores que trouxeram significativo aumento de células no giro denteado do hipocampo.

A partir de resultados como esse, o exercício físico, movimentos corporais, e a busca pelo novo, passaram a ser fortemente indicados no que se refere a maior capacidade de gerar novas células cerebrais e torna-las funcionais.

exercicios-aerobicos4-566x210Fonte: Google Imagens

Como já falamos a neurogênese ocorre a partir de fatores intrínsecos e extrínsecos de acordo com diversos tipos de estímulos. O exercício físico aparece como fator de destaque no disparo de mecanismos que levam a efeitos indutores de novos neurônios hipocampais, assim também atuando na proteção e maior longevidade de todas as células cerebrais.

Isso tudo ocorre devido á tênue relação entre o exercício físico e uma família de proteínas conhecidas como Neurotrofinas ou Fatores Neurotróficos. Indivíduos que praticam exercício físico (ainda não se sabe por qual motivo) apresentam maiores níveis séricos dessas proteínas e estudos recentes confirmam essa correlação.

São considerados fatores neurotróficos, proteínas que desempenham papel fundamental para a modulação sináptica, diferenciação e longevidade dos neurônios. Basicamente estamos falando de um conjunto de proteínas indispensáveis para a plasticidade cerebral, tais proteínas formam uma família com os seguintes integrantes: NGV (fator de crescimento do nervo, em inglês, nerve growth factor); BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro, em inglês, brain derived neurotrophic factor) e demais Neurotrofinas que formam uma “subfamília” com a Neurotrofina 3 (NT-3, NT-4/5 e NT-5/6).

Ao ser importante para a plasticidade cerebral, podemos entender que os Fatores Neurotróficos ajudam a manter saudáveis as conexões cerebrais, e a comunicação entre os neurônios ocorrem de maneira mais sustentável, assim todo o sistema cerebral se mantém, garantindo também a neurogênese adequada e por consequência memória e aprendizagem eficaz por mais tempo de vida.

Atualmente existem diversos estudos sendo realizados com o intuito de verificar a relação entre o exercício físico e a melhora nas funções cognitivas. Os resultados mostram que de fato essa relação existe e deve ser explorada.

Dados mostram que indivíduos que realizaram exercício físico durante a infância apresentam melhor capacidade de aprendizagem na fase adulta se comparado com adultos que não tiveram essa vivência na infância, pesquisas realizadas com gestantes revelaram que a prática de exercício físico durante a gravidez faz com que os bebês tenham maiores níveis séricos de Fatores Neurotróficos e como consequência evolução cognitiva mais acentuada nos primeiros anos de vida.

É indicado a pratica de exercício físico em qualquer idade, pois é notável a melhora para a saúde física e mental. A Organização Mundial da Saúde orienta que para a manutenção de um estado saudável sejam realizados 300 minutos de exercício físico semanalmente, seja de forma leve ou moderada.

Bibliografia

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