O Big Bang está mais forte que nunca (ou por que Galileu está se revirando em seu túmulo)

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A divulgação talvez seja tão importante para a ciência quanto a pesquisa em si, mas é também uma faca de dois gumes. Quando bem feita a divulgação científica educa e inspira. Lembro-me que meu principal passatempo quando criança era ler sobre ciência, seja em livros ou em revistas, e três revistas eram muito boas, a Globo Ciência, a Super Interessante e a Ciência Hoje. Mas quando é mal feita, a divulgação científica, não apenas não agrega nada ao leigo como também o prejudica. Passam informação falsa usando sempre a mesma desculpa, o entretenimento. Hoje há no Brasil duas revistas que fazem muito bem esse papel da má divulgação e infelizmente estão entre as três que citei anteriormente, mudaram até de nome. A antiga Super Interessante hoje é apenas Super e a Globo Ciência hoje se chama Galileu e é sobre duas notícias dessa ultima que irei comentar aqui.

No blog da revista Galileu, foram divulgadas duas notícias, não coincidentemente escritas pela a mesma autora, que alegam uma suposta perda de credibilidade da teoria do Big Bang na comunidade científica. Elas se intitulam “O Big Bang não existiu?” e “A teoria do Big Bang pode ser extinta”. Bom primeira coisa a chamar atenção é que essa informação é falsa, a teoria do Big Bang não perdeu credibilidade alguma. Muito pelo contrário, os dados dos experimentos mais recentes, O Planck e o DES, só o estão confirmando mais. Não há artigos com evidências que comprometam o modelo e é muito raro aparecer uma em discordância. E quando isso acontece ou é por um erro de análise ou a medida é tão ruim que sua relevância estatística é fraquíssima.

A primeira notícia tem também um subtítulo que diz “Uma nova equação prevê que o Universo não teve começo – e não terá fim”. Então vamos por partes, primeiro vou escrever isso:

a(t) = sin(wt)

Sabe o que é isso? Uma equação que diz que o universo oscila! E agora:

a(t) = 1

Uma equação que diz que o universo é estático!

E agora eu faço uma pergunta, basta existir uma equação para refutar a anterior? Claro que não! Deve-se fazer experimentos! Experimentos! Não é porque a teoria é linda maravilhosa e tudo que eu queria que ela está certa e a natureza errada. Sim, é claro que eu exagerei, existem equações de teorias bem fundamentadas que descrevem os mais diversos tipos de universos. Cíclicos, eternos, estacionários etc. Mas para uma teoria ser aceita pela comunidade científica ela precisa ser suportada pelas evidências. E como mencionado anteriormente a teoria melhor suportada é a do Big Bang.

Esse subtítulo ainda afirma que o universo não teve início, mas o Big Bang também não diz isso. Essa ideia errada de que o universo com certeza teve um início é tão propagada pelos meios de comunicação, que hoje é praticamente senso comum. Então o que é? Pra explicar de forma sucinta o modelo diz que em um passado remoto o conteúdo material do universo estava em um estado muito denso e quente, ou seja, comprimido. E a partir daí ele começou a se expandir. Sabe o que aconteceu antes? Não sabemos! Provavelmente estava em um estágio mais comprimido ainda, mas também pode ser que estava em um estágio frio, que começou a se comprimir e depois começou a se expandir! O que sabemos com muita certeza é que em algum momento esteve assim, então qualquer teoria alternativa deve necessariamente descrever essa fase do universos. Em outras palavras, um novo modelo deve conter nele o Big Bang. O artigo fala como se o modelo estivesse em vias de ser descartado, mas na verdade está muito longe disso.

O segundo artigo é pior ainda, um show de péssimo jornalismo. Começa pelo título falso e alarmista e o subtítulo, “E isso é uma coisa boa – nós explicamos” é um bocado pedante. Mas quanto aos conteúdo? Apenas a cópia de um artigo em inglês de uma péssima fonte. No meio do texto chegam a citar o autor do original da seguinte forma:

“De acordo com este artigo (escrito por Rick Rosner) a teoria que substituirá o Big Bang irá tratar o Universo como um processador de informação.”

Parece então que esse tal de Rick é um cientista que trabalha no ramo, mas não! Ao buscar pelo nome dele descobrimos que é um produtor de TV e o texto original é de seu blog! E esse negócio de universo como processador de informação é bem pomposo, mas não faz sentido algum! Além disso o autor repete o tempo todo que o Big Bang é uma explosão, e isso está errado pelo mesmo motivo que descrevi antes.

Quanto as supostas evidências experimentais contrárias ao Big Bang. Uma delas seria um buraco negro super massivo quase tão antigo quanto o universo, mas ao olhar o artigo original vemos que isso é um desafio para as teorias de formação de buracos negros e não uma evidência contra o Big Bang. E há tão pouca informação sobre a segunda que fica bem difícil de encontrar seu artigo … porque será?

Em suma, apesar das chamadas pretensiosamente revolucionárias os dois artigos apenas propagam desinformação. Usam e abusam de erros do senso comum e usam fontes muito ruins. Desconfio que foram usados desonestamente pela autora para defender algum ponto de vista pessoal seu.

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