O presente de grego de Bolsonaro às universidades

Seguindo à risca o plano de desmonte da ciência e da identidade nacional, Bolsonaro ataca o coração da pesquisa brasileira: as universidades.

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Bolsonaro e Abraham, ministro da Educação, atacam novamente a educação pública brasileira. A vítima da vez é a educação básica - Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Bolsonaro e Abraham na posse do novo ministro da Educação. Foto: Pedro Ladeira / Folhapress.

Alunos, professores, pesquisadores e técnicos da UnB, UFF e UFBA amanheceram na última quarta-feira (30/04) com uma notícia difícil de engolir: o já restrito orçamento sofrera um corte de 30%. Mais tarde, naquele mesmo dia, o governo anunciava que o corte não se restringiria à elas. Quase um terço do orçamento de todas as universidades e institutos federais do país tinha sido confiscado. O motivo? Combater a “balbúrdia” como foi nomeada pelo Ministro da Educação, Abraham Weintraub. A medida é mais um passo do plano de governo bolsonarista de atacar e desmoralizar a ciência brasileira.

A trincheira do presidente com a racionalidade não é nenhuma novidade. Ainda durante o período eleitoral, o Universo Racionalista comentou o plano de governo de Bolsonaro para a ciência, ressaltando o caráter totalmente subserviente e de descrédito frente ao mundo que se pretendia impor à pesquisa nacional. Agora presidente, Bolsonaro e sua equipe seguem, à risca, o passo a passo desse projeto.

Atacar as universidades é atacar a ciência brasileira

Em coluna publicada no jornal Folha de São Paulo do dia 21/04/2019, Reinaldo José Lopes cita a importância da universidade para a produção científica brasileira. Na ocasião, ele rebatia a fala do presidente, que mentiu mais uma vez, ao comentar que “Poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada”.

Na verdade, as instituições públicas são responsáveis pela esmagadora maioria da produção de conhecimento no país. Dados da Associação Brasileira de Ciências mostram que mais de 95% da produção científica do país são oriundos das universidades públicas. Esse cenário coloca o país entre os 15 maiores produtores de estudos científicos publicados no planeta. Só em 2017, por exemplo, os cientistas brasileiros publicaram por volta de 200 novos artigos diariamente.

Ao mesmo tempo, segundo o Ranking Universitário da Folha, USP, Unesp e Unicamp, por exemplo, correspondem, sozinhas, a mais de um terço desse total, e estão, juntas com outras 4 universidades federais, entre as 20 melhores da América Latina. Não somente isso, mas é através das instituições públicas que o Brasil participa de importantes grupos de pesquisa a nível mundial, como o responsável pela primeira detecção das ondas gravitacionais em 2016 assim como o grupo de elite de pesquisa em Matemática, o qual o país passou a integrar em 2018.

Enquanto isso, a primeira universidade privada a aparecer no ranking de publicações, por exemplo, a PUC do RJ, figura a 32ª posição, dizimando a mentira proferida por Jair Bolsonaro, que mais uma vez mostra-se extremamente ignorante ao estado da pesquisa no país. Vale ressaltar que em visita à Israel, o presidente fez destaque a uma solução israelense de dessalinização de água, ao mesmo tempo que o Brasil possuía uma solução ainda mais avançada e desenvolvida em solo nacional. Atrofiar a pesquisa e a inovação no país, mostram-se como os passos perfeitos para manter o país refém da tecnologia estrangeira.

Atacar as universidades é atacar a identidade do povo brasileiro

É importante frisar também que a universidade é por si um local de extrema pluralidade, caráter que emerge de seu direito à autonomia. Isso permite que seus integrantes estejam expostos à diversos tipos de experiências: a pesquisa, inovação, ensino e extensão, assim como a exposição às artes, à cultura e à discussão de diferentes visões de mundo dentro do campo acadêmico. Essa experiências são extremamente importantes para a construção do sujeito enquanto ser social pensante contribuindo para a construção da identidade do país e na construção de uma educação libertadora.

Com as medidas tomadas, Bolsonaro escancara seu viés autoritário e de total descaso com a ciência e a educação do país. Reprimir a produção de conhecimento, promover a censura da figura do professor na sala de aula e mostrar que o financiamento desses espaços estão sobre constante ameaça por questões ideológicas, mostram que a autonomia universitária está em constante perigo e, junto à ela: a construção do conhecimento, a ascensão do país como uma potência da ciência e tecnologia mundial e a construção do indivíduo enquanto ser pensante.

Atacando a universidade pública brasileira e seus integrantes, Bolsonaro e sua equipe humilham o país, subordinando-o a tecnologia internacional e destruindo a identidade de seu povo.

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