Sociedade Brasileira de Física repudia ataque às ciências humanas e mais um corte de 30% na educação

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Uma representação fictícia da Teoria das Redes Sociais. Créditos: Darwin Peacock / Wikimedia.

Publicado na Sociedade Brasileira de Física

O Brasil sem dúvida apresenta muitos problemas, demandando grande esforço conjunto para atingirmos o grau de desenvolvimento humano que nosso povo tanto merece e necessita. Mas apesar de todas as nossas dificuldades e deficiências, vivemos numa sociedade ampla e dinâmica, com claro potencial de crescimento, e que para tal pode contar com diferentes organizações da sociedade civil capacitadas e preocupadas com o desenvolvimento brasileiro. Dentre essas instituições, sem dúvida as universidades, e em especial as universidades públicas, personificam a geração de conhecimento, ideias e análises críticas tão necessárias ao progresso social que almejamos. A própria designação universidade (do latim ‘universitas’, ou seja, o todo), remete a sua função primordial, que é criar conhecimento e transmiti-lo na forma mais diversa e geral concebível. Isto é justamente a pluralidade que a sociedade tanto precisa, englobando todos os saberes: artísticos, científicos, humanísticos, técnicos, etc.

É dentro deste panorama que a Sociedade Brasileira de Física (SBF) repudia duas posturas recentes do governo federal, totalmente contrárias à maneira correta de melhorarmos a formação, e assim a qualidade de vida, de nossa população. Primeiro com o anúncio (no dia 26 de abril) de estarem sendo realizados “estudos” com o intuito de restringir investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia.  O segundo com a comunicação (no dia 30/04) de que haverá corte de orçamento para todas as instituições federais de ensino (universidade e institutos federais), com o contingenciamento de 30% do valor previsto de repasse para o segundo semestre de 2019.

Por um lado, a Filosofia fundamenta toda e qualquer indagação humana, substanciando o saber, bem como norteando sua busca. Negligenciar o pensamento filosófico em última instância representa negligenciar o próprio domínio do conhecimento pelo indivíduo, seja ele de qualquer especificidade. Por outro lado, o ser humano é uma espécie social por essência, nossos propósitos e anseios passam por vivencia-los em coletividade. Se o objetivo é respeitar o indivíduo, para que o mesmo tenha condições de melhorar a sociedade em sua volta, antes de mais nada precisamos perguntar que sociedade é esta que queremos melhorar, como ela se organiza, como ela evolui. É justamente a Sociologia que busca esse entendimento, que tenta estabelecer os parâmetros relevantes de sua construção, exatamente aqueles que deverão orientar um governo cuja função seja a busca do bem estar geral. Somente uma formação humanista crítica em conjunto com uma formação científico-técnica de qualidade conseguirão promover o aprimoramento de nossos cidadãos, e consequentemente de nosso país. Descartar esta ou aquela área do conhecimento é negar à sociedade seu pleno desenvolvimento.

Se supressão de financiamento em duas áreas tão importantes quanto Filosofia e Sociologia já representam uma tragédia na tentativa de melhorar nossa sociedade, o que dirá o corte drástico nas verbas de todas as instituições federais de ensino superior? Abraham Weintraub, ministro da Educação, declarou em 29/04 que iria cortar verbas de três instituições, Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal Fluminense (UFF), e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), por não apresentarem desempenho acadêmico esperado (apesar das três estarem entre as vinte universidades mais produtivas do país segundo o ‘Leiden Ranking’, bem como outros institutos de ranqueamento de universidades). O ministro citou “balbúrdia” como qualificativo para tal ação, mas sem explicar o que isso significa. Com a forte repercussão negativa e debaixo de muitas críticas, de maneira ainda mais surpreendente resolveu estender a mencionada redução a todas as instituições federais de ensino superior. Importante lembrar que desde de meados de 2015 as universidades e institutos federais vêm sofrendo sucessivos cortes em seus orçamentos. Isso faz com que tenham que desenvolver suas atividades de ensino, pesquisa e extensão num limite extremo de dificuldades financeiras, porém sempre tentando manter tais atividades com a qualidade necessária e desejada.

O ministro do MEC chegou a mencionar que com o dinheiro gasto com cada aluno de nível superior poderia manter dez vagas em creches. O Brasil necessita das vagas nas universidades públicas bem como precisa das vagas em creches. Não é uma questão de uma possibilidade versus a outra. A questão fundamental é tomar consciência do que é real prioridade em nossa nação. Certamente educação, como saúde, como segurança, como preservação de nossas riquezas e patrimônio ambiental, além de qualificação profissional e trabalho para nossa gente são prioridades. É função de um governo empenhado em construir um futuro melhor privilegiar ações realmente racionais que nos levarão a essa evolução. Isso tudo passa por conhecimento, por análise crítica e por planejamento. Com certeza Filosofia e Sociologia, além de Física e de todas as outras áreas do conhecimento, poderiam mostrar caminhos para equilibrar o orçamento federal, e quais eventuais cortes (partindo do pressuposto de que são realmente necessários) evitariam tirar o Brasil da rota em direção a uma sociedade mais justa e próspera.

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